SpaceX vai revestir satélites Starlink para não atrapalhar a astronomia; entenda

Por Patrícia Gnipper | 10 de Dezembro de 2019 às 11h12
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A luz refletida pelos até então cerca de 120 satélites Starlink lançados à órbita da Terra já tem atrapalhado observações astronômicas a partir do solo — e os planos da SpaceX para o projeto é que ele conte com até 42 mil satélites quando concluído, tudo para fornecer internet de alta velocidade a todo o planeta. Se 120 objetos já estão causando problemas, que dirá mais de 40 mil — e, por isso, a empresa de Elon Musk está trabalhando em uma medida que pode resolver o problema.

Gwynne Shotwell, presidente chefe de operações da SpaceX, afirmou que um dos satélites Starlink a ser lançado no final de dezembro, no próximo lote de 60 unidades, será usado como cobaia neste sentido: ele contará com um revestimento especial projetado para tornar o satélite menos reflexivo, na tentativa de reduzir a interferência em observações espaciais.

Shotwell, contudo, ressalta que este é apenas um experimento inicial, e ainda não se sabe se a medida funcionará para ser empregada nos lotes futuros. Ela garante que a SpaceX está levando a questão a sério, pois não quer ser a responsável por possivelmente arruinar a astronomia baseada na superfície — até porque telescópios espaciais não podem substituir os observatórios terrestres. "Queremos ter certeza de que fazemos a coisa certa para garantir que as pequenas crianças também possam olhar através de telescópios. A astronomia é uma das poucas coisas que deixam as crianças entusiasmadas com o espaço", declarou Shotwell.

Aplicar um revestimento escuro a um único satélite, que será lançado com outros 59 de uma só vez, é somente um primeiro passo na busca de uma solução permanente. Shotwell disse também que a SpaceX pretende lançar lotes de 60 unidades a cada duas ou três semanas em 2020, pois quer já começar a fornecer alguma cobertura até o final do mesmo ano. Ou seja: a questão de resolver a reflexividade dos satélites Starlink é urgente.

Shotwell ainda revelou que ninguém na empresa previu o problema quando os satélites foram projetados. "Nós não pensamos nisso. A comunidade da astronomia não pensou nisso", disse. Contudo, vale lembrar que, antes mesmo do primeiro lançamento, que aconteceu em maio de 2019, já havia, sim, cientistas levantando a suspeita de que a constelação de satélites afetaria negativamente as observações astronômicas. Um exemplo é este artigo publicado em abril no The Space Reviews, no qual há o alerta de que interferências de radiofrequência (RFI) poderiam ser causadas pelos Starlink a observações de radiotelescópios, sendo que as RFI "podem destruir completamente os dados observados por um cientista, ou potencialmente enganá-lo com pontos de dados inválidos", nas palavras do autor.

Também vale lembrar que, em maio, logo depois do lançamento do primeiro lote, Elon Musk garantiu que os satélites Starlink causariam "zero impacto na astronomia" — o que vem sendo desmentido desde então por cientistas que já têm tido suas observações astronômicas afetadas pelo brilho dos satélites da SpaceX em determinados momentos da noite.

De qualquer maneira, ainda que a "briga" entre a SpaceX e a comunidade científica não tenha acabado por conta disso, é importante ressaltar que a empresa, mesmo com certa demora, está se preocupando com o problema que já causa. E a escolha de testar o revestimento em apenas um dos 60 próximos satélites a serem lançados tem motivo: o revestimento especial que será aplicado pode afetar o desempenho do satélite. Por isso, apenas um servirá como cobaia para os testes, com análises sendo feitas a todo instante para confirmar, ou negar, a suspeita de que seu desempenho pode ser impactado pelo revestimento em questão.

Enquanto isso, o tempo não para e o cronograma de lançamentos dos satélites Starlink permanece o mesmo. Postergar os próximos lançamentos poderia ser uma saída amigável aos olhos da comunidade científica, pois, com o projeto pausado, a empresa poderia se dedicar a fazer todos os testes necessários e só retomar os lançamentos quando encontrasse uma solução à questão da reflexividade dos satélites. Mas Elon Musk não parece disposto a atrasar seus planos, o que significaria prejuízo, para priorizar o "zero impacto na astronomia" que prometeu meses atrás. E Shotwell ainda antecipa que, para solucionar a questão de uma maneira satisfatória para ambos os lados, serão necessárias "algumas tentativas e erros", o que pode levar sabe-se lá quanto tempo. "Mas vamos resolver", ela garante.

Fonte: Space News

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