Cidade submersa de 3.400 anos é revelada após seca no Iraque

Cidade submersa de 3.400 anos é revelada após seca no Iraque

Por Augusto Dala Costa | Editado por Luciana Zaramela | 01 de Junho de 2022 às 14h00
Universidades de Freiburg e Tübingen/KAO

As ruínas de uma cidade antiga de 3.400 anos surgiram após a represa de Mosul, no Iraque, secar devido à crise hídrica no país. Cientistas acreditam se tratar de Zakhiku, centro importante do Império Mitani, que se estendeu pelo banco do rio Tigre entre os anos de 1550 e 1350 a.C. O sítio arqueológico foi batizado de Kemune.

Apesar da ótima oportunidade para o trabalho dos arqueólogos, a seca é resultado das mudanças climáticas que vêm esquentando o planeta nos últimos anos, derretendo geleiras e secando lagos, afetando com força países como o Iraque. O reservatório de Mosul, onde o sítio arqueológico fica, teve sua água extraída para que as plantações do país não secassem.

Um dos aposentos do palácio Mitani descoberto durantes as escavações na represa seca (Imagem: Universidades de Freiburg e Tübingen/KAO)
Um dos aposentos do palácio Mitani descoberto durantes as escavações na represa seca (Imagem: Universidades de Freiburg e Tübingen/KAO)

Redescobrindo a cidade

Quando a represa foi construída, em 1980, o assentamento antigo ainda não havia sido catalogado ou estudado. Desde então, a cidade só havia visto a luz do dia novamente em 2018, quando a água retrocedeu o suficiente para a descoberta e documentação das ruínas por parte de arqueólogos. Em dezembro de 2021, na segunda vez que o nível da água revelou o local, os cientistas estavam preparados para mergulhar de cabeça no trabalho de catalogar tudo.

Foram encontrados, então, um palácio (já descoberto em 2018) e muitas outras estruturas da Era do Bronze, incluindo uma fortificação com muros e torres, um complexo industrial e uma construção para armazenamento de diversos tipos de produtos com vários andares. A última descoberta é de particular importância, ressaltam os arqueólogos, já que a enorme quantidade de bens guardados — provavelmente trazidos de todos os cantos da região — tem grande potencial de estudo.

A preservação das paredes de barro, especialmente, é impressionante ao considerarmos que o local ficou submerso por mais de 40 anos: isso é, ironicamente, um resultado da queda da cidade, em 1350 a.C. Na época, um terremoto devastou a região, derrubando construções e cobrindo as paredes intactas com uma camada protetiva feita de destroços. Assim, os murais pintados e o conteúdo das estruturas foram preservados.

Placas de argila crua com escrita cuneiforme encontradas no sítio arqueológico (Imagem: Universidades de Freiburg e Tübingen/KAO)
Placas de argila crua com escrita cuneiforme encontradas no sítio arqueológico (Imagem: Universidades de Freiburg e Tübingen/KAO)

Jarros de cerâmica contendo mais de cem placas de argila crua entalhadas com alfabeto cuneiforme datando do Médio Império Assírio, pouco antes do terremoto. Espera-se que os registros possam conter algumas informações sobre os habitantes da cidade e talvez até mesmo sobre o cataclismo que afligiu o local. Os cientistas consideram a sobrevivência das placas à água por tantos anos como "um quase milagre".

Após o trabalho, que foi realizado por arqueólogos da Organização Arqueológica do Curdistão, junto a pesquisadores da Universidade de Tübingen, na Alemanha, a represa voltou a se encher de água, submergindo a cidade novamente, mas foram tomadas precauções para preservar o local até futuras escavações. As ruínas foram seladas com uma cobertura plástica, que deve evitar a erosão e degradação pelos próximos anos.

Agora, resta aos pesquisadores estudar o material coletado, descobrindo mais coisas sobre o antigo Império Mitani — um reino Hurrita que viveu no noroeste e nordeste da Mesopotâmia, entre os rios Cabur e Eufrates. O Império acabou sendo absorvido pelos Assírios na mesma época do terremoto, por volta de 1350 a.C.

Fonte: Universidade de Tübingen

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