Crítica | Valley of The Boom é uma bem contada história do passado da internet

Por Wagner Wakka | 13 de Julho de 2019 às 08h49
Divulgação/Natgeo

Trabalhando na cobertura de tecnologia é quase impossível não pensar que se conhece toda a história da internet. Mas ela tem seus bastidores, aqueles pequenos negócios que quase se tornaram reis de um novo continente chamado World Wide Web — ou como gostavam de traduzir as revistas da década de 1900: a super rodovia da informação.

Valley of The Boom conta a história de três empresas que, como portugueses dos anos de 1500, resolveram desbravar terras ainda pouco exploradas. Trata-se de uma série dramático-documental que relata o passado de três empresas, algumas mais conhecidas, outras menos no universo de quem conhece um pouco mais sobre tecnologia e mercado.

São elas: Netscape, o primeiro programa a ser conhecido como um navegador na história da computação; The Globe, a primeira proposta de rede social, muito antes de Zuckerberg ter seu primeiro resquício do que seria o Facebook; e a Pixelon, um projeto recheado de fraudes e vendas de sonhos da primeira plataforma de vídeos por streaming.

Veja bem, a proposta da série é trazer para 2019 um passado de fracassos. Já se sabe que nenhuma das três companhias sobreviveu à selvageria da concorrência do Vale do Silício. Aliás, o nome Valley of the Boom carrega uma série de sentidos.

Primeiro, é relativo ao Vale do Silício, região que, apesar de não ter silício, ganhou esse nome por conta da concentração de empresas com foco em tecnologia. Segundo, porque a palavra boom pode tanto se referir à explosão de crescimento, quanto à bolha que este mercado sentiu na virada do século, quanto ainda ao fim prematuro de cada uma dessas companhia.

Fato é que Valley of the Boom não é uma simples aula dos primórdios desses três serviços, mas uma lembrança de que o sucesso pode ser apenas uma etapa para o fracasso.

Vale lembrar que o episódio 1 está disponível no YouTube abertamente:

Aula-show

Tal qual um professor de cursinho que sabe que ensinar logaritmo requer um pouco de criatividade para reter a atenção dos alunos, Matthew Carnahan, produtor da série, sabe que a simples apresentação dos fatos poderia ser um convite para uma boa soneca.

Por conta disso, Valley of the Boom não tem a mínima cerimônia em criar momentos de descontração, música e até mesmo ficção em meio ao caráter documental.

A narrativa também aproveita de um estilo de roteiro muito típico da fantasia, oriundo de livros de ficção. Tendo em mão a história de três empresas que andam em paralelo, os produtores acertaram em não contar o passado de cada uma por vez, mas misturar seus enredos, bem entrelaçados mesmo.

Essa opção cria algumas consequências boas e outras ruins para o entendimento. A começar pelo revés. Por vezes, principalmente no primeiro episódio, é complicado de se entender sobre qual empresa em específico se está falando. As três compartilham de uma mesma narrativa, embora suas linhas não se cruzem diretamente.

Do lado positivo, essa escolha faz com que haja todo um zeitgeist, ou seja, um cenário maior dentro do qual as três empresas estão incluídas. É possível ver que estamos falando de três histórias diferentes, mas que ainda participam de um mesmo ambiente, região. Três peças diferentes, contadas diante de um mesmo cenário.

A escolha de mesclar as empresas também aproveita uma técnica de roteiro muito inteligente: a de segurar as histórias sempre no clímax. Por exemplo, em um episódio a Netscape teria uma reunião com a Microsoft que seria decisiva para a história do navegador. A narrativa começa com os donos da empresa contando como que seria a reunião, quem participaria e o que seria discutido. No momento em que tal reunião vai começar, o roteiro corta para a linha narrativa da The Globe, segurando o episódio em um clímax constante.

Esta é uma técnica muito comum na ficção, podendo ser vista em filmes como Senhor dos Anéis, os livros de Dan Brown e até mesmo em novelas brasileiras. Contudo, é bem raro ver um estilo tão bem emprestado para um seriado que se propõe documental.

Atuações e entrevistas

Outra boa introdução ao estilo de Valley of The Boom é não se engessar ao caráter documental. A série traz entrevistas com vários e vários executivos da época, desde os criadores da Netscape, até parte do grupo que trabalhou no The Globe e Pixelon.

Contudo, por motivos até que óbvios, é possível perceber que parte dos personagens se negou a dar uma entrevista para o documentário. Um deles é Marc Andreessen, o principal criador e desenvolvedor do Netscape, conhecido por ser um daqueles gênios indomáveis da indústria. Andreesen não participou das entrevistas, logo, ele é interpretado somente por John Karma, no papel do adolescente sempre mal-humorado, quase inspirado em Steve Jobs.

O mesmo acontece com outro personagem principal: Michael Fenne o codinome de um fugitivo… bem, se você não conhecer a história do maluco que criou a Pixelon, recomendo que dê um Google neste nome. Ele também não aparece nas entrevistas e é interpretado por Steve Zahn.

Ator Steve Zahn interprestando Michael Fenne (Foto: Divulgação/Natgeo)

Assim, a série traz boas pitadas de humor, sarcasmo e até brinca de musical. Em um dos episódios, acontece até mesmo uma cena de assassinato em massa que não passa apenas de uma alucinação de um dos personagens.

Todas estas brincadeiras colaboram para o bom ritmo de Valley of The Boom, deixando esta grande aula mais palatável. Contudo, mais uma vez, tal qual o professor que insere suas piadas em meio a uma explicação sobre logaritmo, parte do conteúdo (que é denso) pode ficar pelo caminho.

Conteúdo

Mesmo como toda bela parcela de brincadeiras e descontrações de estilo, Valley of The Boom ainda é um produto de muito, mas muito conteúdo. A série traz bons detalhes de bastidores de cada uma dessas empresas.

A sacada é que aquilo que os entrevistados não podem, ou não querem falar, é colocado na boca de jornalistas convidados e que cobriram tudo isso na época. A ferramenta de dramatizar toda narrativa também permite apresentar momentos grotescos e vergonhosos dos personagens, sem que isso seja um constrangimento para eles.

Por exemplo, sem ter uma entrevista com Bill Gates sobre como a Microsoft simplesmente fez uma manobra para tentar massacrar sem dó a Netscape, o grupo usa um fantoche do executivo. Isso apresenta um lado nefasto da empresa, ainda que sem criar a ideia maniqueísta do todo. Afinal, estamos falando de negócios.

Com isso, Valley of The Boom é uma viagem muito sincera (ao menos pelo que conta a história) por bastidores pouco conhecidos e explorados dos primórdios da internet. É interessante ver este passado ganhando vida e esperar pelo futuro, mesmo sabendo como ele aconteceu.

Série traz entrevistas com principais nomes das empresas citadas (Foto: Divulgação/Natgeo)

É claro que no final nem Netscape, nem The Globe ou Pixelon vão se tornar gigantes do mercado. Nós sabemos bem quem são os atuais donos da bola. Ainda, a série faz um excelente trabalho em não cair na mesmice de apresentar o cenário amplo, mas amplia uma lupa em um cantinho muito específico, importante, mas sobre o qual pouco se fala da história da internet.

Assim, mesmo se você já for um expert da indústria de tecnologia e acha que conhecer esse meio como a palma da mão, vale dar uma boa chance para Valley of The Boom. Se você só usa Facebook, YouTube, Netflix e Google Chrome, vale conhecer um pouco mais do cenário inicial do mercado de navegadores, redes sociais e serviços por streaming.

Só a capacidade de criar uma boa narrativa para uma história tão densa e sisuda já é motivo suficiente para dar uma chance para os seis episódios de Valley of The Boom. A produção foi lançada em janeiro deste ano pela Natgeo e está disponível no Brasil pelo app da Fox.

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