Satélites Starlink também ameaçam busca por asteroides potencialmente perigosos

Por Patrícia Gnipper | 22 de Março de 2020 às 21h00
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Os satélites que Elon Musk vem lançando periodicamente têm potencial real de prejudicar projetos que buscam por asteroides potencialmente perigosos à Terra. É o que revela um novo estudo do astrônomo Jonathan McDowell, do Centro de Astrofísica Harvard-Smithsonian.

Desde meados de 2019 vemos a comunidade científica alertar quanto ao risco que a constelação de satélites Starlink, da SpaceX, representaria para as observações espaciais feitas a partir de telescópios terrestres. Em maio, logo depois de o projeto lançar os primeiros 60 satélites da constelação que pode chegar a 42 mil unidades, astrônomos já demonstravam preocupações iniciais de que a reflexividade dos satélites de internet poderia prejudicar seus estudos, mas Musk disse que isso não aconteceria. Contudo, depois de mais alguns lançamentos, cientistas começaram a provar que os satélites Starlink estavam, sim, aparecendo em suas observações.

Em novembro de 2019, strônomos do Observatório Interamericano de Cerro Tololo (CTIO) registraram como alguns poucos satélites Starlink já prejudicaram seus trabalhos. Cada uma das trilhas na imagem mostra a passagem de um satélite (Foto: NSF’s National Optical-Infrared Astronomy Research Laboratory/CTIO/AURA/DELVE)

Meses depois, em fevereiro de 2020, a União Astronômica Internacional (IAU) reforçou esses alertas, afirmando que "as observações astronômicas serão severamente afetadas" por conta disso, causando impactos não somente nos estudos feitos em comprimentos de onda ópticos, como também nas observações de comprimentos de onda de rádio — ou seja, a radioastronomia. Nos últimos anos, grandes radiotelescópios foram construídos, capazes de estudar objetos espaciais que emitem pouca luz visível, mas emitem ondas de rádio, que são capturadas por essas antenas.

Estamos falando de planetas e galáxias distantes, bem como de nuvens de gás e poeira onde se formam as estrelas. Inclusive, a primeira imagem real de um buraco negro, divulgada no ano passado, foi viabilizada graças ao trabalho de uma rede de radiotelescópios espalhados pelo mundo, que atuaram em conjunto como se fossem um telescópio virtual gigantesco, do tamanho da Terra. Ainda, a IAU estima que as trilhas dos satélites Starlink ficarão suficientemente brilhantes para "saturar detectores modernos em grandes telescópios", com entre 30% e 50% das imagens registradas durante o crepúsculo pelo vindouro Observatório Vera Rubin sendo afetadas.

Buraco negro que fica no centro da galáxia M87. A imagem mostra um anel brilhante formado à medida que a luz se dobra na gravidade intensa ao redor do buraco negro (Foto: EHT)

O estudo de McDowell, que se dedica a buscar asteroides potencialmente perigosos que porventura estejam próximos da Terra, ainda não foi revisado por pares, mas, quando isso for feito, ele será publicado no Astrophysical Journal Letters. Ao modelar quantos satélites, em uma constelação inicial de 12 mil unidades, refletiriam a luz do Sol acima do horizonte a partir de três latitudes diferentes na Terra, o astrônomo afirma que "centenas de satélites estarão acima do horizonte em todos os momentos da noite" e "durante o crepúsculo do inverno e toda a noite de verão, a maioria deles estará iluminada".

E as pesquisas de asteroides próximos da Terra incluem observações feitas no crepúsculo, justamente "uma época em que os satélites estarão iluminados o ano todo", continua McDowell. É que, para detectar esses objetos menores viajando perto da estrela do Sistema Solar, os pesquisadores procuram por eles logo após o pôr do Sol. O mais grave é que, apesar de regulamentações terem o potencial de resolver o problema, as medidas propostas até o momento não são eficazes, na visão do especialista.

Depois das primeiras polêmicas sobre este assunto, Musk chegou a testar um revestimento escuro em alguns de seus satélites, com o objetivo de verificar se tal solução resolveria o problema. No entanto, antes mesmo de descobrir a resposta a SpaceX continuou fazendo novos lançamentos com 60 satélites em cada. O projeto já conta com quase 360 objetos em órbita. Até o final de 2020, a empresa planeja ter mais de 1.500 unidades lançadas — e tudo isso falando apenas da SpaceX.

É que outras iniciativas similares estão em andamento, como a OneWeb, que já lançou 74 satélites, prevendo um total inicial de 650 unidades para começar a oferecer seu serviço de internet banda larga a todo o mundo. O projeto final considera um total de até 2 mil. Outras iniciativas do tipo são o projeto Athena, do Facebook, e o Kuiper, da Amazon — estes que ainda não começaram seus lançamentos, mas devem fazê-los em breve.

Fonte: Space Daily

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