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Crítica Saltburn | Nem ótima fotografia e atuações tornam o filme convincente

Por| Editado por Durval Ramos | 26 de Dezembro de 2023 às 20h05

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Divulgação/Amazon Prime Video
Divulgação/Amazon Prime Video

Saltburn, filme que estreou na última sexta-feira (22) no Amazon Prime Video, é um suspense psicológico que chegou repleto de burburinho ao streaming. Apresentado no Festival de Cinema de Telluride e lançado de maneira limitada nos cinemas, o longa-metragem de Emerald Fennell (Bela Vingança) virou alvo de polêmica ainda em suas primeiras exibições graças a algumas cenas chocantes de sua trama.

Presentes em vários momentos da história, essas cenas contam com nudez frontal e momentos sexuais incomuns — o que inclui um personagem se esfregando em uma cova no cemitério e, em outro momento, passando sangue menstrual no rosto. Imagens que, embora causem estranheza entre o público e despertem diferentes tipos de emoções, não aparecem na história de forma gratuita e são apenas mais um dos muitos elementos do filme.

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Assim como a fotografia, as cores, a excentricidade ou mesmo as atuações de Saltburn, as cenas de sexo e nudez do longa são apenas mais um componente de sua história. Um aspecto importante da trama, mas que se torna um grão de areia perto de tantas outras coisas que podem ser ditas sobre o longa-metragem.

Uma história sobre obsessão, sedução e luxúria

Saltburn conta a história de Oliver Quick (Barry Keoghan), um rapaz introspectivo, que começa a estudar como bolsista na Universidade de Oxford. No local, ele se aproxima de Felix Catton (Jacob Elordi), um jovem milionário que se compadece não apenas de sua situação financeira, mas também do passado de Oliver, que vem de uma família destruída pelo vício e por problemas mentais.

Embora de backgrounds muito diferentes, Felix e Oliver se tornam bastante próximos ao longo do ano e, quando o mentalmente instável pai de Quick morre, Felix decide chamar o amigo para passar as férias em Saltburn, a luxuosa e excêntrica propriedade de sua família.

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Colorida e exuberante, Saltburn é praticamente um outro personagem do filme. Além de ser palco de grande parte da narrativa, a propriedade majestosa dos Catton traduz o esnobismo da família, que vive cercada por peças, quadros históricos e paisagens idílicas, mas mal se interessa pelo que está ao seu redor.

Os pais de Felix, inclusive, interpretados por Richard E. Grant e Rosamund Pike — além de sua irmã Venetia (Alison Oliver) e de seu primo Farleigh (Archie Madekwe) —, são figuras excêntricas completamente descoladas da realidade. Apresentados ao “pobre Oliver”, o amigo miserável e solitário do filho, eles são invasivos e condescendentes sem nenhum pudor, guiados pela sua própria realidade paralela.

Apesar de tudo isso, Oliver consegue se encaixar com bastante maestria nesse cenário, se mostrando ser uma pessoa educada, culta e que serve de escuta aos outros personagens. Um magnetismo que cresce cada vez mais, conforme o verão avança e certas fatalidades começam a acontecer em Saltburn.

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Tentando justificar o injustificável

É exatamente enquanto se encaminha para esse momento de virada, em que uma grande tragédia muda o tom da narrativa de Saltburn, que o filme tropeça e perde um pouco da atenção do público.

Embora o longa se esforce para mostrar que o protagonista é muito querido pela família (com exceção, é claro, de Farleigh), fica difícil comprar a ideia de que Oliver consegue, do dia para a noite, exercer um poder de persuasão tão grande sobre os Catton.

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Nem mesmo a fotografia e os muitos apelos visuais do filme, que por vezes tentam vender essa ideia, são suficientes para explicar esse fascínio exercido pelo rapaz, especialmente sobre as mulheres da família.

Há uma mudança tão brusca na narrativa que parece até que uma parte do filme foi cortada. A parte que, ironicamente, explicaria o magnetismo do protagonista sobre os outros personagens, que embora afetados e influenciáveis, soam ingênuos demais para alguém com tanto dinheiro.

Um filme de brilhantes atuações

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Assim, quando os momentos de maior tensão de Saltburn se desenrolam, por mais provocantes e grandiosos que sejam, fica a estranha sensação de que não sabemos muito bem como chegamos até ali. Há um descompasso entre as duas partes do filme, que embora separadamente sejam interessantes, não parecem ter ligação entre si.

Vale, no entanto, ressaltar que há cenas memoráveis nessa última fase do longa, que exigem muito dos atores do elenco.

Além de Jacob Elordi, que faz um ótimo Felix, encarnando um playboy doce, mas que não enxerga seus próprios defeitos, Rosamund Pike brilha como a afetada matriarca da família, que parece sempre perdida em pensamentos. Barry Keoghan, por sua vez, parece ter sido desenhado para o papel, despertando sentimentos completamente diversos no telespectador ao longo da trama.

Apesar de tudo isso, fica ainda um gosto amargo ao final de Saltburn. Embora o filme acerte em muitos aspectos e seja louvável a atmosfera de obsessão e luxúria criada ao redor de seus personagens, fica difícil ignorar seu problema de desenvolvimento.

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Afinal, para um filme com tanto potencial, uma peça mal colocada pode até não atrapalhar no bonito visual de seu resultado, mas claramente torna tudo bambo e precário, pronto para desmoronar a qualquer momento.