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Crítica Ripley | Minissérie da Netflix é suspense policial intrigante e poético

Por| Editado por Durval Ramos | 04 de Abril de 2024 às 18h30

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Divulgação/Netflix
Divulgação/Netflix
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Falsários não são uma novidade no cinema. De Prenda-me se for capaz (2003), passando por O Vigarista do Ano (2006) e chegando ao recente Saltburn (2023), o que não faltam nas telonas são personagens que por inveja, dinheiro ou algum tipo de obsessão desejaram viver a vida de outra pessoa.

Uma das mais famosas figuras desse hall de picaretas, no entanto, é ninguém menos do que Tom Ripley, um dos grandes mestres na arte da personificação. Nascido na literatura, no livro O Talentoso Ripley (1955) da escritora Patricia Highsmith, o personagem se tornou um sucesso instantâneo, ficando popular da noite para o dia por sua frieza, inteligência e espantosa habilidade de convencimento.

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Não à toa, ele se tornou o protagonista de mais quatro livros da escritora em que sempre aparecia cometendo trambiques, crimes de falsidade ideológica e assassinatos pelos quais nunca era pego — ainda que sempre estivesse a um passo de ser descoberto.

Ripley, nova minissérie de suspense psicológico da Netflix, é mais uma adaptação da primeira história do personagem, dessa vez embalada pela estética poética do escritor e diretor Steven Zaillian (A Lista de Schindler).

Combinando elementos dos filmes noir da primeira metade do século 20 com a história de um personagem disposto a enganar tudo e todos, o show apresenta uma trama de mentiras tensa e envolvente, que se desenrola como se fosse uma fileira de dominós em queda, mas que exige paciência do telespectador para acompanhar o seu percurso.

Um trambiqueiro tira a sorte grande

Estrelada por Andrew Scott (Todos Nós Desconhecidos), que dá vida ao soturno e misterioso protagonista, Ripley tem início na New York do começo dos anos 1960, quando Tom Ripley, um ambicioso rapaz que ganha a vida fazendo todo tipo de trambiques, recebe uma proposta inesperada, mas bastante vantajosa.

Herbert Greenleaf (Kenneth Lonergan), um magnata que trabalha na construção de barcos, decide contratar o rapaz para que ele vá até a Itália e convença o seu filho — e único herdeiro — a voltar para casa, assumindo assim os negócios da família. Tom, que tem um tino aguçado para “oportunidades”, topa a mudança sem muitos protestos e se dirige então até a pequena cidade de Atrani, na província de Salerno, onde faz amizade com Dickie (Johnny Flynn).

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Apesar de no início, tanto a namorada do rapaz — a aspirante a escritora Marge Sherwood (Dakota Fanning) —, quanto seu amigo, o playboy Freddie Miles (Eliot Sumner), desconfiarem das intenções de Tom, o vigarista aos poucos consegue se infiltrar na vida do milionário, passando a morar com ele e se tornando sua sombra. Uma relação de inveja, deslumbramento e frieza que leva a uma série de assassinatos e um plano chocante, mas muito bem executado, de mentiras e trapaças.

A tensão cresce nos detalhes

Dividida em oito episódios que vão de 50 minutos a 1h de duração cada, Ripley começa com um ritmo mais lento, ambientando o público à história e aos personagens da trama.

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Enquanto mostra o sentimento crescente de cobiça de Tom — que vê em Dickie um rapaz sem nenhum talento, mas muito dinheiro e carência —, a série se vale também de outros elementos para crescer esse clima de tensão, como as imagens em preto e branco e as referências às artes plásticas.

Além da arquitetura e da moda, a pintura, em especial, funciona como uma alegoria para a estranha relação que se estabelece entre os dois e, que, em vários momentos, flutua entre o romance, o desejo, a raiva e a ambição.

A série, inclusive, faz um brilhante trabalho de fotografia, trazendo tomadas e enquadramentos incomuns — especialmente nos primeiros episódios — que reforçam essa sensação de que a qualquer momento uma tragédia irá se estabelecer.

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A partir do terceiro capítulo, no entanto, quando há a primeira reviravolta da trama, a narrativa fica mais rápida e a sensação de tensão, embora continue, se estabelece de outra maneira. Agora, não é mais o receio que toma conta da audiência, mas sim a curiosidade, misturada à apreensão, de ver como Tom irá se safar dessa rede de crimes e mentiras em que se meteu.

Protagonista se revela fascinante

Embora esteja longe de ser uma minissérie que vá agradar a todo o público — especialmente aqueles que não persistirem na história, achando seu começo muito parado —, Ripley é inevitavelmente um fascinante estudo de personagem. O protagonista é quem dá o tom da narrativa, sendo responsável por cada movimento da trama e por revelar para a audiência, a cada novo capítulo, mais um pedaço da sua brilhante mente moldada para trapaças.

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Andrew Scott, que já teve outros personagens memoráveis como o padre gato de Fleabage o jovem Adam de Todos Nós Desconhecidos, parece ter sido moldado para o papel, fazendo com maestria um assassino a qual todos nós, evidentemente, temos medo, mas que ao mesmo tempo também inspira certa admiração por sua audácia e perspicácia — algo que ele já havia entregue em Sherlock com seu Jim Moriarty.

Inteligente e puro suco dos suspenses policiais que se popularizaram nos anos 1930, Ripley é uma série audaciosa, tanto pela suas imagens poéticas, que dizem tanto em tão pouco, quanto por seu protagonista ambíguo. Para quem ficou curioso, os oito episódios completos do show já estão disponíveis na Netflix.