Oscar 2020 | Premiação repleta de reviravoltas deu início a uma revolução

Por Sihan Felix | 10 de Fevereiro de 2020 às 13h20
AFP

Que noite!

Se deixarmos de lado os jogos políticos inerentes a uma premiação cara e tão visada como é o Oscar, a noite foi das mais cinematográficas dos últimos muitos anos. Parecia que o roteiro do que iria acontecer estava sendo escrito ali mesmo, aos poucos, quase que de improviso, quando, na verdade, havia fortes indícios da surpreendente reta final.

ATO I

Os primeiros prêmios vieram sem muitas surpresas. As previsibilidades das estatuetas divulgadas pareciam indicar um caminho para uma cerimônia morna e, como dificilmente um raio não cai no mesmo lugar, nem mesmo uma troca de prêmios como na disputa entre La La Land: Cantando Estações e Moonlight: Sob a Luz do Luar teria lugar.

Mas, já no início, logo depois de uma das estatuetas mais previsíveis (para Brad Pitt como Melhor Ator Coadjuvante), o anúncio da Melhor Animação ligou um sinal de alerta: Toy Story 4, por mais que seja merecedor, não havia dado muitos sinais de força contra os demais durante a temporada de premiações. Isso pode ter passado um tanto quanto despercebido. Ainda era o início e, afinal, trata-se de um filme da Disney/Pixar... parecia tudo normal, por mais que, em retrospectiva, alguns bolões já estivessem se definindo aí.

Woody e Garfinho em Toy Story 4. (Imagem: Disney/Pixar)

Veio o fôlego e premiações de praxe. Inclusive, o prêmio de Melhor Figurino – apesar de merecido – foi previsível no sentido da tradição. Adoráveis Mulheres é um filme de época, século XIX, e, historicamente, são mais votáveis pelos membros da Academia, especialmente pela maioria que, para o voto final, deve pensar muito mais para o lado pomposo desse aspecto do que para o efetivo trabalho que o figurino cede à narrativa.

Dentro dessa normalidade, o anúncio do prêmio de Melhor Edição de Som pode ter surgido como o início de uma virada de ato. Ali, em um terreno que geralmente é dominado pelos filmes de guerra, Ford vs Ferrari demonstrou a sua força com uma justiça enorme. As chances eram remotas pelo histórico, mas cada som que compõe o filme – especialmente durante as corridas – parece milimetricamente inserido para ser escutado de fato. Além disso, junto ao trabalho de montagem, a edição de som do filme comandado por James Mangold (de Logan) guia cada sensação proposta e é eficiente ao levar a uma relação muito íntima com o automobilismo (mesmo que não haja qualquer relação próxima por parte do público).

Mesmo assim, a virada de ato em si aconteceu duas categorias à frente e protagonizada pelo próprio Ford vs Ferrari: Em uma categoria que, historicamente, vencem filmes com chances reais de levar o prêmio principal, o filme protagonizado por Christian Bale e Matt Damon subiu ao palco. A estatueta de Melhor Montagem contra os queridinhos Jojo Rabbit e Coringa e os favoritos O Irlandês e Parasita pôs fim a um miolo de premiação previsível e deu início a uma das noites mais históricas do Oscar.

Atropelando favoritos ou favorito camuflado? (Imagem: Fox Film do Brasil)

ATO II

O segundo ato foi o mais de praxe possível. Prêmios já aguardados foram distribuídos, parecia uma questão protocolar mesmo. Mas, enquanto a Melhor Fotografia para o gênio vivo que é Roger Deakins (por 1917) abriu esse bloco era possível começar a perceber um burburinho crescente: sempre que Parasita era anunciado como indicado em qualquer categoria, havia gritos, aplausos efusivos... tudo muito maior do que para os demais concorrentes desde o início da noite. E isso foi crescendo... até que o Melhor Filme Internacional estabeleceu o limite para um filme em língua estrangeira (não-inglês) que já havia vencido em Melhor Roteiro Original lá no primeiro ato – um prêmio enorme, mas esperado.

Cabo Schofield já observando o que viria em seguida. (Imagem: Universal Pictures)

No palco, Bong Joon Ho, como sempre, em uma humildade mais do que linda, agradeceu e, enfim, acreditou que poderia começar a relaxar. Nem mesmo ele, que trabalha tantos gêneros em seus filmes e que, com Parasita, transitou entre esses gêneros com uma precisão assustadora, poderia prever uma virada de ato tão gigantesca – que ele mesmo demonstraria no palco.

Após o anúncio de Melhor Direção, com nomes de peso como Martin Scorsese, Quentin Tarantino, o favorito Sam Mendes e o sujeito que deu vida a um Coringa inesquecível – Todd Phillips –, Bong Joon Ho, derrubando 90% dos bolões, subiu ao palco incrédulo: com a mão na testa, ofegante, assustado... deu uma aula de reverência ao cinema e ao significado do que é ter um mestre, um professor. Citando uma frase sobre fazer cinema com o coração, o diretor coreano, em seguida, disse: “Essas palavras são de Martin Scorsese.” Ainda, ele agradeceu a cada um dos indicados, lembrando, inclusive, que Tarantino quase sempre incluiu um filme seu em suas clássicas listas de 10 melhores filmes do ano.

ATO III

Ovacionado e meio tonto, Bong Joon Ho – que merece ter toda a filmografia assistida – desceu do palco para assistir a um desfecho épico. Com um respiro momentâneo de duas categorias gigantes completamente previstas: Melhor Ator para Joaquin Phoenix (por Coringa) e Melhor Atriz para Renée Zellweger (por Judy: Muito Além do Arco-Íris), o maior prêmio da noite viria com a força da história.

Mas, antes, o discurso de Phoenix encorpou esse terceiro ato de maneira arrebatadora: lembrando minorias; evocando um mundo onde todos se respeitem; clamando por segundas chances e sobre a importância destas; desculpando-se por ter sido difícil tantas vezes; falando do que acredita, de tudo que defende há anos, do respeito não somente para com os iguais, mas para com as diferenças e, inclusive, para contra outras espécies de animais (Phoenix é vegano desde a infância); e, com a voz embargada, lembrando o irmão – o talentosíssimo River Phoenix, falecido em 1993 –; ele deixou o palco sob aplausos de pé.

Joaquin Phoenix em Coringa. (Imagem: Warner Bros. Entertainment)

Mas estamos falando de um terceiro ato que, por mais que tenha grandes contadores de história envolvidos e muitos que concluem seus filmes de forma extraordinária, parece ter sido dirigido por M. Night Shyamalan. As reações da plateia (repleta de votantes da Academia) a cada citação a Parasita indicavam o desfecho, como tudo indica o desfecho em, por exemplo, O Sexto Sentido. Mas quando algo é, na prática, inacreditável, dificilmente conseguimos desviar do que já parece ser o programado.

Kang-ho Song, parceiro frequente de Bong Joon Ho, em cena de Parasita. (Imagem: CJ Entertainment)

Por mais que a verdade estivesse ali, nas atitudes de uma plateia que dificilmente fica alvoroçada como ficou, ela (a verdade) estava camuflada: ela tinha outro sotaque – outra língua na verdade –, era humilde, profundamente social, cativante, loucamente surpreendente e, no final das contas, mesmo que a lista de indicados estivesse excelente como há muito tempo não se via, Parasita faz o mundo se curvar, o cinema andar, a história correr e um sonho voar: a utopia de que Hollywood, de fato, quebre as barreiras de idiomas, das legendas, estoure sua bolha e, como disse Phoenix, seja inclusiva e representativa.

Ou que, como Bong Joon Ho e sua equipe, seja humilde. Talvez baste para uma revolução.

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