Se o Planeta 9 existe, por que ainda não fomos capazes de detectá-lo?

Por Patrícia Gnipper | 06 de Julho de 2018 às 17h04
R. Hurt/Caltech

Há muito se especula sobre um suposto planeta desconhecido nos confins do Sistema Solar, que ora é chamado de Planeta 9, ou também de Planeta X. A própria NASA já admitiu que as evidências de que nosso quintal espacial abriga um planeta aguardando ser descoberto são grandes demais para serem ignoradas, e a órbita estranha de objetos além de Netuno poderia ser explicada por um planeta na região.

Ainda, teóricos da conspiração alegam que o tal planeta seria o folclórico Nibiru, que, segundo o mito, estaria em rota de colisão com a Terra e seria responsável pelo fim do mundo. Mas, deixando especulações sensacionalistas de lado, a questão que fica é a seguinte: em uma época em que temos poderosos telescópios em terra e no espaço, com a ciência espacial avançando a passos largos nas últimas décadas, como seria possível o Sistema Solar abrigar um planeta que nunca foi observado e, portanto, não há confirmação de sua existência?

Tentando responder a esta questão, um grupo de astrofísicos se reuniu na Caltech para um workshop sobre o Planeta 9, cuja primeira grande evidência surgiu em 2014, quando a descoberta de um planetoide revelou mini-mundos congelados além do Cinturão de Kuiper, que apresentavam semelhanças em suas órbitas. E "se eles estão na mesma órbita, então algo as está empurrando", conforme opinou Scott Sheppard, astrônomo do Carnegie Institution for Science e co-descobridor do planetoide de 2014.

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As justificativas

Bom, para começar a tentar explicar por que o Planeta 9 ainda não foi descoberto (levando em consideração que ele exista, em primeiro lugar), há de se considerar a questão da luz refletida pelos planetas. A intensidade da luz do Sol enfraquece por um fator de quatro na saída, voltando quatro vezes ainda mais fraca após a reflexão. Então, a uma distância orbital de 600 unidades astronômicas, o Planeta 9 seria 160 mil vezes mais escuro do que Netuno, o que dificulta (e muito) uma observação daqui da Terra.

Ainda assim, uma equipe vem procurando pelo Planeta 9 com o telescópio Subaru, no Havaí, cujo amplo campo de visão ajuda os cientistas a vasculharem uma área ainda maior do espaço. Em termos comparativos, o campo de visão do Subaru equivale ao tamanho de 4 mil Luas cheias e, para um dos pesquisadores do projeto, fazer essa busca com outros telescópios seria como "olhar através de um canudo". Contudo, noites com ventania e nuvens espessas atrapalharam muitas das observações planejadas.

O telescópio de Subaru (Foto: Subaru Telescope)

Outros especialistas consideram que o Planeta 9 pode estar aparentemente invisível aos olhos da Terra, talvez escondido pela poluição luminosa da Via Láctea, ou escondido no brilho de uma estrela extremamente brilhante na mesma direção. Também deve-se considerar que, segundo simulações computacionais, a órbita do suposto planeta seria muito ampla e distante, levando milhares de anos para dar uma única volta.

Para burlar essa dificuldade, uma ideia seria procurar o brilho do calor que o corpo deve emitir diretamente. A possibilidade de o tal Planeta 9 ser um objeto maior e mais quente do que um gigante gasoso parece ter sido descartada com uma análise de dados de infravermelho feita em 2014, mas os astrofísicos esperam que o suposto planeta, mais frio, brilhe na parte milimétrica do espectro.

Aí surge um outro problema: os telescópios milimétricos do mundo até seriam capazes de detectar o Planeta 9 com a tecnologia atual, mas, para isso, eles precisariam desviar seu atual campo de pesquisa, de acordo com Gilbert Holder, cosmólogo da Universidade de Illinois. Esses instrumentos, hoje, mapeiam o fundo cósmico de micro-ondas, não estando, portanto, apontados na direção certa no momento certo. Então, Holder espera o Next Generation CMB Experiment, cujo equipamento ainda não está ativo a todo vapor, mas que é capaz de capturar micro-ondas de um planeta tão pequeno quanto a Terra. "Não haveria lugar para o Planeta 9 se esconder, uma vez que este equipamento estivesse ligado", disse.

Mas e o Hubble?

Um dos primeiros questionamentos que muita gente faz quando se depara com especulações sobre a existência do Planeta 9 é: como o Hubble consegue fotografar galáxias a até bilhões de anos-luz de distância, mas não é capaz de registrar um planeta no próprio Sistema Solar?

Inegável é o fato de que o Hubble registra imagens de galáxias extremamente distantes, com detalhes sem precedentes. Igualmente inegável, no entanto, também é sua incapacidade de fotografar Plutão, por exemplo, que, em seus registros, aparece como uma bolha desfocada no espaço. Só que isso pode ser facilmente explicado com a matemática.

À esquerda, a melhor foto que o Hubble fez de Plutão. Ao lado, uma foto do planeta-anão feita pela New Horizons (Foto: NASA)

Antes do cálculo, precisamos levar em consideração o quão grande as galáxias aparecem no céu, em comparação com pequenos corpos nos confins do Sistema Solar. Para responder à questão, é preciso saber seus tamanhos e distâncias.

Um exemplo de galáxia lindamente registrada pelo Hubble é a NGC 5584, a cerca de 72 milhões de anos-luz da Terra, abrangendo 50 mil anos-luz de tamanho. Já Plutão, a 4,67 bilhões de quilômetros, tem diâmetro de 2.400 km. Então, para medir o quão grande esses corpos aparecem em nosso céu, devemos relacionar seus tamanhos às suas distâncias, levando em consideração suas proporções na ordem de grandeza.

A proporção da galáxia em questão é de cem mil de tamanho dividido por uma centena de milhões de distância, com relação em torno de um milésimo. Já a proporção de Plutão é de mil de tamanho dividido por um bilhão de distância, sendo esta relação em torno de um milionésimo. Sendo assim, sabemos que a galáxia NGC 5584 deve aparecer cerca de 1.300 vezes maior no céu do que Plutão.

E estamos falando de Plutão, um planeta-anão conhecido por nós, sendo que sabemos, a partir de sua órbita, exatamente onde ele estará no instante de uma observação. Sendo assim, como o Planeta 9 ainda é somente uma possibilidade, não se sabe sequer se ele existe mesmo, que dirá como é sua órbita (ainda que tal órbita já tenha sido especulada e calculada computacionalmente com base na descoberta do objeto 2015 BP519, como podemos ver na imagem abaixo).

Em azul, o Sistema Solar conhecido. Em cor-de-rosa, a órbita do BP519.. Em amarelo, a órbita simulada do suposto Planetta 9 (Imagem: Lucy Reading-Ikkanda/Quanta Magazine)

Concluindo, uma vez que as galáxias, ainda que muito distantes, são muito maiores do que um único planeta, essa distância é compensada com seu diâmetro na hora de serem observadas aqui da Terra. Dessa maneira, algo localizado a milhões de anos-luz pode aparecer milhares de vezes maior no céu do que algo dentro do Sistema Solar. Por isso telescópios poderosos, como o Hubble, são incríveis na hora de fotografar tais galáxias, mas não registram imagens muito legais dos nossos vizinhos espaciais — sendo necessário enviar missões especiais para a órbita desses planetas, como foi o caso da New Horizons, que estudou Plutão de pertinho em 2015.

Fonte: Quanta Magazine, The Planetary Society

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