Choque de estágio de foguete na Lua não poderá ser visto em tempo real

Choque de estágio de foguete na Lua não poderá ser visto em tempo real

Por Danielle Cassita | Editado por Patrícia Gnipper | 28 de Janeiro de 2022 às 17h10
NASA

O segundo estágio de um foguete da SpaceX, empresa espacial de Elon Musk, deve se chocar com a Lua em março deste ano. Contudo, dificilmente alguma sonda que orbita nosso satélite natural poderá observar o impacto em tempo real. O que deverá ser possível será visualizar a cratera deixada pelo impacto, apenas.

De acordo com informações de astrônomos amadores e profissionais, o estágio do foguete vai se chocar com o lado afastado da Lua no dia 4 de março, em uma região próxima do equador lunar.

O foguete em questão foi lançado m 2015, levando o satélite Deep Space Climate Observatory com destino ao Ponto de Lagrange 1 (L1) — trata-se de uma região de estabilidade gravitacional a mais de 1 milhão de quilômetros da Terra. Após um longo acionamento dos motores do segundo estágio, para alcançar uma órbita de transferência, o satélite começou a seguir viagem ao seu destino.

Só que, desde aquele momento, o estágio do foguete estava tão alto que não tinha combustível suficiente para voltar para a atmosfera da Terra, e também não tinha a energia necessária para escapar da gravidade exercida por nosso planeta e pela Lua. Por isso, o estágio vem viajando em uma órbita um tanto caótica desde 2015.

Lançamento do satélite Deep Space Climate Observatory, com o foguete Falcon 9 da SpaceX (Imagem: Reprodução/SpaceX)

Onde o foguete vai se chocar na Lua?

Bill Gray é criador do Project Pluto, um software utilizado para monitorar objetos, asteroides, cometas e outros corpos de interesse próximos da Terra. No início de janeiro, ele reuniu astrônomos profissionais e amadores para conduzir novas observações do estágio, como uma forma de descobrir quando acontecerá a colisão na Lua e onde isso poderá ocorrer.

Até o momento, eles acreditam que o foguete deverá atingir a superfície lunar no dia 4 de março, por volta das 9h25 (horário de Brasília). O impacto deverá ocorrer na cratera Hertzsprung, uma formação com 500 km de diâmetro localizada no lado afastado da Lua — mas vale ter em mente que estas previsões podem variar conforme novos dados forem obtidos. Mesmo com as estimativas, Gray traz algumas ressalvas importantes.

O local da possível colisão está indicado em verde (Imagem: Reprodução/Bill Gray)

Primeiro, o estágio do foguete parece estar tombando — e este movimento pode ser intensificado pela luz solar, que pode ajudar a empurrá-lo. Apesar de ser pequeno, o efeito da luz precisa ser considerado e irá se acumular nas próximas semanas até o impacto acontecer. Por isso, Gray considera que novas observações podem ser realizadas no início de fevereiro, para aproveitar o momento em que o foguete passar mais perto da Terra e, assim, permitir refinar as estimativas.

Sondas na Lua podem ver a cratera de impacto

É pouco provável que o estágio do foguete acabe atingindo algum satélite artificial na órbita da Lua, porque existem poucos deles por lá. Por outro lado, a possível colisão representa uma oportunidade rara para missões estudarem os efeitos de um objeto atingindo a superfície do lado afastado do nosso satélite artificial.

Uma dessas missões é a Lunar Reconnaissance Orbiter (LRO), uma sonda da NASA que estuda a Lua em uma órbita elíptica, passando pelo polo sul. Segundo a equipe da missão, a LRO não deverá estar no lugar adequado para observar o impacto, mas eles vão tentar encontrar o objeto que o causou depois que ela por lá. Além disso, novas observações serão necessárias para refinar o local e horário do impacto.

Representação da LRO (Imagem: Reprodução/NASA)

Outra opção seria o orbitador da missão Chandrayaan-2, da Índia. Atualmente, o orbitador está mapeando a topografia da Lua, investigando os minerais na superfície e a abundância de elementos por lá, e poderia também conferir o impacto. Contudo, Gray acredita que tanto a sonda indiana quanto a LRO não estarão no “lugar certo, na hora certa” para acompanhar o evento, mas devem passar pelo local depois e podem conferir a cratera recém-formada.

O que diz a NASA sobre o caso?

As câmeras que equipam a LRO têm resolução suficiente para identificar a cratera deixada pelo impacto (Imagem: Reprodução/NASA)

A NASA está acompanhando a trajetória do estágio do foguete e, de acordo com a agência espacial, a sonda LRO não estará na posição adequada para observar o impacto do foguete no momento da colisão. Felizmente, a equipe da missão está avaliando a possibilidade de realizar novas observações, como uma forma de descobrir possíveis mudanças no ambiente lunar relacionadas à colisão e identificar a cratera posteriormente. 

Além disso, a NASA destacou também as oportunidades de pesquisa que este evento único oferece. "Após o impacto, a missão pode usar suas câmeras para identificar o local do impacto, comparando imagens mais antigas com aquelas feitas após a colisão", explicaram, em um comunicado. Contudo, a agência espacial adianta que as buscas pela cratera não serão fáceis, e podem levar de algumas semanas a meses. 

John Keller, cientista adjunto de projeto da LRO, explicou que o sistema de câmeras Lunar Reconnaissance Orbital Cameras (LROC) tem resolução suficiente para detectar a cratera deixada pela colisão. "A Lua está cheia de crateras de impacto frescas, de modo que a identificação positiva é baseada em imagens de antes e depois em condições similares de iluminação", disse ele ao Canaltech. "Vamos procurar o que não estava por lá antes", garantiu.

Chang'e 4: a missão chinesa poderá ver a colisão do foguete?

Hoje, a China tem a missão Chang’e 4 investigando o lado afastado da Lua. Originalmente, esta missão foi pensada como uma “reserva” para a Chang’e 3, mas como tudo correu bem no pouso de sua antecessora, ela passou por algumas mudanças em seus objetivos. A Chang’e 4 é composta pelo rover Yutu-2, um módulo de pouso e um satélite que auxilia na comunicação.

O rover Yutu-2 vem explorando o lado fastado da Lua desde 2019 (Imagem: Reprodução/CNSA/CLEP)

Até o momento da publicação desta matéria, a China não declarou se o orbitador da missão poderá observar o local do impacto. Outra opção seria o rover Yutu-2, que, assim como seu módulo de pouso, já completou mais de mil dias de missão em solo lunar.

Recentemente, o veículo explorou a região da cratera Van Kármán para estudar uma rocha de forma curiosa, que lembrava até um cubo. Mas a cratera em questão é um tanto distante da Hertzsprung, local em que o impacto poderá acontecer e, por enquanto, o país não divulgou se é possível direcionar o robô para lá, ainda mais em tão pouco tempo.

Ainda assim, caso a agência espacial chinesa dê informações oficiais sobre o assunto, esta matéria será atualizada.

Fonte: Com informações de: Project Pluto 

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