Cientistas querem vacina universal para combater variantes do coronavírus

Cientistas querem vacina universal para combater variantes do coronavírus

Por Fidel Forato | Editado por Luciana Zaramela | 09 de Abril de 2021 às 12h20
Dante Doria/ Pixabay

Diferentes tipos de coronavírus foram — e ainda são — as principais ameaças pandêmicas que o mundo enfrentou nas últimas duas décadas. Em 2003, a síndrome respiratória aguda grave (SARS) levou ao óbito 774 pessoas. Desde 2011, a Síndrome respiratória do Oriente Médio (MERS) foi responsável por 858 mortes. E desde 2019, a COVID-19, causada pelo SARS-CoV-2, já levou ao óbito 2,8 milhões de pessoas.

Neste cenário, cientistas trabalham em uma vacina universal contra esses agentes infecciosos e que seria a resposta contra o próximo membro da "família coronavírus" a ser identificado em humanos. A ideia é que esta fórmula seja desenvolvida a partir de estruturas compartilhadas por todos esses vírus e que também seja válida para eventuais mutações. Por isso, o desafio é enorme, mas não impedirá que testes preliminares comecem ainda em 2021.

Cientistas trabalham em uma vacina universal para diferentes tipos de coronavírus (Imagem: Reprodução/Anna Shvets/Pexels)

Programa para uma vacina universal começou com a gripe

Diretor do Centro de Vacinas e Imunologia da Universidade da Geórgia, nos Estados Unidos, Ted Ross trabalhou durante 15 anos no desenvolvimento de uma potencial e universal vacina contra a gripe (influenza), recebendo investimentos do próprio governo norte-americano. Inclusive, Larry Page, cofundador do Google (e da Alphabet), também esteve envolvido na busca pelo imunizante.

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Uma vacina universal contra a gripe é um sonho antigo para os pesquisadores e médicos que trabalham contra a doença. Isso porque é necessário atualizar a formulação, anualmente, da vacina contra o vírus influenza, já que o agente infeccioso sofre mutações e gera linhagens contra as quais as pessoas não têm anticorpos. Se ela for desenvolvida com sucesso, os cientistas não precisariam mais "adivinhar" quais cepas de gripe circularão no ano seguinte, o que aumentaria, ainda mais, sua eficácia.

No entanto, as tentativas desenvolvidas até o momento para esta vacina foram infrutíferas e nenhuma vacina universal contra a gripe foi aprovada, nem as que Ted Ross esteve envolvido. Em paralelo, a pandemia da COVID-19 avançava em março de 2020 e foi aí que o pesquisador mudou o foco da pesquisa, de forma temporária. Nos últimos meses, a meta se tornou uma vacina universal contra as variantes do coronavírus SARS-CoV-2 e, em um segundo momento e com resultados positivos, contra todos os coronavírus causadores de doenças respiratórias em humanos.

Por trás desse objetivo, o foco inicial da pesquisa é entender quais regiões do vírus SARS-CoV-2 são mais importantes para estimular os anticorpos que o corpo usa para se defender e quais partes são menos mutáveis, utilizando algoritmos. Os algoritmos, aliás, já são largamente usados para analisar as partes importantes de várias cepas de vírus e montá-las em uma única vacina. “Agora que estamos começando a ver mais variantes [do vírus da COVID-19] surgindo, começa a aparecer a chance de realmente testar [a fórmula] contra uma gama mais ampla de cepas, o que será necessário para saber se [a fórmula] é realmente universal ou não”, comentou Ross para a Wired. Isso será testado ainda em 2021.

Como funcionaria uma vacina universal contra o coronavírus?

Para se ter uma vacina universal contra o coronavírus, esta fórmula teria que garantir a proteção contra diferentes variantes, o que só seria possível a partir de um alvo do agente infeccioso com pouca possibilidade de mutação. Neste caso, a proteína S (spike) da membrana viral não parece ser uma boa opção. A questão é pensar nessas outras partes do agente infeccioso.

Pesquisas avaliam viabilidade de uma vacina universal contra o coronavírus e suas mutações (Imagem: Reprodução/Photocreo/Envato)

Uma alterativa ainda provisória encontrada pelos cientistas é de focar o desenvolvimento de um imunizante para imunizar contra uma proteína do nucleocapsídeo, ou seja, uma proteína interna encontrada em todos os coronavírus humanos conhecidos, que ajuda o vírus a se replicar e que guarda o material genético dele. A vantagem desse foco é a sua baixa taxa de mutação. Isso porque as mutações, nesta proteína, tendem por afetar, de forma negativa, a estrutura do agente infeccioso, diminuindo sua capacidade de transmissão e replicação.

E a vacina contra diferentes tipos de coronavírus?

Pesquisadora da empresa norte-americana Adagio e responsável pelo desenvolvimento de uma terapia inédita de anticorpos monoclonais que tem como alvo os coronavírus (além do SARS-CoV-2), Laura Walker questiona os esforços por uma vacina ou medicamento realmente universal contra os coronavírus, devido a sua grande diversidade.

Por outro lado, pensar em uma abordagem para alguns tipos específicos, de forma coletiva, é viável. “O desenvolvimento de anticorpos em vacinas que sejam eficazes contra subfamílias de vírus, como a família de vírus SARS, por exemplo, é muito mais viável”, pontua Walker. Neste raciocínio, poderia ser desenvolvida uma fórmula única contra o SARS, o SARS-CoV-2 e outros potenciais coronavírus encontrados em animais, como morcegos.

CEO do Human Vaccines Project, Wayne Koff concorda com a pesquisadora e explica que o caminho para uma vacina universal contra os coronavírus deve começar com uma fórmula eficaz contra um agente infeccioso. Em um segundo momento, esta mesma fórmula deve ser adaptada para atuar contra uma gama maior de vírus similares e, por fim, se tornar uma vacina universal. É o caminho que o cientista Ted Ross planeja começar neste ano, enquanto torcemos para que nenhum outro coronavírus chegue neste intervalo.

Fonte: Wired  

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