Crítica Mestres do Universo │ Um grande final que expande os limites de Eternia

Crítica Mestres do Universo │ Um grande final que expande os limites de Eternia

Por Durval Ramos | Editado por Jones Oliveira | 21 de Julho de 2021 às 12h00
Divulgação/Netflix

Toda criança que cresceu nos anos 1980 e 1990 conhece a lenda do último episódio. Em uma época sem internet e em que a TV brasileira era um caos, quase nenhum desenho era exibido na íntegra e sempre fora de ordem — apesar de tudo isso, sempre tinha alguém na escola que jurava ter visto o último episódio ou cujo primo que morava em outro país havia lhe contado como tudo acabava. Pois Mestres do Universo: Salvando Eternia é, em certa medida, um desses episódios lendários que chega com 40 anos de atraso para encerrar um dos desenhos que marcou gerações.

E esse é o grande charme da animação que chega à Netflix nesta sexta-feira (23). Salvando Eternia não é um reboot ou remake das aventuras clássicas do He-Man, mas um encerramento. Ela se propõe a ser o episódio seguinte àquele que a gente viu lá atrás e mostra como a luta do Homem Mais Poderoso do Universo contra o Esqueleto termina e, principalmente, as consequências desse confronto.

Isso não significa, porém, que você precisa ter assistido a todos os episódios do desenho de 1983 ou ser um grande conhecedor de He-Man para entender o que está acontecendo. Ainda que essa conclusão se apoie muito na nostalgia, ela também se beneficia do fato de que o desenho original nunca teve uma ordem exata de exibição, então qualquer pessoa que saiba o mínimo sobre os poderes de Grayskull consegue entender o que está sendo proposto.

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Tanto que Salvando Eternia começa justamente como se fosse um episódio qualquer da animação original — mantendo, inclusive, muito do estilo da época. As piadas ingênuas, os personagens trapalhões e até mesmo as situações bastante infantis estão presentes não como um problema, mas para deixar claro que o que a gente está vendo faz parte daquela mesma galhofa de 40 anos atrás. E isso tudo funciona muito bem.

Mestres do Universos é a conclusão do desenho que a gente esperou por quase 40 anos (Imagem: Divulgação/Netflix)

Ao mesmo tempo, a animação dá um passo adiante e muda de tom a partir de uma reviravolta um tanto quanto inesperada. É interessante ver como ela cria uma zona de conforto, montando um cenário de episódio do dia para, logo em seguida, subverter muito daquilo que a gente conhece e alterar o status quo do universo e de seus personagens. Afinal, o que aconteceria se o Esqueleto finalmente conseguisse chegar ao Castelo de Grayskull? É a partir dessa virada que as coisas ficam muito interessantes.

Cuidado! Daqui em diante este texto pode conter spoilers.

Uma nova cara

Essa mudança de tom deixa claro por que o desenho se chama Mestres do Universo, deixando de lado o nome He-Man. Embora ele siga sendo o fio condutor de toda a trama, o foco da história de Salvando Eternia está nos demais personagens, naqueles coadjuvantes que sempre existiram apenas para auxiliar o herói e nunca tiveram um desenvolvimento decente. E o que os novos episódios fazem é dar esse devido espaço tanto para os mocinhos quanto para os vilões.

Grande mérito da série está em desenvolver os personagens secundários do desenho clássico (Imagem: Divulgação/Netflix)

A heroína Teela é o maior exemplo disso. Sempre relegada ao papel de aliada, aqui ela assume o protagonismo com direito até mesmo a uma mudança de personalidade. Sem entrar em grandes spoilers, ela descobre que é a única pessoa dos heróis de Eternia que não sabia que Adam era He-Man e, por isso, abandona sua vida na corte e passa a atuar como mercenária.

Ao mesmo tempo, a magia do mundo está desaparecendo e ela é recrutada para uma missão para impedir que isso aconteça. Como não poderia deixar de ser, as únicas pessoas que podem ajudá-la são seus antigos aliados e inimigos, e é a partir dessa jornada que a gente passa a conhecer um pouco mais cada um deles para além da superficialidade do desenho original.

É aqui que Mestres do Universo: Salvando Eternia brilha. Mesmo tendo apenas cinco episódios, o roteiro cria situações que permitem que cada um dos personagens clássicos seja aprofundado e evolua. Vemos sobre as dores do Mentor e sua vida de segredos, a frustração de Gorpo de não ser nada daquilo que todos esperavam e até mesmo a vilã Maligna encontra espaço para ser trabalhada e ganhar novas facetas, sobretudo em relação às suas motivações e no porquê de sempre estar junto do Esqueleto. Ela é, sem sombra de dúvidas, a melhor coisa desse desenho.

He-Man não está no título, mas segue sendo o fio condutor de toda a história (Imagem: Divulgação/Netflix)

E curiosamente, apesar de esse desenvolvimento de personagens secundários ser o maior acerto da animação da Netflix, a trama consegue dar um jeito fenomenal de jogar tudo isso no lixo em questão de minutos. Toda a evolução desses personagens é descartada em favor de um plot twist previsível que está ali apenas para restabelecer um status quo que a série se empenha em desconstruir.

Em questão de uma ou duas cenas, toda essa evolução que a gente acompanhou é esquecida para fazer as coisas voltarem a ser como eram antes porque alguém achou que isso era necessário, empobrecendo demais tanto o roteiro quanto os próprios personagens que estavam sendo muito bem trabalhados até ali. É claro que isso pode ser revertido na segunda metade da animação, que ainda não tem data para ser lançada, mas essa primeira parte termina jogando fora aquilo que ela tem de melhor a troco de nada.

Expandindo o universo

E se a conclusão dessa primeira parte de Mestres do Universo: Salvando Eternia tropeça em seu próprio fechamento, o caminho até lá se revela bastante interessante. Para quem esperava algo galhofa ao nível do original, vai encontrar um desenho que consegue não só ter personagens interessantes, como também expandir as histórias desse mundo de formas bem criativas.

Salvando Eternia expande a mitologia da série e destaca a importância do personagem (Imagem: Divulgação/Netflix)

O grande mérito de Kevin Smith — que assume a criação, produção e roteiros da série — é conhecer demais o universo em questão, seja do desenho clássico, dos brinquedos e das aventuras em quadrinhos. Ele consegue pegar o que há de melhor em cada uma dessas mídias e trazer para a nova animação para fazer com que Eternia realmente seja um lugar interessante.

E isso aparece de várias formas ao longo dos episódios, seja nas revelações sobre o Castelo de Grayskull e sua relação com a magia do mundo, o surgimento de uma seita tecnológica que aproveita muito bem vilões como o Mandíbula e Triclope e até mesmo ao apresentar os antigos campeões de Eternia. Há até referências ao boneco He-Ro — um antepassado do He-Man que lutava com sua força e também com poderes mágicos —, que é colocado na história de forma bastante orgânica, provando que nada daquilo que foi criado antes foi realmente descartado. Só não espere referências à She-Ra (pelo menos por enquanto).

História explora até mesmo os vilões série C do desenho e faz com que eles explorem bem o universo de Eternia (Imagem: Divulgação/Netflix)

Tudo isso mostra como é possível trabalhar uma mitologia vasta que vai muito além da lição de moral no fim do episódio. Nesse sentido, Mestres do Universo: Salvando Eternia se sai muito bem e faz, inclusive, com que você queira saber mais sobre o passado daquele mundo, seus antigos heróis e as lendas em torno deles.

Versão brasileira

Na versão original, a animação trouxe um elenco de peso para dar novas vozes a He-Man e os Defensores do Universo, com direito até mesmo a Mark Hammil no elenco. Só que é impossível a gente voltar para Eternia com vozes em inglês, já que o “Eu tenho a Força” é algo que já faz parte do nosso imaginário em português. E, nesse ponto, a nostalgia na qual Salvando Eternia se apoia acaba criando algumas armadilhas para ela mesma.

Salvando Eternia tropeça ao tentar emular as vozes dos dubladores originais (Imagem: Divulgação/Netflix)

Mesmo que você não tenha assistido a um episódio do desenho original há anos, as vozes dos dubladores brasileiros ainda ecoam em nossas memórias. Não há outra forma de ver o He-Man sem o timbre do ator Garcia Júnior ou a voz arranhada de Isaac Bardavid. E por mais que os novos dubladores entreguem um bom trabalho, fica a clara sensação de que há algo errado.

O principal problema aqui vai além do simples “Não é o meu He-Man”, mas a tentativa de se aproximar das vozes antigas mesmo que isso soe forçado. O Esqueleto de Guilherme Lopes é um exemplo que funciona, mas tanto o Adam quanto o He-Man de José Santana tentam a todo o instante soar como aquilo que Garcia Júnior trouxe aos personagens que o estranhamento é inevitável.

Além disso, Guilherme Briggs herdou a ingrata tarefa de substituir Orlando Drummond como Pacato e a sua tentativa de emular o lendário dublador faz com que seja quase impossível entender o que o tigre medroso fala.

Mas, novamente, a dublagem está longe de ser ruim. Ela funciona muito bem, sobretudo ao manter os nomes localizados que a gente cresceu ouvindo. O único ponto mesmo é essa busca por remeter ao clássico, mesmo que isso prejudique o resultado da interpretação — o que acontece de forma bastante pontual.

Surpresa boa

No fim das contas, Mestres do Universo: Salvando Eternia se revela uma grande surpresa, principalmente ao expandir tanto seus personagens quanto o próprio mundo em questão. É perceptível o quanto os envolvidos são apaixonados por aquele universo e cada história é como uma carta de amor ao desenho original, referenciando e respeitando tudo aquilo que a gente conhece, mas sem medo de ousar e ir além do esperado.

Pode assistir sem medo, porque animação vale a pena, mesmo com seus tropeços (Imagem: Divulgação/Netflix)

É por isso que a reviravolta final se torna tão amarga. Ela pega todos os acertos da série e os abandona para retornar as coisas a um status quo que era desnecessário até para o gancho que é deixado para a segunda metade da temporada.

No fim de tudo, é como se o He-Man aparecesse no final do episódio para trazer sua lição de moral e dizer que você não deve mexer em certas estruturas e personagens e que não se pode matar a infância de ninguém. Só que não estamos mais em 1983 e a própria série mostra o quanto mudar e evoluir é benéfico — e que, às vezes, só precisa de um pouco mais de coragem para deixar a nostalgia de lado e seguir em frente.

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