Com coronavírus e enchentes, home office é a melhor opção para jovens adultos

Por Fidel Forato | 03 de Março de 2020 às 18h35
undrey/Depositphotos

Qual millennial — aquela geração nascida entre os anos de 1980 e 1995 — nunca sonhou em trabalhar de casa, de preferência com pijama e uma xícara de café do lado? Pode ser que nem todos, mas ter pelo menos um dia da semana com trabalho em home office já é realidade para muitos. Afinal, basta ter acesso à internet e um computador pessoal para integrar os novos ambientes corporativos.

Recentes problemas tanto de ordem mundial quanto nacional têm revisitado a discussão sobre home office e os benefícios do trabalho remoto. É o caso das grandes empresas chinesas que precisam lidar com o impacto do novo coronavírus, causador da COVID-2019, na rotina dos seus trabalhadores. E elas têm optado muito pelo modelo, evitando uma parada generalizada. Durante as intensas chuvas que São Paulo e grandes capitais brasileiras enfrentaram nas últimas semanas, companhias nacionais também optaram pelo home office. Em ambos os casos, quando possível (ou necessário), é melhor ter um funcionário produzindo, online e em segurança, independente da sua presença física.

Para entender melhor esse cenário com suas vantagens e desvantagens, o Canaltech conversou com Daniel Schwebel, que é country manager da Workana, uma das maiores plataformas de conexão entre freelancers e empresas da América Latina. Em números, a Workana tem mais de 2 milhões de profissionais e 637 mil contratantes inscritos na sua plataforma, sendo que a maioria desses serviços são realizados de forma remota.

Indícios apontam que funcionários que trabalham de forma remota apresentam melhora da produtividade e maior felicidade (Foto: Reprodução/ Metro)

Millennials e geração Z

Por enquanto, os millennials e a geração Z (jovens nascidos entre o final dos anos 90 até o ano 2010, que só agora começam a entrar no mercado de trabalho), são os que se conectam mais facilmente aos trabalhos remotos e até mesmo a oportunidades como freelancers. De acordo com Daniel Schwebel, isso acontece porque há uma nova leva de oportunidades, trazidas pela tecnologia, e esses jovens adultos são parte desse espírito de tempo, o zeitgeist.

“No entanto, essa situação ainda mudará nos próximos anos”, alerta Schwebel sobre essa mudança de perspectiva nos modelos atuais de trabalho. Para exemplificar, o country manager lembra que “há 50 anos, o que nossos pais faziam, dependia necessariamente da presença física no ambiente de trabalho. Era uma época em que nem existia computador e tudo era muito presencial, ou seja, não havia perspectivas de resolver os problemas de outra forma que não presencialmente.”

Esse cenário só se alterou com a digitalização de processos e a chegada dos computadores e da internet. Nesse momento, “as pessoas começaram a perceber que era possível, sim, entregar o que a empresa esperava e suas pendências de forma remota. Agora, a tendência é que cada vez mais pessoas adotem esse modelo, pela não mais necessidade da presença física”, completa Schwebel.

Além da possibilidade real do trabalho remoto, há outros fatores que contribuem para que profissionais optem pelo home office, inclusive os seniores. A idade média brasileira vem aumentando e, por isso, cada vez mais pessoas buscarão (ou precisarão) estar economicamente ativas por mais tempo. Só que esses profissionais tendem a buscar uma melhor qualidade de vida, depois de trabalharem por muitos anos full time. Isso pode ser, mais facilmente, encontrado em um trabalho remoto.

Embora haja as mesmas cobranças e obrigatoriedade do bom desempenho para se permanecer empregado, é consenso que ambientes corporativos nem sempre são saudáveis e o espírito de competitividade pode desencadear problemas para a saúde mental dos funcionários. É muito mais simples ignorar uma piada sem graça no mundo online, do que presencialmente, em um exemplo rotineiro em companhias.

Confira algumas dicas na hora do home office:

Mais produtividade e mais felicidade

“Em linhas gerais, a produtividade é maior de um funcionário que trabalha home office”, logo adianta Schwebel. Afinal, há a questão da mobilidade, que quando o profissional trabalha remoto, ele já economizou entre duas e três horas do seu dia só em locomoção, ou seja, tem mais disposição para as tarefas diárias. Além disso ou por isso mesmo, “os funcionários também são muito mais felizes quando adotam esse modelo de trabalho”, complementa o executivo.

Para o funcionário trabalhar no modelo de home office significa estar em um ambiente em que, na maioria das vezes, estão acostumados, como sua casa, ao lado dos filhos (caso tenha) e dos pets. Por usa vez, esse espaço mais confortável costuma ajudar no foco e no aumento da produção, caso a pessoa seja regrada e saiba distinguir o período em que deve trabalhar daquele de descontração.

Outro importante ponto do trabalho remoto é flexibilidade na sua rotina que esses trabalhadores ganham, já que podem estar em qualquer ambiente desde que conectados com a internet e com um computador. É um ponto muito positivo para pessoas que trabalham em São Paulo, mas moram no interior, por exemplo. Dessa maneira, podem só se deslocar para a sede da empresa em momentos estratégicos e manter o convívio entre os familiares.

Segundo Schwebel, a possibilidade de trabalho remoto é uma vantagem e um atrativo importante na seleção de novos talentos. Isso porque “o home office traz ganhos em qualidade de vida para os contratados pela companhia, mesmo que pareça imaterial, é significativo”, complementa.

Desafios para as empresas

Reuniões por vídeo-chamadas simultâneas já são uma realidade mesmo para funcionários que trabalham alocados em suas empresas. Por esse mesmo caminho, muitas informações estão disponíveis e são armazenadas em nuvem (cloud), ou seja, a realidade das empresas, por mais que não percebam, já está diluída no ambiente virtual e o home office é só mais um passo.

Para que o trabalho remoto, de fato, seja possível, Schwebel explica que “que envolve desde ter as ferramentas corretas para se trabalhar a distância [computador pessoal e internet de boa qualidade] até uma questão muito forte de segurança da informação.”

No ponto da segurança, o desafio é criar sistemas que permitam o funcionário utilizar seu computador pessoal para acessar arquivos corporativos e muitas vezes confidenciais, que não podem ser compartilhados. “Nesse aspecto, obviamente pensamos nos bancos, onde existe uma dificuldade maior de abertura para esse modelo de negócio, porque bancos acessam informações confidenciais de diversos correntistas”, explica o executivo e também alerta sobre os riscos para os negócios envolvidos em um possível vazamento.

Por isso mesmo, “VPNs e derivados são as ferramentas mais importantes para viabilidade esse modelo de trabalho, já que a empresa consegue verificar quais informações os funcionários acessam e permite que o que está sendo trabalhado não saia de uma ambiente seguro, a partir da criação de um login e senha”, comenta o executivo sobre uma solução encontrada por muitas empresas.

Segurança e proteção de dados são os temas que mais preocupam empresas na hora de adotarem o modelo de trabalho remoto (Imagem: Shutterstock)

De acordo com Schwebel, os negócios financeiros, principalmente os bancos que nasceram no mundo físico, são aquelas companhias que irão demorar mais tempo para chegarem ao trabalho remoto. Além dessas empresas, trabalhos que exigem atividades práticas do seus funcionários, como funções de limpeza e de transportes, dificilmente chegarão a esse modelo de trabalho por limitações físicas de seus serviços.

“Em contrapartida, percebemos que existem diversas empresas de tecnologia e startups que já começam seu modelo de negócio de uma forma que possibilite o trabalho”, afirma Schwebel. Por isso mesmo, é tão comum a presença maciça de funcionários remotos em co-workings, por exemplo. Ou ainda novas empresas que se formam com funcionários e colaboradores espalhados pelo mundo todo.

Mesmo com algumas dificuldades limitadoras, as grandes empresas já perceberam que home office é uma vantagem competitiva na seleção de talentos e que garantem o benefício de terem o seu funcionário trabalhando independente de onde esteja. Para Schwebel, inclusive, “só existem benefícios e as empresas que ainda não migraram para isso, não o fizeram por uma questão da tecnologia e de segurança da informação, mas esse caminho está na cabeça de todos os gestores.”

Entenda os benefícios do home office:

Conselho de amigo

Embora o trabalho remoto pareça uma contratação dos sonhos — e de fato, é, para a empresa, principalmente — traz uma série de desvantagens, ligadas às capacidades de soft skills, ou seja, que aquelas competências comportamentais, difíceis de serem obtidas. Entre esses atributos pessoais está a boa capacidade de comunicação, já que a distância, as conversas e feedbacks deve ser os mais claros possíveis de modo a evitar mal-entendidos.

Outra característica muito importante para esse profissional é o pensamento crítico, ou seja, a importância de que o funcionário seja proativo, saiba analisar uma situação e fazer a melhor escolha. Essa espécie de autonomia se faz ainda mais necessária quando não há um chefe cobrando o funcionário, diretamente, ao longo de toda a sua jornada. Afinal, só há a entrega de resultados.

Ainda fundamental é a disciplina e compromisso com horários organizados. Não é porque se trabalha da casa ou da praia, que o funcionário pode atrasar pendências. Nesses casos, a dica é planejar as entregas com antecedência e trabalhar a questão da produtividade. Superado isso, nada melhor que trabalhar ao lado do seu pet, perto dos filhos ou na companhia da sua playlist favorita.

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