Crítica | Simples e divertido, Sonic: O Filme é como uma volta ao passado

Por Felipe Demartini | 13 de Fevereiro de 2020 às 07h33

Pense que, de repente, você voltou aos anos 1990, uma época em que videogames ainda eram coisa de criança e você mal podia esperar para terminar a lição de casa e embarcar nas partidas. De repente, chega aos cinemas uma adaptação de Super Mario Bros ou Street Fighter, jogos que você amava e que, agora, poderia ter essa experiência compartilhada em uma sala com muitos outros iguais a você, bem como com seus pais, que também curtem filmes. Agora, imagine que isso está acontecendo em pleno 2020.

É essa sensação de retorno ao passado que Sonic: O Filme nos proporciona. Apesar do clássico logo da SEGA aparecendo no começo da projeção junto a imagens dos games consagrados da marca, temos aqui mais um filme daqueles que, na hora de adaptar, tenta fazer com que a mitologia dos jogos se encaixe em nosso mundo para que se torne mais palatável. O que diferencia este de outros longas que fizeram o mesmo e fracassaram, entretanto, é que, aqui, dá para perceber o carinho pelo material e o fato de os produtores saberem o que estão fazendo.

Atenção! Daqui em diante este texto pode conter spoilers sobre o filme!

Green Hill Zone se transformou apenas em Green Hill, uma pequena e pacata cidade no estado americano de Montana. O local não tem loopings nem animais transformados em robôs, mas é lá que Sonic está, fugindo de uma ameaça de seu próprio mundo e mantendo o anonimato enquanto lida com a própria solidão e o fato de conhecer muita gente do município, mesmo que ninguém o conheça de volta — com exceção do maluco local, que acha que ele é um alienígena.

A reviravolta acontece quando Sonic acaba usando seus poderes de forma equivocada, causando um blecaute que chama a atenção do governo dos EUA. Também decididos a abafar o caso, os engravatados chamam o Dr. Ivo Robotnik (Jim Carrey), enquanto, na tentativa de fugir, o ouriço azul acaba se aliando a Tom Wachowski (James Marsden, de Westworld), o xerife local que ele carinhosamente chama de “Lorde Donut”.

Sim, essa é a história de Sonic: O Filme, uma caçada de Green Hill a São Franciso que envolve passagens por um bar de motoqueiros, problemas conjugais, hotéis de beira de estrada e até terrorismo, enquanto fala sobre amizade, companheirismo e a criação de listas de coisas a serem feitas antes de morrer, ou, no caso do ouriço, antes de seguir para seu esconderijo no próximo mundo.

A fuga de Sonic: O Filme traz o personagem para nossa realidade, em uma abordagem nem sempre agradável, mas que é comum em adaptações de games para o cinema (Imagem: Divulgação/Paramount)

Seria completamente surreal, não fosse o fato de estarmos assistindo a um filme que não se leva a sério, ao contrário das adaptações do passado. Como se tivessem noção da bizarrice que é fazer com que o Sonic funcione em nossa realidade, os roteiristas Patrick Casey e Josh Miller (da série original do YouTube 12 Deadly Days) encheram o argumento de piadinhas e referências que vão encher os olhos dos amantes do ouriço e que também servem como uma forma de demonstrar que ele não está tão longe assim de seu habitat natural.

O texto, literalmente, não para, e a impressão é que os personagens do longa, principalmente o próprio Sonic, nunca param de falar. Há sempre uma piada sendo feita ou um trocadilho espertinho sendo proferido. O roteiro, aliás, mostra uma clara preferência por essa forma de humor, fazendo jogos de palavras o tempo todo e evidenciando a qualidade da dublagem de Ben Schwartz, que interpreta o protagonista na versão original, vista pelo Canaltech.

É uma abordagem um tanto cansativa em alguns momentos, principalmente quando são levantadas algumas tensões não abordadas com a seriedade devida, mas abro um espaço pessoal aqui para confessar: deu vontade de assistir também à edição dublada para ver como o trabalho de localização lidou com alguns trava-línguas e referências regionais. No Brasil, a voz de Sonic é de Manolo Rey, que também já interpretou o ouriço em desenhos animados.

Uma bela sessão da tarde

Jim Carrey, que interpreta o Dr. Robotnik, chega a chamar mais atenção que o próprio protagonista. Não poderia ser diferente (Imagem: Divulgação/Paramount)

O maior destaque é, de longe, a presença de Jim Carrey. A tela brilha quando Sonic está em cena — e isso denota o acerto na mudança do design do personagem, pois o filme seria semente de pesadelo se estivéssemos diante da versão "feia" do personagem —, mas é nas aparições do ator que ela pega fogo. Se o filme é um retorno aos anos 1990, temos aqui, também, um reencontro com Ace Ventura, O Máskara, O Grinch e tantos outros, com a amplitude de expressões que o tornou não apenas célebre, mas um ícone.

A impressão que temos é que os produtores o vestiram como o vilão e soltaram a coleira, deixando-o livre para fazer o que quiser. Isso vai desde a humilhação direta a subordinados e qualquer outra pessoa até a cena de dança diante de projeções virtuais, um dos momentos mais “Jim Carrey” de todo o filme. Infelizmente, os diálogos de Robotnik não são tão inspirados quanto os do próprio Sonic, talvez por uma confiança dos roteiristas de que a personalidade do ator, por si só, seria suficiente para entregar o papel. Ele consegue, como sempre, mas fica a sensação de que ficou faltando algo.

Inspiração, entretanto, é o que sobra nas dezenas de referências dispostas ao longo de todo o filme, um verdadeiro deleite para os fãs que podem não se sentir tão felizes assim em verem Sonic vivendo na Terra. Para cada conveniência de roteiro, como os poderes que às vezes funcionam ou não, de acordo com o que o filme precisa, há um aceno para quem jogou os games, em citações que variam em grau de profundidade e entendimento.

Referências estão por todos os lados em Sonic: O Filme, e dão um pouco mais de corpo ao roteiro simples (Imagem: Divulgação/Paramount)

Aparições claras de personagens dão o tom de que já muito mais do que a película está mostrando, enquanto outras pequenas citações servem para dar o tom dos games em um filme que tenta ser realista. E ainda temos o ódio de Sonic a cogumelos, algo que pode ser entendido pelos mais conhecedores como uma referência a uma das fases célebres da era Mega Drive quanto como uma indireta a seu antigo rival na guerra de consoles da época.

Sonic: O Filme é o tipo de produção que traz um pouquinho para todo mundo. As crianças, principal público-alvo, vão amar as cenas de ação e os momentos engraçados, saindo do cinema pedindo uma pelúcia do ouriço. Os próprios pais, mesmo que não tenham experiência com os games, também curtirão, afinal de contas temos aqui um filme divertido e simples, que não tenta ser mais do que é e entrega humor e cenas de ação interessantes em seu pouco mais de 1h30 de duração.

Além de Jim Carrey e das referências, o fato de Sonic: O Filme não se levar a sério ajuda a reduzir a sensação de estranheza de alguns momentos (Imagem: Divulgação/Paramount)

Na intersecção entre esses públicos, claro, está o gamer, e lidar com ele sempre é mais complicado, algo que a produção também parece ter conseguido. Durante todo o tempo, e por mais que a estranheza tome conta de alguns dos momentos, a sensação é estarmos diante de um produto feito com carinho na transposição do material. Uma aventura capaz de trazer de volta as boas lembranças e também interessar aos mais aficionados pelo universo do personagem, ainda que não seja completamente satisfatória e nem o melhor filme de games já produzido — esse mérito ainda é de Pokémon: Detetive Pikachu.

O longa estreia nesta quinta-feira (13) no Brasil. No elenco de Sonic: O Filme também estão Tika Sumpter (Michelle e Obama), Neal McDonough (Euphoria) e Lee Majdoub (Os 100). A direção é de Jeff Fowler, um dos responsáveis pelos efeitos visuais de Onde Vivem os Monstros, em seu primeiro filme de longa-metragem.

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