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Por que arqueólogos enterram escavações de novo?

Por| Editado por Luciana Zaramela | 11 de Julho de 2023 às 20h44

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Library of Congress/Domínio Público
Library of Congress/Domínio Público

Muitas vezes, após escavar sítios arqueológicos, coletar artefatos e estudar estruturas antigas, os arqueólogos acabam enterrando novamente os locais de pesquisa, deixando tudo como estava antes das investigações científicas. Porque enterrar tudo de novo? A resposta curta tem a ver com preservação, evitando erosão, saques e danos pelas intempéries, mas um sítio arqueológico prestes a ser reenterrado na Inglaterra — Birdosvaldo — pode ser um bom estudo de caso para responder essa pergunta mais a fundo.

Birdosvaldo foi uma base militar romana na Muralha de Adriano, construída nos anos 120 d.C., durante o reinado do imperador Adriano. À época, ficava no limite norte da fronteira imperial romana, indo de leste a oeste na parte mais estreita da Inglaterra, no atual norte do país, por cerca de 117 km.

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A casa de banho do forte foi encontrada em 2021, logo do lado de fora da estrutura, na parte conhecida como assentamento extramuros, que abrigava as famílias dos soldados, comerciantes, civis e prestadores de serviço diversos. Comum aos fortes, a área geralmente trazia casas, espaços comunais, oficinas, tavernas e tudo que uma cidade precisa para funcionar.

Após 2 anos de estudo, a equipe responsável pelo estudo da casa de banho de Birdosvaldo tem planos de reenterrá-la — algo que afirmam não estar acontecendo pela primeira vez e nem na última em um sítio arqueológico. Isso deverá ajudar a preservar o local para arqueólogos futuros, que poderão ter equipamentos melhores e novas perguntas para responder com suas escavações. Aqui no Canaltech, já falamos de outros reenterros, como o de um sítio arqueológico no México e um navio do século XVI na Inglaterra.

Pesquisar sítios arqueológicos também é destruir

Em Birdosvaldo, a pesquisa tem o objetivo de revelar detalhes de como era a vida de pessoas comuns nos fortes militares da Muralha de Adriano, o que faziam os habitantes extramuros do tempo romano. Parte do que faz a casa de banho estar preservada é sua altura de 2 metros, que traz um hipocausto, sala de aquecimento com um sistema de alimentação de água que provavelmente levava a um sistema de aquecimento.

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Escavar locais como esse sempre gera algum dano, por exemplo, ao tirar o solo depositado sobre a casa de banho, entranhado no chão ou junto ao conteúdo preservado de um armazém. Dada a fragilidade dos artefatos arqueológicos, o processo de escavação só pode ser feito uma vez a cada pesquisa em um sítio, então todo o procedimento é registrado.

Após publicar os resultados, os pesquisadores preservam o que foi retirado e o que ficou no lugar de origem — chamado, academicamente, de “in situ” (latim para “no local” ou “no sítio”, em tradução livre).

Isso também acaba fazendo com que os profissionais raramente escavem sítios ou construções inteiras, trabalhando apenas em áreas específicas que podem trazer as informações mais úteis à ciência. Em Birdosvaldo, várias áreas fora do forte foram alvo de escavações, incluindo a casa de banho e a estrada principal. Cavar metade do local geralmente já nos dá uma boa ideia de seu uso, e, além disso, o trabalho é todo manual, levando muito tempo para ser completado.

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A menos que o local esteja ameaçado de destruição por algum projeto de construção ou erosão, a equipe de escavação deixa a maior parte dos artefatos arqueológicos praticamente intactos. Isso permite que pesquisas futuras sejam feitas no mesmo lugar. No sítio romano da Inglaterra, os arqueólogos escavaram o mesmo lugar em etapas, várias vezes por ano.

Quando parar de cavar e quando enterrar de novo?

As escavações terminam no ponto em que todas as trincheiras planejadas pelos arqueólogos foram cavadas por completo, e quando as respostas buscadas pela pesquisa já puderam ser respondidas, geralmente sendo sobre o uso e a idade do sítio. Em Birdosvaldo, as questões eram acerca do uso da estrutura, sua significância e o papel do assentamento fora do forte. Já que a casa de banho teve seus mistérios revelados, ela será enterrada de novo.

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O maior risco reportado a patrimônios arqueológicos in situ pelo mundo é a falta de manutenção e conservação, o que levou diversos países a incluir como padrão a exigência do preenchimento (nome oficial dado ao reenterro) de sítios escavados após a pesquisa para que a permissão para escavar seja concedida.

Depósitos de artefatos ao ar livre ficam propícios à rápida deterioração, podendo acontecer pela exposição ao sol, flutuações do nível de umidade e dano físico pela erosão, queda de partes menos estáveis da borda, saques, vandalismo e visitas de curiosos.

Antes de preencher a casa de banho de Birdosvaldo com a mesma terra retirada do local, os pesquisadores farão o procedimento padrão, que é analisar os materiais do sítio para avaliar sua capacidade de resistir a condições atmosféricas e dano biológico. Isso inclui animais que constroem tocas, raízes de plantas e mais. Feito rapidamente, isso garantirá que a vegetação possa retornar já no próximo verão.

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Como em outros locais, é provável que seja adicionada uma camada de areia limpa ou plástico para deixar claro a arqueólogos futuros que artefatos valiosos estão próximos — por vezes, placas com a data corrente também são colocadas para facilitar a identificação das trincheiras no futuro. Nas próximas semanas, ainda será possível visitar Birdosvaldo, mas em todo caso, há uma réplica de uma casa de banho romana completa, muito semelhante a essa, no forte próximo de Wallsend, disponível para visitas.

Fonte: University of Nottingham/The Conversation