Entrevistamos a brasileira que descobriu quatro asteroides em projeto com a NASA

Entrevistamos a brasileira que descobriu quatro asteroides em projeto com a NASA

Por Wyllian Torres | Editado por Patrícia Gnipper | 24 de Maio de 2021 às 12h15
Lorrane Olivlet/Arquivo pessoal

Lorrane Olivlet, brasileira de 26 anos e criadora do grupo de divulgação científica InSpace, tem como missão motivar, capacitar e engajar pessoas de todo o país em carreiras científicas relacionadas à área espacial. Recentemente, ela descobriu não apenas um, mas quatro asteroides no Sistema Solar — tecnicamente, em estágio de detecção preliminar —, no último dia 13 de maio, os quais poderão ser nomeados por ela. Seu trabalho foi desenvolvido pela parceria entre o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) e também com a NASA. Mas não é algo tão simples assim: além dos processos burocráticos, estas descobertas levam um certo tempo até serem confirmadas.

Segundo dados da organização Minor Planet Center (MPC), da União Astronômica Internacional, atualmente existem cerca 1,1 milhão de asteroides no Sistema Solar interno e externo, sendo que a maioria desses objetos se encontra no Cinturão de Asteroides — ou Cinturão Principal —, localizado entre as órbitas de Marte e Júpiter. Apesar disso, o número de objetos menores desconhecidos é estimado em mais de 400 mil, com diâmetro superior a um quilômetro. Por serem pequenos, esses corpos se tornam um desafio para serem descobertos, afinal, refletem pouca luz do Sol e, consequentemente, rastreá-los é uma tarefa bastante difícil.

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Por isso, além do MPC, existem muitas iniciativas que trabalham a todo vapor na busca por estes asteroides. Uma delas é o projeto de ciência cidadã da NASA chamado International Astronomical Search Collaboration (IASC), o qual proporciona aos seus voluntários de todo o mundo a oportunidade de descobrir asteroides desconhecidos. E, para isso, eles analisam dados os dados obtidos pelo Panoramic Survey Telescope and Rapid Response System (Pan-STARRS), que, em tradução literal, significa “Telescópio de Pesquisa Panorâmica e Sistema Rápido de Resposta”, operado pelo Instituto de Astronomia do Havaí. Seu principal objetivo é mapear constantemente o céu em busca de objetos próximos à Terra, em especial aqueles que possam apresentar risco de colisão com o planeta.

Em entrevista para o Canaltech, Olivlet compartilha um pouco dos bastidores desse processo de busca por asteroides, revelando quais etapas e técnicas foram utilizadas neste trabalho de ciência cidadã.

Conheça a brasileira fez descoberta preliminar de 4 asteroides

Ciência cidadã

Os dois primeiros asteroides detectados por ela (Imagem: Reprodução/Lorrane Olivlet/Arquivo pessoal)

Para quem nunca ouviu falar, ciência cidadã são iniciativas de pesquisas feitas com a participação de cidadãos comuns — que não sejam cientistas profissionais. É uma ciência baseada na atuação informada, consciente e voluntária destes cidadãos, os quais geram dados e apresentam resultados. E é assim que ele funciona no trabalho de caça aos asteroides desenvolvido pelo IASC, com participantes de todo o mundo. Olivlet explica que há quatro anos ela procurava por esta oportunidade, mas apenas no ano passado veio a descobrir como funciona o programa.

Para participar, é necessário montar um grupo de estudos ou um time e, nesse caso, Lorrane já participava do seu próprio, o InSpace. Segundo ela, no início do trabalho os participantes recebem um treinamento com o software chamado Astrometrica: “aprendemos a analisar as imagens, a detectar objetos em movimento e a utilizar o software para reportar os possíveis asteroides”, explica. A astrometria é um ramo da astronomia responsável por medir a dimensão e a posição dos astros e determinar seus movimentos — o que alguns chamam de astronomia de posição.

Em branco, a localização do Cinturão Principal de Asteroides, onde se encontra a maior parte destes corpos e os que foram detectados por Lorrane (Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons/Mdf)

Após aprender a utilizar o programa, os participantes recebem um banco de imagens do telescópio para treinar as técnicas recém-aprendidas e, só então, recebem as imagens para as análises oficiais. Olivlet conta: "tive que analisar diversas imagens por algum tempo, pensei que não iria encontrar nenhum, até que em uma noite eu encontrei quatro asteroides seguidos e foi extremamente gratificante; esses asteroides nunca haviam sido detectados ou catalogados”.

No dia seguinte, em 14 de maio deste ano, o IASC publicou em um grupo oficial da NASA a detecção preliminar de quatro asteroides no Cinturão Principal do Sistema Solar. “Nessa caça aos asteroides, eu inscrevi todos do grupo para poderem participar também. Até então, temos 6 asteroides descobertos, contando com os meus 4 e um da Cindy Tiso e um da Camilla Mendes, temos outros em análise. É bem provável que essa lista vá aumentar”, acrescenta.

E agora, como dar os nomes?

O processo de oficialização da descoberta pode levar alguns anos, pois confirmar informações como posição e movimentos de objetos tão pequenos não é nada simples. A divulgadora científica conta que é um processo extremamente burocrático, mas que é uma oportunidade única; afinal, é muito rara a chance de catalogar um asteroide e poder dar um nome a ele. “Eu analisei os nomes que já foram colocados em outros asteroides e vi que você pode colocar o seu próprio nome ou um nome que goste em sua descoberta”, ressalta Olivlet, que também compartilha sua intenção de nomear suas descobertas com os nomes de seus pais e avós — e, se possível, um com o seu próprio.

(Imagem: Reprodução/Lorrane Olivlet/Arquivo pessoal)

Lorrane, que também é autora do livro Meu Primeiro Contato Com o Céu, compartilha sua emoção e gratidão por estas descobertas e declara sua admiração por tudo o que é relacionado ao espaço desde os três anos. “Muitas pessoas não entendem por que isso me chama tanto a atenção, mas, quando eu estou observando o céu, me sinto em paz e feliz. Ter a oportunidade de participar de algo tão especial, e ainda sendo criado pela NASA, me trouxe uma grande felicidade”, revela.

Além de divulgadora científica e escritora, Lorrane é formada pela Universidade FUMEC em engenharia biomédica e, aos 26 anos, se dedica à astronomia, inclusive produzindo conteúdos didáticos em seu canal no YouTube — onde ela pretende publicar, muito em breve, um vídeo explicando cada detalhe do seu trabalho desenvolvido com o projeto de ciência cidadã da NASA. Entre seus temas favoritos, está o Sistema Solar — e, ao pensar em ter seu nome ou de seus entes queridos eternizados em um asteroide, ela diz ser “a melhor sensação de todas!”.

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