Essa foi a maior tempestade solar dos últimos séculos — e pode se repetir um dia

Por Daniele Cavalcante | 07 de Janeiro de 2021 às 08h40
ISAS/JAXA

O Sol é benevolente e fundamental à vida, mas às vezes ele pode ser muito raivoso. Em sua superfície, ocorrem uma série de atividades iniciadas por mecanismos que os cientistas ainda estão quebrando a cabeça para entender. O que sabemos até agora é que as linhas de campos magnéticos, às vezes, cruzam entre si, causando uma turbulência na superfície. Isso pode — ou não — resultar em intensas tempestades de energia e partículas perigosas para nós, humanos dependentes de tecnologias modernas.

Muitos esforços científicos estão aplicados hoje na tentativa de prever essas turbulências, ou erupções solares, e determinar a intensidade com que essas rajadas podem atingir nosso planeta. A preocupação é mais que justificável, é urgente. Se formos atingidos por uma explosão solar muito forte, todos os nossos sistemas eletrônicos poderiam ser prejudicados, incluindo satélites de comunicação e sistemas de voo. E uma tempestade dessa magnitude já nos atingiu antes.

Foi no ano 774 que uma explosão extremamente poderosa veio do espaço e atingiu a Terra numa mistura de luz, energia e partículas subatômicas extremamente aceleradas. O impacto foi tão grande em nosso planeta que toda a química da nossa atmosfera foi alterada o suficiente para ser medida hoje.

Através de análises no gelo e nos anéis das árvores, os cientistas encontraram isótopos incomuns de carbono, berílio e cloro, em níveis bastante elevados. Os isótopos são variantes de elementos químicos que apresentam um número de nêutrons, e podem fornecer muitas informações sobre o ambiente. No caso dos elementos encontrados nos gelos e nas árvores antigas, os isótopos informaram sobre a atmosfera de uma época correspondente a 1247 anos atrás.

No lado direito, o Sol no final de 2019 em sua atividade mínima. Em contraste, o lado esquerdo mostra no máximo solar, conforme detectado em abril de 2014, durante a metade do Ciclo Solar 24 (Imagem: Reprodução/NASA/SDO)

Quando os pesquisadores encontraram esses vestígios, concluíram que alguma coisa muito poderosa atingiu a Terra. É que todos esses isótopos têm em comum o fato de que só podem ser criados através de partículas subatômicas de energia extremamente alta atingindo o ar e a superfície da Terra, e a única maneira de isso acontecer é a partir espaço — mais precisamente de explosões geradas pelos campos magnéticos das estrelas. Temos apenas uma estrela perto de nosso planeta, então a responsável foi uma tempestade solar.

Felizmente, a humanidade na época ainda não era dominada por componentes eletrônicos, então a coisa que a explosão solar mais afetou foi nossa atmosfera, mas nada danoso para a vida na Terra. No entanto, se isso se repetir nos dias de hoje, os resultados serão catastróficos. Quando se fala da necessidade de nos protegermos de tempestades solares, costuma-se citar eventos recentes como o de 1956, considerada a maior da nossa era, ou a de 1989, que explodiu os transformadores em Quebec e causou uma queda de energia que durou horas. Mas a explosão solar de 774 foi 100 vezes mais forte do que o de 1989. Para exemplificar melhor o impacto, foi equivalente a cerca de 100 bilhões de bombas de um megaton explodindo.

Mas será que o Sol pode repetir uma explosão tão magnífica e terrível quanto aquela de séculos atrás? É difícil dizer. Aquela foi a maior tempestade dos últimos 10 mil anos, então talvez seja muito difícil para nossa estrela repetir a façanha. Por outro lado, os astrônomos ainda estão tentando prever com precisão as manchas solares, que surgem momentos antes de uma erupção solar, então há um longo caminho a percorrer até que se possa compreender todos os mecanismos que levam a essas explosões aparentemente repentinas.

Apesar do otimismo dos cientistas para os próximos anos, o Sol teve um acesso de fúria em 2012, quando uma ejeção de massa coronal foi expelida — felizmente enviada a outra direção, longe da Terra. Se tivesse nos atingido, seria pior que o evento de 1989.

Nosso Sol entrou agora em um novo ciclo solar. Cada ciclo tem duração aproximada de 11 anos, e este início do Ciclo 25 começa com pouca atividade. Quando existem mais manchas solares, sabemos que o Sol está passando por um máximo solar, o que deverá ocorrer por volta de 2025, para então voltar a diminuir até atingir o mínimo solar, que ocorre quando a quantidade de manchas são reduzidas para a menor quantidade do ciclo.

Cientistas têm dito que não deve haver muitos problemas durante o Ciclo 25, pois a atividade solar será semelhante à do ciclo anterior. Contudo, outros estudos sugerem que veremos maior quantidade de manchas solares nos próximos anos. Vale lembrar que nem toda mancha virá junto de uma erupção solar, mas, quanto maiores e mais numerosas, mais chances há de algo mais intenso acabar acontecendo na superfície da nossa estrela. Por isso, a capacidade de prevê-las é fundamental para que as autoridades encontrem meios de proteger os equipamentos eletrônicos em órbita, como satélites, antes de serem atingidos por uma rajada catastrófica.

Fonte: Bad Astronomy

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