O que é whitewashing?

O que é whitewashing?

Por Laísa Trojaike | Editado por Jones Oliveira | 04 de Julho de 2021 às 16h00
Paramount/Marvel/David W. Griffith Corp./Eagle Films

A escalação de atores brancos para papéis de personagens não-brancos já rende discussões há décadas no cinema, mas antigamente era mais difícil sentir a pressão dos fãs sobre a indústria. As mudanças, urgentes desde sempre, continuam a passos lentos e uma recente declaração de Kevin Feige, presidente do Marvel Studios, reacendeu a discussão sobre whitewashing.

Em entrevista à revista Men’s Health, Feige explicou que a produção de Doutor Estranho tentou fugir do clichê étnico ao escalar a atriz Tilda Swinton para o papel do Ancião, evitando que mais uma vez um ator asiático fosse chamado para esse tipo papel. “Achávamos que estávamos sendo muito inteligentes e inovadores. Não queríamos fazer o clichê do homem asiático enrugado, velho e sábio”, esclareceu.

Ancião em uma das suas representações nos quadrinhos (à esquerda); e Tilda Swinton como Anciã em Doutor Estranho (Imagem: Reprodução/Marvel)

A escolha de Tilda é interessante por inserir no papel uma atriz conhecida por suas feições andrógenas, o que lhe rendeu também o papel do anjo Gabriel em Constantine. Ainda que seja uma representatividade feminina (outra demanda necessária), esta poderia ter sido interpretada por uma atriz asiática ou, mais especificamente, tibetana. Ou por um ator, caso houvesse interesse em manter o gênero do personagem como o conhecemos nos quadrinhos.

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Feige reconheceu que a saída não foi ética e que a demanda do público fazia sentido.

"Mas foi um alerta para dizer 'Bem, espere um minuto, há alguma outra maneira de resolver isso? Existe alguma outra maneira de não cair no clichê e escalar um ator asiático?' E a resposta para isso, claro, é 'sim'".

Com isso, o produtor admitiu um whitewashing involuntário em tom de pedidos de desculpas. Mas, afinal, o que é whitewashing?

O que é Whitewashing?

Literalmente, poderíamos traduzir esse estrangeirismo por “branqueamento”, mas provavelmente não usamos essa palavra porque o termo em inglês traz um pouco da complexidade da noção em sua estrutura. A palavra "washing" indica o ato de lavar alguma coisa, sugerindo a ideia de que certas produções estariam “lavando” o cinema com pessoas brancas, priorizando esta etnia em detrimento de outras.

Judy Garland e Mickey Rooney em Sangue de Artista, de 1939 (à esquerda); e Mickey Rooney como Sr. Yunioshi em Bonequinha de Luxo, de 1961 (Imagem: Reprodução/MGM/Paramount Pictures)

Dito assim, isso pode soar exagerado. Afinal, qual o problema de escalar Tilda para o papel? De fato, se vivêssemos em um mundo sem preconceitos, a mudança de etnia dos personagens poderia ganhar outros significados e, nessa situação ideal, talvez houvesse alguma possibilidade de a meritocracia ser viável. Mas este é um enorme e distante “se”. O que os fatos revelam é que o cenário ideal está muito distante, com o preconceito permeando toda a história do cinema, incluindo a história que se desenrola em nossos tempos.

É amplamente conhecido que estereótipos foram utilizados com intenções políticas nos quadrinhos. A ascensão da Marvel não coincide com a Guerra Fria por acaso e essa conexão histórica está impressa nas páginas dos gibis. Estadunidense, a Marvel deixava transbordar em suas histórias uma certa narrativa social e política. Bruce Banner é um físico nuclear, Quarteto Fantástico menciona diretamente a corrida espacial, diversas ambientações no Vietnã e criação de personagens como Capitão América e Guardião Vermelho. A lista é imensa.

Imagem: Reprodução/Marvel

Com a reprodução dos estereótipos ao longo de anos, russos, vietnamitas, asiáticos, negros, latinos, entre muitos outros grupos passaram a ser ligados aos vilões. O mesmo aconteceu com mulheres, pessoas com deficiência, comunidade LGBTQIA+, etc. Os autores dos quadrinhos reproduziram preconceitos, mesmo que tivessem as melhores intenções. Este não é o caso do Ancião de Doutor Estranho, porque ele não é um vilão, mas ainda assim a decisão soa excludente.

A fala de Kevin Feige revela que, ao tentar fugir de um estereótipo, uma atitude que podemos tomar como positiva, a produção acabou caindo no whitewashing. Que eles não queriam escalar um ator asiático que transmitisse a desgastada imagem do senhorzinho sábio, até aí, tudo bem. No entanto, por que não escalar um ator (ou mesmo uma atriz) tibetano para interpretar o Ancião? Será que o Tibete não tem atores bons o suficiente para um filme Marvel? É ético interpretar um personagem que não é da sua etnia? O buraco é bem mais embaixo.

À esquerda, Gabourey Sidibe no filme Preciosa (2009) e, à direita, a atriz na capa da revista Elle em outro exemplo que também pode ser entendido como whitewashing (Imagem: Reprodução/Lionsgate/Elle)

Por que é pior do que parece ser?

Quando tentamos entender os porquês, é difícil não acabar em uma busca pela raiz das coisas. Um primeiro olhar sobre o caso do Ancião de Doutor Estranho pode não dar a real dimensão da discussão, porque ela se estende além do filme. O caso Tilda Swinton é discutido desde a escalação da atriz para o filme e há uma profusão de materiais que foram surgindo, incluindo uma divulgação de trocas de e-mail entre a atriz e a comediante Margaret Cho.

O assunto é delicado porque cada novo whitewashing é uma gota em um copo que já transbordou há tempos. Não vou entrar nos méritos de quem elegeu Hollywood como parâmetro, mas é inegável que essa indústria em especial tem grande influência internacional. Em seu princípio, devido à segregação racial imposta, o glamour do cinema foi reservado às pessoas brancas, com toda uma ficção criada sobre suas vidas. É o surgimento da estrela de cinema como influencer, determinando que tais e tais estereótipos eram os “adequados”, o que acontece segundo uma complexa rede de relações que também não encontram espaço para dissecação aqui.

O Nascimento de uma Nação (1915), de D. W. Griffith, é conhecido por ser cultuado, apesar do seu conteúdo. O filme é eleito por alguns autores como o primeiro blockbuster da história do cinema, ainda que o termo soe anacrônico, mas isso é uma informação importante para indicar a dimensão de alcance que o filme teve na época. Apesar da genialidade do diretor em termos de técnica cinematográfica, o conteúdo do filme choca o espectador contemporâneo.

Imagem: Reprodução/David W. Griffith Corp.

Neste filme, Griffith exalta a Ku Klux Klan e mostra cenas terríveis em que pessoas negras são capturadas pelo grupo defensor da supremacia branca. No papel das vítimas, atores brancos fazendo uso do blackface, uma maquiagem estereotipada a partir de representações ofensivas e irreais de pessoas negras, que vinha acompanhada de uma atuação que reproduzia maneirismos estereotipados. Uma representação completamente infiel das pessoas negras, que obviamente não se sentiam e não se sentem representadas por essas imagens tão descaradamente racistas.

Mas por que não escalavam atores negros, se essas representações não faziam sentido? Porque foi disseminada a ideia de que pessoas não-brancas não eram bons atores. O que aconteceu em O Nascimento de uma Nação não foi um caso isolado: em 1961; Amor, Sublime Amor traz Natalie Wood com um descarado brownface; em 1965, o ator Lawrence Olivier ganhou um Oscar ao interpretar o personagem-título Othello, que é negro e já havia sido interpretado por Orson Welles em 1951; Uma Escola Muito Louca (1986) foi inúmeras vezes reprisado na TV aberta brasileira; e os casos seguem até os nossos dias, com a substituição do black-brown-yellowface pelo whitewashing, que é ainda mais problemático, porque é mais sutil.

Êxodo: Deuses e Reis (Imagem: Reprodução/20th Century Fox)

Um exemplo emblemático é o de Êxodo: Deuses e Reis, que teve Christian Bale como Moisés, Joel Edgerton como Ramsés e muitos outros artistas em papéis de etnias diferentes das suas. O elenco até tem, por exemplo, a presença da iraniana Golshifteh Farahani e do sírio Ghassan Massoud, mas eles aparecem em papéis secundários. Em um artigo da Variety, o diretor Ridley Scott disse que não pode “montar um filme deste orçamento [...] e dizer que meu ator principal é Mohammad fulano de tal”. Fica a pergunta: por que não?

O que acaba acontecendo é que, em vez de maquiar atores brancos para que eles se pareçam com seus personagens, porque tais e tais nomes rendem mais investimentos, opta-se por colocar os atores tais como são nas telas. As consequências são óbvias: inicia-se um processo de apagamento histórico cujos ecos podem se estender por eras, a exemplo dos mecenas e artistas que impregnaram os preconceitos e ideais de belo da época em figuras bíblicas (casos de whitewashing que remontam a artistas que viveram por volta de 1300).

A partir disso, podemos entender que o whitewashing não é algo exclusivo do cinema, sendo um problema muito mais antigo e que não deve ser encarado como “apenas mais uma ideia da moda”. Este é um assunto complexo, que exige a nossa atenção e que de forma alguma foi esgotado por este artigo.

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