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Destroços de navio negreiro de 1852 são encontrados em Angra dos Reis

Por| Editado por Luciana Zaramela | 24 de Julho de 2023 às 18h06

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Johann Moritz Rugendas/Domínio Público
Johann Moritz Rugendas/Domínio Público

Arqueólogos afirmam ter encontrado um navio americano do século XIX que teria naufragado com 500 pessoas escravizadas a bordo na costa de Angra dos Reis, Rio de Janeiro. Acredita-se que a embarcação seja o Brigue Camargo, cujo naufrágio estava presente em histórias populares da região, mas sem comprovações científicas até os possíveis destroços terem sido localizados, recentemente, no bairro do Bracuí, onde ficava um porto clandestino de mesmo nome.

O Brigue Camargo era capitaneado pelo escravista Nathaniel Gordon, estadunidense que roubou a embarcação nos Estados Unidos em 1851 e a utilizou para carregar 500 africanos escravizados de Moçambique até Angra dos Reis, já em 1852. A atividade, que já era ilegal à época, levou à morte do capitão, que foi julgado, declarado culpado e executado segundo a Lei de Pirataria de 1820 dos Estados Unidos — ele foi o único estadunidense a ser enforcado pelo tráfico de pessoas escravizadas.

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Uma equipe de pesquisadores da Universidade Federal Fluminense (UFF), Universidade Federal do Sergipe (UFS) e Instituto AfrOrigens, com apoio de instituições estadunidenses, havia iniciado buscas pelos destroços da embarcação ainda em 2022. Mais escavações e análises dos restos já encontrados devem revelar se o acho representa mesmo o navio perdido de Gordon. O caso do Brigue Camargo é emblemático por ser o último dos navios negreiros.

Como o Brigue Camargo afundou

Em 1851, quando Gordon roubou a nave marítima, a Lei Eusébio de Queirós já fazia 2 anos. Com ela, sancionou-se o fim do tráfico de pessoas escravizadas, proibindo que qualquer navio escravagista circulasse. Isso foi resultado de pressões internacionais, principalmente pela Inglaterra, que patrulhava os mares à caça de contrabandistas.

Autoridades internacionais já perseguiam Gordon há tempos, e é muito provável que ele tenha incendiado e afundado o navio de propósito, evitando deixar evidências de que estava traficando pessoas escravizadas. O caso ganhou ampla cobertura pela imprensa da época justamente pela atividade já ter sido criminalizada, mas inúmeros casos não registrados seguem ocultos pela história.

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O criminoso estadunidense ainda seguiria foragido por uma década, sendo, no entanto, capturado pela justiça dos Estados Unidos. Ele foi condenado à morte e enforcado pelas atividades de tráfico ilegal em 1862. A escravização de milhões de africanos e povos originários foi largamente utilizada no Brasil Colônia e no período pós-colonial.

Segundo levantamentos da Universidade de Princeton, dos 12 milhões de africanos escravizados e trazidos ao chamado Novo Mundo, quase metade — 5,5 milhões — foram levados ao Brasil, desde 1540 até os anos 1860. No Quilombo de Santa Rita do Bracuí, em Angra dos Reis, os quilombolas contavam a história de uma embarcação naufragada sem nome, que hoje acredita-se ser o Brigue Camargo.

A história foi considerada essencial para as pesquisas sobre o caso, que começaram em 1952. Há planos para, no futuro, serem feitos um documentário e um filme de ficção contando a história do Brigue Camargo e seu naufrágio na costa brasileira.

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Fonte: ARTNews, TV Prefeito, Princeton University, AfrOrigins