É assim que a polícia sabe o que você pesquisa, acessa, lê e assiste na web

É assim que a polícia sabe o que você pesquisa, acessa, lê e assiste na web

Por Ramon de Souza | 05 de Janeiro de 2021 às 08h00
Divulgação/FBI

É bom tomar muito cuidado com o que você pesquisa no Google. Caso você seja dono(a) de um smart speaker (como o Echo da Amazon), controle a língua perto dos microfones do gadget. No YouTube, preste muita atenção ao tipo de vídeo aos quais você assiste. Afinal, tudo o que você acessa, lê e/ou fala na internet pode — e será — usado contra você no tribunal, caso eventualmente cometa algum crime ou infração (por menor que seja).

Você pode até não saber, mas, nos tempos atuais, pequenos pedaços de informação que são coletados primariamente para alimentar algoritmos podem, sim, se transformar em peças de um quebra-cabeça para a resolução de um crime. A maioria das autoridades globais têm o poder de requisitar que as “big techs” quebrem o sigilo de navegação e forneçam dados que sejam relevantes para uma investigação criminal.

Um ótimo exemplo disso — e que, inclusive, já foi noticiado aqui mesmo no Canaltech — é o caso de Michael Williams, um amigo do cantor R. Kelly, constantemente acusado de estupro e pedofilia. Williams estava sendo investigado por supostamente atear fogo no carro de uma mulher que testemunhou contra o artista; para tal, o FBI enviou ao Google aquilo que já está sendo chamado de “mandado de palavra-chave”.

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Em suma, o órgão obteve acesso às pesquisas realizadas pelo investigado no buscador mais famoso do mundo e, posteriormente, às suas chamadas telefônicas e seu histórico de navegação no YouTube. A quebra de sigilo ajudou as autoridades a constatar que Williams, de fato, pesquisou muito sobre “as propriedades inflamáveis do diesel” e a vítima que teve o carro incendiado vários dias antes do crime efetivamente acontecer.

Imagem: Reprodução/Security Report

Outro caso perturbador é o do aplicativo Muslim Pro, que foi baixado mais de 1,6 milhão de vezes e possui o Alcorão completo, além de outras orações muçulmanas. Segundo uma recente investigação da VICE, este e outros softwares aparentemente “inofensivos” vendem informações de minorias religiosas e étnicas para órgãos governamentais e corretores de dados — algo potencialmente perigoso, especialmente em países autoritários.

Uma questão cultural

Infelizmente, o problema vai muito além de um ou outro aplicativo — a cerne da questão é que, ao longo dos últimos anos, tem sido criada uma cultura que normaliza a coleta massiva de dados pessoais de internautas sem que estes sequer tenham conhecimento a respeito do que será feito com suas informações. Claro, há leis sendo criadas para minimizar esse efeito, mas parece que tais esforços regulatórios não são o suficiente.

A previsão é que esse cenário piore com a ascensão do mercado de Internet das Coisas (IoT), já que estamos cada vez mais cercados de dispositivos inteligentes repletos de sensores capazes de saber nossos passos. Resta crer nas iniciativas privadas das próprias big techs — como a Apple, que recentemente anunciou um sistema de transparência de rastreamento em aplicativos — para que os internautas voltem a ter sua privacidade.

Fonte: WIRED

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