Crítica Sonic 2: O Filme │ Apertando os botões certos

Crítica Sonic 2: O Filme │ Apertando os botões certos

Por Durval Ramos | Editado por Jones Oliveira | 07 de Abril de 2022 às 10h00
Divulgação/Paramount Pictures

É realmente impressionante pensar na trajetória de Sonic nos cinemas. O filme foi anunciado sendo totalmente desacreditado, virou piada e se tornou um sucesso. Agora, Sonic 2 vem não só para consolidar essa volta por cima do personagem como também para colocar o ouriço como uma das melhores coisas que já fizeram com videogames nas telonas.

Tudo isso pelo simples fato de Sonic 2: O Filme ser um filme despretensioso — tão despretensioso quanto era ir a uma locadora alugar um cartucho de Mega Drive nos anos 1990. O longa não tenta revolucionar, não se leva a sério e pega a mesma estrutura que foi tão bem aceita no primeiro longa para aparar suas arestas e entregar uma aventura tão divertida e cheia de coração feita para agradar tanto crianças quanto os marmanjos.

Pois é exatamente nesse equilíbrio que está a chave do sucesso da adaptação. O roteiro dosa muito bem o tom mais infantil que já havia dado muito certo anteriormente com piadas e referências voltadas para os adultos e para o apego que eles têm àqueles personagens.

Ele sabe apertar os botões certos para acertar em cheio na nostalgia de parte do público enquanto conquista toda uma nova geração de uma forma que nem mesmo os jogos recentes conseguiram.

Acertando o tom

Devo admitir que eu não acho o primeiro Sonic nada muito melhor do que um filme ok. Entendo a abordagem adotada e o público-alvo escolhido, mas alguns exageros aqui e ali me incomodaram bastante, principalmente na parte do elenco humano. Existe uma diferença entre o infantil e o infantilóide e ele transitava perigosamente sobre essa linha — o que a sequência logo trata de resolver.

O maior acerto do filme está em apostar na interação de seus mascotes (Imagem: Reprodução/Paramount Pictures)

Ainda que muitos desses exageros e situações mais ingênuas ainda estejam presentes em Sonic 2: O Filme, mas elas são bem mais pontuais e menos incômodas. Até porque, desta vez, o núcleo humano é bem coadjuvante dentro de toda a trama, sendo quase que literalmente colocado de lado para que os heróis dos jogos possam brilhar de verdade. Assim, o que temos é basicamente um desenho animado bastante realista.

A história começa logo após os eventos do filme anterior, com Tom (James Marsden) e Maddie (Tika Sumpter) indo passar alguns dias no Havaí para celebrar o casamento de Rachel (Natasha Rothwell). Só que os dias de folga de Sonic viram de cabeça para baixo quando o Dr. Robotnik (Jim Carrey) retorna da dimensão para onde foi enviado e acompanhado de Knuckles, a equidna que quer localizar a Esmeralda Mestre.

É a partir do primeiro confronto entre Sonic e Knuckles e a chegada de Tails para ajudar o herói que o longa se transforma quase em uma animação, dando muito mais ênfase a esses personagens digitais do que aos humanos — e isso faz muito bem para o longa como um todo.

Ao se aceitar como uma animação, todos os exageros passam a fazer parte da linguagem do filme e funcionam muito bem (Imagem: Reprodução/Paramount Pictures)

Isso porque a ausência desse componente realista dá muito mais liberdade para esse tom mais infantil do roteiro. Colocar Sonic e Tails para invadir um bar cheio de russos estereotipados nos confins da Sibéria diverte pelo absurdo que somente dois bonecos digitais podem entregar e que não funcionaria da mesma forma caso tivéssemos ali um humano puxando a situação para a realidade.

Essa é uma lição que Space Jam já nos ensinou lá atrás. Todo o charme do clássico funciona no contraste do mundo animado com a seriedade do humano — tanto que a virada da partida de basquete é justamente quando Michael Jordan se torna um desenho. E a interação entre Sonic e Tom era o calcanhar de Aquiles do primeiro filme por não conseguir fazer com que esses dois mundos dialogassem bem, sendo algo muito mais infantilóide do que infantil. E bastou tirar esse pessoal de cena para que o filme passe a funcionar muito mais para diferentes públicos.

A partir do momento que Sonic 2: O Filme se assume como uma animação, ele passa a olhar tanto para o público infantil quanto para os marmanjos da mesma forma, já que o adulto não precisa mais ficar constrangido quando o James Marsden tenta se fazer de sonso ou quando o Exército age como um bando de pateta saído da Turma do Didi.

Novo filme conversa muito bem com o público infantil quanto com as crianças dos anos 1990 (Imagem: Reprodução/Paramount Pictures)

Isso é tão verdade que basta o núcleo humano retornar que o filme despenca de qualidade. Toda a sequência do casamento no Havaí e as tentativas de reviravolta não só são constrangedoras pelo nível de atuação como também não acrescentam em nada à história geral que está sendo contada, servindo apenas como uma enorme barriga para atrasar o conflito que a gente quer ver.

E ainda que todas essas piadas bobas ainda estejam lá, elas são mais bem dosadas com bons momentos para os dois públicos. Enquanto a criançada ri dessas coisas mais inocentes, o filme imediatamente entrega referências aos jogos, piadas com o Mega Drive e comentários sobre cultura pop que agradam os marmanjos. Ele respeita toda a mitologia do Sonic que foi construída ao longo das décadas, costura tudo isso de forma muito orgânica à história que foi apresentada e sabe rir de si mesmo em muitos momentos, ora brincando com esses exageros, ora incorporando memes e piadas relacionadas ao personagem.

É uma história simples, mas que entrega tudo aquilo que os fãs esperavam (Imagem: Reprodução/Paramount Pictures)

A impressão que fica é que roteiro parece ter entendido quem é realmente o público de Sonic 2: O Filme e soube trabalhar muito bem em torno disso. Está longe de ser perfeito, mas é perceptível a atenção, o cuidado e o carinho que foi dado a ele.

Botões certos

No fim, Sonic 2: O Filme acerta ao entender qual é o grande segredo de uma boa animação: não é distinguir a criança do adulto, mas de alcançar o pequeno dentro de cada marmanjo. E ele faz isso muito bem. Ao se aceitar como um desenho animado protagonizado por Sonic, Tails e Knuckles, ele diverte tanto o público infantil quanto quem foi criança na década de 1990.

Ele é um longa que sabe de suas limitações, mas que consegue contorná-las ou fazer graça disso para divertir. É o tipo de filme que toda criança com um Mega Drive em casa sempre sonhou em assistir. E por mais que a barra dos filmes de jogos nunca tenha sido lá muito alta, dá para dizer com certa tranquilidade que Sonic 2 a ultrapassa com certa folga para figurar entre uma das melhores produções do gênero.

Depois de tantos anos vendo o ouriço sofrendo nos games, é bom vê-lo envolto em tanta glória nos cinemas. E o Mario que lute depois disso.

Sonic 2: O Filme está em cartaz nos cinemas de todo o Brasil; garanta o seu ingresso na Ingresso.com.

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