Crítica | Books of Blood é irregular, mas com inspiração

Crítica | Books of Blood é irregular, mas com inspiração

Por Sihan Felix | 22 de Outubro de 2020 às 09h50
Divulgação/Hulu

Filmes em que histórias aparentemente desconexas acabam se encontrando em algum ponto não são novidade. Alguns, como Pulp Fiction: Tempo de Violência (de Quentin Tarantino, 1994), têm essa relação trabalhada de maneira simultânea, utilizando-se de conceitos elaborados na década de 1920 pelo russo Vsevolod Pudovkin. Outros, como o em questão Books of Blood, o fazem como se realmente as narrativas fossem separadas.

Acontece que essa separação pode ser mais interessante se a estrutura do todo conseguir ser igualitária, ou seja, se as forças individuais de cada linha narrativa tiverem pesos semelhantes dentro da dramaturgia. Nesse sentido, os contos de Clive Barker nos quais Books of Blood se origina são uma matéria-prima forte o suficiente para a construção de algo sólido. Mas, talvez, a mão pesada de Barker, que já deu à luz, por exemplo, Hellraiser: Renascido do Inferno (de 1987), não seja exatamente suficiente para um resultado expressivo.

Atenção! Esta crítica contém spoilers sobre o filme!

Está escrito

Books of Blood, de todo modo, pode não ser um mau filme. Além de ter sido dirigido para a televisão pelo estreante em longas-metragens Brannon Braga, seu conceito se apropria dos textos de Barker de um jeito curioso: são três contos que se entrelaçam e, nessa estrutura, há uma intersecção entre passado, presente e futuro. Por essa perspectiva, é somente uma das histórias que comanda o todo e se mantém pelos três períodos. Ao mesmo tempo, essa é a mais relevante.

É nessa questão que existe um desequilíbrio. Isso porque, após uma rápida abertura de quatro minutos, o primeiro conto, protagonizado por Jenna (Britt Robertson), ocupa praticamente 50 minutos do filme, deixando outros 50 para serem divididos entre os restantes. Não seria um problema se o desenvolvimento conseguisse não acusá-lo, mas a direção de Braga, nesse princípio, beira a monotonia e, no final das contas, pode dar a impressão de que tudo o que é vivido pela personagem de Robertson poderia ser encurtado, especialmente a pouco aproveitada relação com sua mãe (Nicole — interpretada por Paige Turco).

Essa condução um tanto quanto cansativa, por outro lado, contrasta com a história seguinte, que, afinal, é a principal — a história de Miles (Etienne Kellici) e do então surgimento do Livro de Sangue. Não é somente a história mais instigante dentro do gênero do terror, como também é a mais inspirada do trabalho da direção. Cada movimento parece minuciosamente calculado e o ritmo, enfim, é capaz de fomentar o nervosismo e a angústia com mais propriedade.

Nervosismo e angústia. (Imagem: Divulgação/Fuzzy Door Productions)

Mas não é só: enquanto a narrativa é construída na base do amor e do ódio, como bem comentam Mary (Anna Friel) e Simon (Rafi Gavron) em uma reunião caseira para investidores, Braga não perde tempo com contemplações e firulas simbólicas. Por mais que isso caiba dentro do terror, parece que há certa aversão quando se trata de um trabalho tão visceral quanto os escritos de Barker. Aceitando essa pegada, o diretor constrói tudo sem arrodeios e finaliza com a cena mais forte de Books of Blood: o Livro de Sangue está escrito.

Além do comum

É verdade que o que é exposto é muito menos Miles (que é o título do segmento afinal) e muito mais a relação de sua mãe e Simon. Mas o menino, tão bem interpretado por Kellici, rege os acontecimentos de Mary ao falso médium (Simon). Este é o sujeito que serve, justamente, como via (ou páginas) de contato para o outro lado, o que é ironicamente delicioso.

Aliás, a forma com a qual ele (o tal médium) é exposto àquilo que ele fingia ser um porta-voz tem uma estética em CGI estranhamente despolida que deve ser celebrada até mesmo por Barker, que tanto usou a criatividade em seus efeitos práticos no citado Hellraiser: Renascido do Inferno [principalmente por falta de orçamento — e em uma época na qual o trabalho com computador para o cinema era um luxo a nível dos dois primeiros O Exterminador do Futuro (de James Cameron, 1987 e 1991)]. Por fim, o trecho central de Books of Blood se encerra com a solidificação de uma unidade de estilo que, facilmente, é uma experiência que pode fazer o longo primeiro capítulo ser relevado.

Então, o final, que se liga aos quatro primeiros minutos do todo, é tão rápido quanto o carro verde que corta a cena. Bennett (Yul Vazquez) liga os três atos a um contexto único. É verdade que essa ligação pode ser sentida como apressada, com o fim do personagem (Bennett) sendo quase que displicente e tirado da cartola. É interessante, porém, como os minutos finais do filme não só revelam os pontos de união entre as histórias de Jenna, Miles e Bennett, mas fazem com que o passado o presente e o futuro se consolidem em uma harmonia doentia.

E é tudo tão misturado que pode ficar difícil separar os tempos. Miles, que morrera há tantos anos, encontra Bennett no presente por meio de sua arte no corpo de um envelhecido Simon e, finalmente, a arrastada agonia de Jenna chega a uma espécie de término; um término que, por mais que plante um sorriso em seu rosto, só chegará de fato quando acabar o seu tempo enquanto vegetal — ou quase isso nas mãos dos já idosos Ellie (Freda Foh Shen) e Sam (Nicholas Campbell).

Antes do término... (Imagem: Divulgação/Fuzzy Door Productions)

Books of Blood talvez seja bastante irregular, mas existe um trabalho inspirado em seu miolo. O terror essencialmente barkeriano pode ter, pelo menos por meia hora, a sensação de uma sobrevida para além do comum. E além do comum, de repente, é um sinônimo para o criador do Pinhead e dos Cenobitas.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech.

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