10 curiosidades sobre o asteroide Bennu

Por Daniele Cavalcante | 19 de Outubro de 2020 às 20h20
NASA/Goddard/University of Arizona
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A NASA já está no clima de alta expectativa para o momento mais importante e complexo da missão OSIRIS-REx: a coleta de amostras da superfície do asteroide Bennu, especificamente dentro de uma cratera chamada Nightingale. A manobra de coleta será amanhã (20), mas a agência espacial já está compartilhando uma série de informações e curiosidades científicas sobre a rocha espacial.

Será a primeira vez que uma nave dos EUA tentará realizar uma missão desse tipo. A nave em questão é a OSIRIS-REx, e as amostras que ela trará à Terra em 2023 devem fornecer aos cientistas pistas sobre a formação do Sistema Solar. A tarefa não será fácil. Na verdade, há uma série de desafios durante cada sequência de manobras que a sonda robótica terá que executar.

Além de ser um asteroide relativamente pequeno, com cerca de 500 metros de diâmetro, há diversas rochas do tamanho de casas sobre sua superfície. A NASA comparou as manobras necessárias para o pouso a como tentar estacionar uma van em um estacionamento onde há apenas uma vaga livre. Considerando que tudo será feito em um lugar bem longe do nosso planeta, sem transmissão de vídeo exatamente tempo real (dada a distância, que impacta na velocidade da comunicação), não parece ser algo muito fácil de se fazer de longe.

Mas a NASA parece bem preparara para isso. E confiante, também. Tanto é que haverá uma cobertura ao vivo durante o evento de coleta, no qual a agência espacial vai compartilhar os mínimos detalhes com o público enquanto a OSIRIS-REx faz seu trabalho. Até lá, confira algumas curiosidades e informações que tornam o Bennu tão interessante para os cientistas, a ponto de realizarem uma missão desse porte só para buscar 60 gramas de amostras.

1) Escuridão

(Imagem: Reprodução/NASA's GSFC/U. Arizona/OSIRIS-REx Lockheed Martin)

Bennu conta com uma grande quantidade de carbono em sua composição, e isso faz com que a superfície do asteroide seja capaz de refletir apenas cerca de 4% da luz solar que o atinge. Vênus, para fins de comparação, reflete cerca de 65% da luz solar — não é à toa que este planeta costuma ser o objeto mais brilhante no céu noturno. Ou seja, Bennu seria bem escuro, mesmo se estivesse mais perto de nós.

Além disso, ele não sofreu muita mudança que causasse alteração em sua composição, e por isso o material abaixo de sua superfície há elementos químicos e rochas que estão preservados desde o nascimento do Sistema Solar.

1) Velhice

Outra marca importante do entulho espacial chamado Bennu é justamente sua idade, e principalmente o tempo em que ele se manteve intacto por bilhões de anos. De acordo com os cálculos científicos, ele parece ter se formado nos primeiros 10 milhões de anos da história do nosso Sistema Solar. Ou seja, ele tem mais de 4,5 bilhões de idade.

Sua origem parece ter sido o cinturão principal de asteroides, localizado entre as órbitas de Marte e Júpiter, mas hoje em dia ele não está tão afastado assim. É que quando o asteroide absorve a luz solar e reemite a energia na forma de calor, ele acaba sofrendo algo chamado Efeito Yarkovsky, fazendo com que se aproxime lentamente do Sol e, portanto, da Terra. Isso significa também que sua rotação é retrógrada, pois caso fosse prógrada, a força resultante afastaria o corpo para longe da nossa estrela.

3) Como assim, entulho?

(Imagem: Reprodução/NASA)

Às vezes, você encontrará descrições de Bennu dizendo que se trata de um “entulho” espacial. Bem, acabamos de chamá-lo assim nos parágrafos acima. Mas não deixe que o termo te engane, pois isso de forma alguma significa que se trata de “lixo” com pouca utilidade. A palavra entulho é usada porque o asteroide é, na verdade, formado por destroços de outros asteroides ainda mais antigos que ele.

Os pedaços rochosos foram reunidos com o passar do tempo através da atração da gravidade, e acabaram se comprimindo e formando um novo objeto. Esses “restos mortais” de asteroides antigos provavelmente vieram de corpos muito maiores que o próprio Bennu, algo com cerca de de 100 km de largura. Provavelmente, levou apenas algumas semanas para que esses fragmentos espaciais se aglutinassem na pilha de entulho que é Bennu, uma pequena rocha de 500 metros.

Por ter sido formado por fragmentos, Bennu parece um queijo suíço: está cheio de buracos por dentro. Cerca de 20 a 40% de seu volume é apenas espaço vazio no seu interior. Se começar a girar muito mais rápido ou interagir com outro objeto espacial, pode ser que ele se desmanche. Ainda bem que a OSIRIS-REx chegou a tempo antes que isso aconteça!

4) Semeadores da vida?

Bem, se Bennu tem tanta informação preservada em seu interior, o que ele pode nos revelar? Muita coisa, inclusive sobre a origem da vida na Terra. É que o asteroide talvez seja feito de material que contém as mesmas moléculas que estavam presentes no Sistema Solar quando a vida se formou na Terra.

Todas as formas de vida na Terra são baseadas em cadeias de átomos de carbono ligados a oxigênio, hidrogênio, nitrogênio e outros elementos. Lembra que Bennu é um carbonáceo? Pode ser que esse material contenha pistas sobre a origem desses elementos e o papel deles aqui em nosso planeta. Sabemos que rochas espaciais sempre caíram em nossa atmosfera, então pode ser que elas trouxeram os elementos fundamentais para a formação da vida.

Mas os cientistas também sabem que há grandes chances de que o material orgânico do asteroide não seja biológico, então talvez não seja dessa vez que encontremos as pistas sobre a origem da vida. Mesmo assim, vale a tentativa!

5) Rico em platina e ouro

(Imagem: Reprodução/NASA/Goddard/University of Arizona

Embora o ouro e a platina sejam valiosos aqui na Terra, eles são relativamente fáceis de encontrar em asteroides. Afinal, esses elementos são criados através de fusões nucleares quando uma estrela explode em supernova, espalhando-se pelo universo. No caso do Bennu, é bastante provável que ele também seja rico em platina e ouro.

Por isso, estudar este asteroide ajudará cientistas a entenderem mais sobre esse assunto, e talvez eles poderão dizer se é viável criar missões mais robustas com o objetivo de buscar os minerais valiosos dessas rochas espaciais. Mais importante ainda, a presença de água seria de grande valor, pois ela poderia ser usada para beber ou separada em seus componentes para obter ar respirável e combustíveis de foguete. Transportar esse tipo de matéria prima de um asteroide para, digamos, a Lua, poderá ajudar e muito os astronautas em missões espaciais.

6) Colisão com a Terra?

Desde a sua descoberta em 1999, Benu é considerado um objeto próximo de nós. Isso não significa que ele está tão perto quanto a Lua, por exemplo, ou que ele vai cair em nosso planeta nos próximos anos. Na verdade, as chances são pequenas — mas existem. E se existem, ele será catalogado como potencialmente perigoso.

Para tranquilizá-lo, a chance de um impacto entre os anos 2169 e 2199 é de apenas 1 em 2.700. Mas, lembre-se, ele continua se aproximando da Terra, então se ele apresentar uma ameaça em algum momento, mesmo depois dessas datas longínquas, os cientistas continuarão mantendo-o sob observação.

7) Pousar em Bennu é arriscado

Coletar amostras de Bennu será uma tarefa de alto risco para a integridade física da OSIRIS-REx. Além de ser um asteroide relativamente pequeno, há diversas rochas do tamanho de casas sobre sua superfície. A complexidade do TAG (sigla para “Touch-And-Go”, o nome do evento que consiste em tocar na superfície do asteroide para pegar as amostras e voltar ao espaço apenas poucos segundos depois) consiste não somente em descer até o chão de Bennu sem colidir com as rochas, mas também permanecer na inclinação e velocidades corretas para não cair e não prejudicar os instrumentos robóticos que tocarão no solo.

Sem conhecer esses detalhes antes das filmagens da OSIRIS-REx, os cientistas projetaram a nave para pousar dentro de uma área muito maior do que Bennu de fato oferece, aproximadamente do tamanho de um estacionamento com 100 vagas. Agora, a sonda deve manobrar em um local com menos de 100 metros quadrados, uma área de cerca de cinco vagas de estacionamento.

8) Mitologia egípcia

Bennu recebeu o nome sugerido por um garoto de nove anos que ganhou a competição “Name that Asteroid!”. Michael Puzio venceu o concurso ao sugerir que o braço e os painéis solares da OSIRIS-REx e seu mecanismo de coleta lembravam o pescoço e as asas nas ilustrações de Bennu, uma divindade que os antigos egípcios retratavam como uma garça cinzenta.

Essa divindade era ligada ao Sol, à criação e ao renascimento, e também era o ba (alma) de Osíris, surgida após a morte do deus nas mãos de Seti. O mito pareceu cair como luva ao asteroide, já que ele é um objeto que remonta à criação do Sistema Solar.

9) Vesta

(Imagem: Reprodução/NASA/Goddard/University of Arizona)

Quantos asteroides precisaram se despedaçar para formar Bennu? Essa pergunta pode ser difícil de responder por enquanto, mas os cientistas já tem pistas para começar a fazer uma lista. Um nome muito provável para um dos "pais" do Bennu é Vesta. o segundo maior asteroide do Sistema Solar, agora promovido a protoplaneta.

Os cientistas encontraram um tipo de rocha mais brilhante que as demais na superfície de Bennu, e decidiram estudar a luz refletida por elas com o espectrômetro da OSIRIS-REx. Eles concluíram que Bennu recebeu estas rochas possivelmente do asteroide que o originou após sofrer o impacto de um “vestoide”, ou seja, um fragmento de Vesta. “Quando o asteroide principal foi destruído, uma parte de seus detritos se acumularam sob sua própria gravidade ao Bennu, incluindo um pouco do piroxênio de Vesta”, disse Hannah Kaplan, cientista e pesquisadora espacial do Goddard Space Flight Center.

Enquanto o pobre asteroide atingido por Vesta parece ter se destruído, este continua em sua órbita normal.

10) Mais surpresas pela frente

A câmera de navegação da OSIRIS-REx mostrou aos cientistas que Bennu costuma expelir rumo ao espaço partículas de si mesmo algumas vezes por semana. Isso significa que ele é um asteroide ativo, o que é raro.

Mais recentemente, a equipe da missão descobriu que a luz do sol pode rachar as rochas de Bennu e que há pedaços de outro espalhados por sua superfície. Será uma tarefa curiosa tentar descobrir de quantos asteroides mais antigos o Bennu é feito. Sem dúvidas ele pode nos reservar ainda mais surpresas, então vale a pena ficarmos atentos à missão de coleta amanhã e acompanhar as pesquisas que virão a seguir.

Fonte: NASA

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