Tecnologia: uma grande aliada no combate ao AVC

Por Nathan Vieira | 29 de Outubro de 2020 às 13h15
Robina Weermeijer /Unsplash

A tecnologia tem caminhado cada vez mais lado a lado com a área da saúde, proporcionando auxílio em diferentes aspectos. Nesta quinta-feira (29), celebra-se o Dia Mundial do Combate ao AVC, e com base nisso, o Canaltech visa entender qual o papel da tecnologia como aliada nessa árdua batalha.

Mas antes de tudo, vale entender um pouco mais sobre o que exatamente é o AVC. Conhecido popularmente como derrame, o Acidente Vascular Cerebral decorre da alteração do fluxo de sangue ao cérebro. Responsável pela morte de células nervosas da região cerebral atingida, o AVC pode se originar de uma obstrução de vasos sanguíneos, o chamado acidente vascular isquêmico, ou de uma ruptura do vaso, conhecido por acidente vascular hemorrágico. Há dois tipos: o acidente vascular isquêmico ou infarto cerebral, e o acidente vascular hemorrágico.

De acordo com o Ministério da Saúde, o isquêmico é responsável por 80% dos casos de AVC. Trata-se de um entupimento dos vasos cerebrais que pode ocorrer devido a uma trombose (formação de placas numa artéria principal do cérebro) ou embolia (quando um trombo ou uma placa de gordura originária de outra parte do corpo se solta e pela rede sanguínea chega aos vasos cerebrais). Em entrevista ao Canaltech, Dr. Fabio Porto, neurologista do Hospital das Clínicas de São Paulo, explica: "O AVC isquêmico é uma interrupção do fluxo sanguíneo no cérebro falta sangue, então falta oxigênio, faltam nutrientes, e o neurônio que precisa disso para sobreviver morre".

Enquanto isso, o acidente vascular hemorrágico envolve o rompimento dos vasos sanguíneos e se dá na maioria das vezes no interior do cérebro, a denominada hemorragia intracerebral. Em outros casos, ocorre a hemorragia subaracnoide, o sangramento entre o cérebro e a aracnoide (uma das membranas que compõe a meninge). Como consequência imediata, há o aumento da pressão intracraniana, que pode resultar em maior dificuldade para a chegada de sangue em outras áreas não afetadas e agravar a lesão. Esse subtipo de AVC é mais grave e tem altos índices de mortalidade. "As causas do AVC hemorrágico envolvem fatores de risco como pressão alta, aneurisma, trauma no cérebro, rompimento do cérebro por hipertensão", acrescenta Dr. Fabio.

O acidente vascular cerebral exige urgência na identificação e no tratamento, algo que é reiterado por meio do Dia do Combate ao AVC  (Imagem: Robina Weermeijer/Unsplash)

Os sintomas comuns aos acidentes vasculares isquêmicos e hemorrágicos são dor de cabeça muito forte, de início súbito, sobretudo se acompanhada de vômitos, fraqueza ou dormência na face, nos braços ou nas pernas, geralmente afetando um dos lados do corpo, paralisia (dificuldade ou incapacidade de se movimentar), perda súbita da fala ou dificuldade para se comunicar, perda da visão ou dificuldade para enxergar com um ou ambos os olhos.

Outros sintomas do acidente vascular isquêmico são: tontura, perda de equilíbrio ou de coordenação. Os ataques isquêmicos podem manifestar-se também com alterações na memória e na capacidade de planejar as atividades diárias, além de náuseas, vômito, confusão mental e, até mesmo, perda de consciência. O acidente vascular hemorrágico, por sua vez, comumente é acompanhado por sonolência, alterações nos batimentos cardíacos e na frequência respiratória e, eventualmente, convulsões.

"A grande importância desse dia do combate ao AVC é conscientizar a população de que o AVC é realmente uma doença séria, que precisa ser identificada rapidamente e tratada com urgência. Antigamente as pessoas tinham uma fraqueza do lado do corpo e pensavam ‘Vou dormir, amanhã eu vejo’. Então esse dia é fundamental para saber os sintomas e procurar uma emergência. O tratamento depende do tempo que iniciaram os sintomas", aponta Dr. Fabio.

A tecnologia no combate ao AVC 

Na visão do Dr. Fabio, a tecnologia tem auxiliado no combate ao AVC de várias maneiras diferentes. "A tecnologia tem ajudado muito na identificação, então existem alguns serviços como telemedicina para detectar o AVC. A tecnologia também tem ajudado muito no tratamento, no desenvolvimento de novas drogas, tratamentos que tentam tirar a obstrução, ou tratamentos cirúrgicos para os casos de hemorragia, melhor monitorização dos fatores de risco, acompanhar o paciente à distância. Tudo isso ajudou muito na prevenção, no diagnóstico e no tratamento dos AVCs", opina.

Em meio a isso, programas de reabilitação baseados em realidade virtual estão se tornando um importante recurso complementar às terapias motoras convencionais para pacientes acometidos por AVC. Acontece que, estimulando vários sistemas sensórios, especialmente os sistemas visual e auditivo, a imersão do paciente em ambientes virtuais promove e intensifica o trânsito de informações (input/output) no sistema nervoso central.

Um estudo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) resultou no desenvolvimento de um novo dispositivo, o Biomechanics Sensor Node (BSN), capaz de captar dados do usuário e controlar ambientes virtuais, e um novo software, que integra o BSN ao Unity Editor, um dos programas mais utilizados atualmente na construção de ambientes digitais.

Na prática, a união entre o dispositivo e o software permite que pacientes em processo de recuperação motora interajam com ambientes de realidade virtual ao mesmo tempo em que os terapeutas têm acesso aos dados dos movimentos realizados durante a sessão, de acordo com Alexandre Brandão, pesquisador no Instituto de Física da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e no Instituto Brasileiro de Neurociência e de Neurotecnologia (BRAINN), em entrevista à Agência Fapesp.

Tecnologia se apresenta como grande aliada no combate ao AVC, atuando de várias maneiras diferentes em prol dessa causa (Imagem: kjpargeter/Freepik)

O BSN é composto por um sensor inercial, que, acoplado ao tornozelo, detecta o movimento relativo à marcha estacionária do paciente e faz o rastreamento corporal nos três planos de movimento. Os sinais gerados são processados e enviados a um celular, que permite controlar um avatar que interage com o ambiente virtual.

Alexandre Brandão afirma que os movimentos reais do paciente podem ser muito restritos, com pouca amplitude. Mas, no contexto virtual, os dados captados e processados geram movimentos completos do avatar. A informação visual provoca no paciente a impressão de que ele consegue realizar esses movimentos completos, e isso tem o potencial de ativar mais redes neuronais do que a terapia mecânica convencional.

O estudo recebeu apoio da FAPESP por meio de bolsa de pós-doutorado conferida a Brandão para o desenvolvimento do projeto “Aplicação e desenvolvimento de ferramentas de realidade virtual para complementar a terapia convencional em pacientes com AVC e avaliação da recuperação utilizando conectividade cerebral por meio de fMRI". Basicamente, exames de ressonância magnética funcional (fMRI) indicam que o procedimento ativa áreas específicas do cérebro, associadas a esses movimentos fictícios.

O próximo passo do projeto em questão é mensurar, por meio de testes clínicos, os ganhos funcionais na recuperação motora dos pacientes. Outro desenvolvimento esperado é fazer o avatar realizar atividades da vida diária ou práticas esportivas e interagir com outros indivíduos em um ambiente virtual multiusuário. Com isso, espera-se que a tecnologia aja cada vez mais como uma aliada na batalha contra o AVC.

Fonte: Com informações de Agência Fapesp e Biblioteca Virtual em Saúde

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