Crítica Infinite | Ação absurda, ciência religiosa e diversão garantida

Crítica Infinite | Ação absurda, ciência religiosa e diversão garantida

Por Laísa Trojaike | Editado por Jones Oliveira | 05 de Agosto de 2021 às 21h30
Divulgação/Paramount

No terror, o pastiche virou uma brincadeira generalizada, como já comentamos por aqui. Acontece que outros gêneros também estão vendo as possibilidades infinitas de combinação dos códigos, ícones, referências, clichês, formatos… Alguns lançamentos têm revelado a aprovação do público e podemos ficar felizes com a decisão do Paramount+ de lançar Infinite no Brasil, porque a diversão com o absurdo é garantida.

Por outro lado, é estranho que uma produção com rostos conhecidos e tanta explosão não tenha sido amplamente divulgada, ganhando apenas um discreto lançamento na Europa (e que se expande agora no Brasil). Será que a distribuição não estava vendo o potencial do material que tinha em mãos?

Infinite mistura ficção científica e ação de uma forma que parece misturar os legados de Matrix e dos filmes de Christopher Nolan com filmes de ação como 007, Missão:Impossível e A Identidade Bourne. Uma amálgama que obviamente não funciona no mesmo sentido que nenhuma das referências citadas: enquanto aqueles filmes são originais por criarem algo único apesar das referências, Infinite não é muito mais que um patchwork de outros filmes, mergulhado em anabolizantes (e com direito aos efeitos adversos). E é um filme maravilhosamente divertido apenas fazendo isso, ainda que isso custe as partes científicas.

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Imagem: Reprodução/Paramount+

Atenção! A partir daqui, a crítica pode conter spoilers.

Abertura

As cenas de abertura, além de geralmente apresentarem os personagens e acertarem mais ou menos alguns detalhes da trama, também servem para indicar o tom do filme. Em Infinite, a introdução é um alerta: se você não gosta de ação absurda, este pode não ser um bom filme para você.

Infinite já começa com uma discussão filosófica sobre pessoas que nascem com a habilidade de lembrar das encarnações passadas. Existem cerca de 500 exemplares desses “X-men” e, assim como nos quadrinhos da Marvel, eles estão divididos entre dois grupos antagonistas. Na sci-fi do Paramount+, no entanto, a batalha filosófica coloca como antagonistas os que veem a reencarnação como um dom e aqueles que querem extinguir essa possibilidade, libertando todas as almas de uma única vez com a extinção da vida na Terra.

Esse lado traz um teor meio Blade Runner: O Caçador de Androides (1982), resgatando deste título justamente um dos seus elementos mais criticados, que é a reflexão filosófica em voz over, com um Mark Wahlberg assumindo um tom de narrador enquanto nos introduz no universo dos Infinites. A apresentação, no entanto, não dura o suficiente para ser considerada enfadonha e logo somos arremessados no centro de uma cena de ação.

Imagem: Reprodução/Paramount+

A sequência é empolgante e já evoca o legado de carro furioso e do herói meio-brucutu, enquanto o superpiloto (cuja identidade ainda desconhecemos) foge da polícia e, em meio à ação, cauteriza uma ferida com o acendedor de cigarros do veículo. Assim, o filme já entrega que está muito mais interessado na nossa diversão do que na veracidade ou possibilidade das ações. A sequência fica tão descontrolada que vemos uma manobra de carro arremessar um tijolo como se fosse um projétil. E comemoramos a impossibilidade disso.

A homenagem à ação absurda também evoca Arranha-Céu: Coragem Sem Limite, cuja sequência do guindaste começa a ser referenciada por ser impossível (portanto maravilhosa). Tudo isso é finalizado por mais uma camada de discussão filosófica, que nos conduz ao personagem meio-Coringa de Wahlberg. Ele não se encaixa nos padrões sociais impostos e sua suposta esquizofrenia passa a ser encarada como um problema, como vemos na entrevista de emprego.

Asiáticos, só que não

A trama pseudocientífica de Infinite tenta alçar ares de sci-fis como as de Christopher Nolan, conhecidas pela tentativa de serem fisicamente acuradas (apesar dos inúmeros tropeços apontados pelos cientistas). Conforme a história se desenvolve, porém, fica cada vez mais clara a religiosidade, sobretudo espírita e budista, do filme. Não fosse o respaldo do roteiro, poderíamos pensar que a produção estaria fazendo alguma espécie sutil de whitewashing.

Imagem: Reprodução/Paramount+

O protagonista Evan McCauley tem, entre as vidas vividas, a de Hattori Hanzō, um ninja e samurai conhecido por forjar suas próprias lâminas. O nome desse ícone é bastante familiar para os fãs de animes, mas ganhou uma maior notoriedade após ser citado em Kill Bill, de Quentin Tarantino. Infinite, no entanto, apenas resgata o espadachim como um nome da cultura pop e o coloca no corpo de um ator estadunidense.

Embora não seja exatamente um bom momento para esse tipo de abordagem, o filme deixa uma pista de como fazer personagens cruzarem culturas em suas representações: com recursos como o de Infinite (aparentemente sugado do jogo Assassin’s Creed) pessoas de qualquer cor, gênero ou sexualidade podem interpretar um samurai, um indígena, um viking... Essas misturas ainda são bastante estranhas nos nichos mais industrializados do cinema, mas é um recurso comum em animes, nos quais diversos personagens misturam em sua concepção elementos de mitologias e ficções, ocidentais e orientais.

Só vai

Estabelecido o clima e os objetivos da trama, os eventos se desenvolvem, inserindo péssimos coadjuvantes, que incluem um Chiwetel Ejiofor cuja fama com 12 Anos de Escravidão parece cada vez mais injustificada. Seu vilão é uma caricatura tão non-sense que chegamos a ser arrancados da ilusão para questionar por que ele está fazendo uma espécie de pose de esgrima enquanto aponta a arma para Evan durante o interrogatório. Ele poderia ser apenas excêntrico, mas está muito longe de conseguir nos convencer com os trejeitos do seu personagem.

Imagem: Reprodução/Paramount+

A direção de arte não abandona o cientificismo e a influência de A Origem chega a render uma sequência de luta em um avião que está tentando diminuir os danos de uma iminente queda. A sequência ainda é precedida por um momento que eleva os riscos da memorável cena do avião de Missão: Impossível - Nação Secreta e coloca Wahlberg em um pastiche com selo de qualidade trash, pulando de um penhasco com uma moto, caindo na asa do avião e ficando por lá como se fosse um Gremlin. Tudo isso com o auxílio da sua Hattori Hanzō, cujo fio lendário dava à espada um ponto fraco: se não usada com precisão, ela poderia quebrar facilmente.

Mas quem se importa? O que a gente quer ver é ação e isso Infinite tem de sobra. O diretor Antoine Fuqua (O Protetor) aproveita os absurdos para nos servir um banquete de ação, com muita destruição — ainda que bastante conservadora, mostrando pouco sangue, explosões com muito entulho e pouco fogo, pedestres que escapam dos carros por um fio e corpos que voam perfeitamente inteiros após serem atingidos por uma explosão. Violência maquiada e sem peso na consciência, ou seja, mais um indicativo de que o entretenimento é o prato principal. Porque as possibilidades, claro, são infinitas.

Infinite estreia em 11 de agosto com exclusividade no catálogo do Paramount+.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech.

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