Vacina reversa tem 75% de eficácia no controle de doenças autoimunes

Vacina reversa tem 75% de eficácia no controle de doenças autoimunes

Por Ingrid Oliveira | Editado por Luciana Zaramela | 01 de Dezembro de 2021 às 12h40
Reprodução

Você já ouviu falar em doenças autoimunes? Elas ocorrem por conta de um funcionamento reverso do sistema imunológico: em vez de destruir corpos estranhos, ele ataca, por engano, tecidos saudáveis do próprio corpo. Essas patologias são crônicas, não transmissíveis e podem ser controladas com tratamento — mas nem sempre esse é o caso.

Pensando em como reverter essa situação, pesquisadores dos Institutos Nacionais da Saúde, conglomerados de centros de pesquisa, nos Estados Unidos, desenvolveram uma abordagem de vacinação reversa que pretende treinar o sistema imunológico para desconsiderar as proteínas próprias e prevenir respostas imunológicas indesejadas. Os resultados da pesquisa foram publicados na Scientifics Reports.

Nas doenças autoimunes, os anticorpos atuam contra o próprio organismo (Foto: iLexx/Envato Elements)

Ignorando doenças autoimunes

Os pesquisadores discutiram um teste com nanopartículas contendo fosfatidilserina (PS, em inglês), um componente natural das membranas celulares, para uma nova abordagem de vacinação reversa oral, ou seja, pré-tratamento de uma proteína terapêutica na presença de nanopartículas para prevenir a imunogenicidade do organismo.

Hoje as vacinas atuam para treinar o sistema imunológico para reconhecer e atacar partes específicas de um patógeno que entra no corpo — como a da Pfizer, por exemplo. Neste caso, a vacinação proposta é totalmente o contrário disso. Os pesquisadores querem ensinar as células de defesa do corpo a conviver com as proteínas introduzidas no organismo em vez de destruí-las.

O imunizante que a equipe desenvolveu utiliza a fosfatidilserina — quando uma célula morre, o corpo utiliza um processo natural para remover o que foi danificado, então, esse componente de PS fica exposto ao exterior dessa célula, que posteriormente envia um sinal de “destrua-me” para as células especializadas, para limpar os restos das que morreram.

Já era de conhecimento dos pesquisadores o fato de que altos níveis de PS fora da célula também ensinam ativamente o sistema imunológico a ignorar os detritos. Nesse sentido, eles desenvolveram um método para a fosfatidilserina ajudar os anticorpos a não atacarem proteínas específicas.

Para o experimento, os cientistas fizeram um teste em camundongos com hemofilia A — distúrbio em que o sangue não coagula normalmente e causa diversos sangramentos. A doença é causada quando o organismo é incapaz de produzir uma proteína específica chamada fator VIII.

A partir disso, quando a equipe reverteu a vacinação dos camundongos com fator VIII somado a uma forma modificada fosfatidilserina, cerca de 75% dos camundongos não desenvolveram uma resposta imune indesejada (doença) quando foram posteriormente submetidos à proteína ao longo de quatro semanas — o que mostra que o sistema imunológico foi capaz de aprender que o fator VIII não era prejudicial e conseguiu ignorá-lo.

Tratamento reverso ensina os anticorpos a ignorarem doenças autoimunes (Foto: twenty20photos/envato)

Esperança de tratamento para doenças autoimunes

Quase 4% da população global é afetada por uma das mais de 80 doenças autoimunes diferentes, como diabetes tipo 1, esclerose múltipla, artrite reumatoide, lúpus, doença de Crohn, psoríase e esclerodermia.

Os pesquisadores esperam que a técnica de vacinação reversa possa oferecer uma maneira potencial de prevenir respostas imunológicas indesejadas que tornam os tratamentos ineficazes ou inutilizáveis.

A equipe espera migrar os testes de laboratório para estudos clínicos em humanos. Além disso, eles já estão trabalhando em novos experimentos de vacinação reversa para tratar outras doenças raras e condições que têm opções de tratamento limitadas.

Fonte: Scientific Reports; NSCF  

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