Dos apps ao coração biônico: cardiologia é uma especialidade MUITO tech!

Por Nathan Vieira | 14 de Agosto de 2020 às 15h00
Robina Weermeijer/Unsplash

Com a pandemia, os profissionais da saúde têm trabalhado mais do que nunca, mostrando-se como verdadeiros heróis. Esta sexta-feira (14) é uma data muito especial para uma parcela desses profissionais, pois comemora-se o Dia do Cardiologista. Com isso em mente, o Canaltech decidiu conversar com alguns especialistas para entender as contribuições da tecnologia para esta área da medicina.

O Dr. Agnaldo Piscopo, cardiologista e médico coordenador do Pronto Socorro da Santa Casa de Araras, conta que a tecnologia sempre ajudou na evolução da medicina, seja com o desenvolvimento de novos tratamentos ou pesquisas que trazem novos protocolos e orientações referentes a prevenção, por exemplo — e que na cardiologia não é diferente, com avanço dos equipamentos de imagens permitindo diagnósticos mais precisos e intervenções cardiológicas menos invasivas.

Enquanto isso, a cardiologista Dra. Claudia Branco compartilha do mesmo ponto de vista: "Exames de alta resolução não invasivos, que fornecem resultados altamente seguros e sensíveis, como angiotomografia e ressonância coronariana, as consultas on-line e as orientações através das mídias sociais com esclarecimentos das patologias de maior percentual na população são alguns exemplos".

Questionado sobre os recursos envolvendo diagnósticos e exames, Agnaldo considera que o principal foi o aprimoramento de exames de imagens como a tomografia e a ressonância magnética do coração, além da medicina nuclear e os avanços do ecocardiograma, permitindo avaliar de forma menos invasiva o coração e sistema vascular, trazendo avanços nos diagnósticos, mas também tornando alguns procedimentos menos invasivos.

"As salas hibridas com tomografia, ecocardiograma e equipamentos de intervenção através de procedimentos de hemodinâmica já são realidade em hospitais de alta tecnologia aqui no Brasil", afirma o especialista. Agnaldo acrescenta que hoje em dia já vemos que é possível, graças à tecnologia, uma maior integração entre o médico da emergência do pronto socorro e cardiologistas.

Pesquisas e outras contribuições da tecnologia possibilitaram avanços muito significantes para a cardiologia (Imagem: Jair Lázaro/Unsplash)

Telemedicina

Um exemplo de inovação dentro da cardiologia apontado por Agnaldo é o programa TeleCardio, uma ferramenta de suporte avançada desenvolvida para facilitar a tomada de decisão frente a pacientes em situações de emergências cardiológicas extremamente frequentes no dia a dia do pronto-socorro, onde raramente o médico da linha de frente é cardiologista, o que pode atrasar o diagnóstico impactando de forma negativa nas chances de sobrevida do paciente. A ferramenta serve principalmente para quadros de infarto agudo do miocárdio, em que o atendimento dos pacientes precisa ser o mais rápido possível para reversão do quadro.

O especialista explica que nessa reversão, o diagnóstico rápido por meio da interpretação correta do eletrocardiograma é necessário, e que na maioria dos casos, também vai ser preciso realizar a abertura da artéria do coração — que em 90% dos casos esta obstruída por trombos (coágulos). Os especialistas podem recorrer à prescrição de medicamentos chamados de trombolíticos para dissolver esse trombo. Em alguns casos, entra em cena o cateterismo cardíaco de emergência, para realizar uma angioplastia primaria (abertura da artéria culpada), algo que está disponível em menos de 15% dos hospitais.

Dra. Claudia disserta que a telemedicina consegue atingir os pacientes em seu lar sem a necessidade de locomoção ao consultório médico e é capaz de adaptar acessórios que medem a pressão e verificam a glicemia. A profissional descreve que até mesmo o eletrocardiograma pode ser feito à distância conforme o aplicativo usado. "Nesta fase de pandemia esse tipo de tecnologia veio favorecer principalmente os grupos de de maior risco obesos hipertenso os idosos e gestantes".

Aplicativos

Não faltam aplicativos voltados a auxiliar as pessoas a obter informações sobre a cardiologia. A própria Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), por exemplo, tem seu aplicativo próprio, onde reúne em um só local as principais publicações. O app, que está disponível para iOS e Android, conta com recursos como Minidicionário do Cardiologista e um Informativo mensal chamado Jornal SBC, por exemplo.

Dr. Agnaldo menciona o TeleCardio e o TeleStroke, aplicativos desenvolvidos pela farmacêutica Boehringer Ingelheim, como opções para "facilitar o diagnóstico e a tomada de decisão do tratamento do infarto agudo do miocárdio e do acidente vascular cerebral (derrame/AVC) aumentando a integração do médico da linha de frente da emergência com centros especializados em infarto e AVC, o que pode reduzir a mortalidade". Ele acrescenta que outros aplicativos, como calculadoras de fatores de risco para infarto e acidente vascular encefálico (iOS, Android), podem ser uma boa opção para auxiliar na decisão das opções terapêuticas baseadas em scores.

Já a Dra. Claudia Branco ressalta que existem vários apps para o médico poder interagir com outros profissionais na troca de casos clínicos, além de apps que podem fazer um eletrocardiograma à distância. "O paciente pode contar com os aplicativos de telemedicina, onde há médicos 24 horas por dia conectados que podem prestar atendimento on-line e esclarecimentos", aponta.

Equipamentos, aplicativos, telemedicina e pesquisas são algumas das contribuições da tecnologia para essa parte tão importante da medicina(Imagem: Alexandru Acea/Unsplash)

Redes sociais

No entanto, uma contribuição da tecnologia que diverge opiniões não apenas quanto à cardiologia, mas sim à medicina em geral, é a rede social. Do ponto de vista de Agnaldo, as redes sociais e a internet têm um papel duplo, de protagonista e antagonista ao mesmo tempo.

"Sem dúvidas, o número de fake news envolvendo saúde é muito grande e pode impactar negativamente o manejo de diversas doenças, pode prejudicar a saúde das pessoas. Ao mesmo tempo, as informações de qualidade, bem apuradas e de fontes confiáveis também podem ser mais acessadas. O importante é que o público que acessa a internet seja orientado da forma certa na qual devem buscar informações de saúde", opina o cardiologista.

Ele reitera que, sabendo usar as redes sociais, elas podem até democratizar o acesso das pessoas a informações de qualidade e que vão criar um impacto positivo na sua saúde, e que as sociedades médicas de especialidades também podem ser uma referência confiável para o leigo buscar informações seguras para os cuidados do coração.

"É inevitável que as pessoas busquem na internet informações sobre saúde e se deparem em sites e até canais no YouTube que falem sobre o assunto. O importante é prestar atenção na fonte das informações, confirmar se o conteúdo ali é verdadeiro, apurado, com referências científicas e chancela de algum especialista ou sociedade médica de especialidade", aponta

Para Cláudia, é importante sempre que a informação venha acompanhada com o nome e CRM do médico que está fornecendo a mesma para esclarecimentos posteriores se necessário. "O ideal é que o paciente obtenha informações diretamente dos profissionais da área de saúde e das sociedades correspondentes, como a Sociedade Brasileira de Cardiologia, que inclusive oferece palestras e esclarecimentos em mídias sociais com conteúdo de alto valor", declara a especialista.

Impressão 3D

A passos largos, a tecnologia vem trazendo novidades para essa área da medicina, principalmente quando se trata de estudos que permitem alcançar algo que simplesmente não era cogitado há alguns anos atrás. É o caso, por exemplo, do primeiro coração 3D vascularizado do mundo, impresso em abril do ano passado por pesquisadores da Universidade de Tel Aviv, de Israel.

O coração foi feito a partir das células e do material biológico do próprio paciente, além de ser o primeiro projeto no mundo que resultou num coração inteiro repleto de células, vasos sanguíneos, etc. Os materiais servem como as chamadas bio-tintas, substâncias feitas de açúcares e proteínas que podem ser usadas para impressão 3D de modelos complexos de tecidos.

Além disso, em setembro do ano passado, cientistas da Universidade de Harvard (EUA) desenvolveram uma nova técnica usando impressoras 3D, chamada de SWIFT (Sacrificial Writing Into Functional Tissue), cuja ideia é permitir o desenvolvimento em laboratório de órgãos maiores e mais funcionais. Ela consiste no uso de uma "tinta sacrificial", que, ao ser removida, deixa moldes no substrato, como se fossem vasos. Nos testes laboratoriais, a equipe de cientistas conseguiu criar um tecido cardíaco funcional (de forma bem rudimentar, um coração artificial) que pulsou durante sete dias.

Em dezembro de 2019, uma Instituição de caridade do Reino Unido, a Wessex Heartbeat, começou a financiar um projeto que usa a impressão 3D para mudar a maneira como a cirurgia cardíaca é realizada em crianças, minimizando os riscos do procedimento. A parceria para o tratamento de doenças cardíacas congênitas foi feita com Hospital Universitário de Southampton, na Inglaterra. Esses mesmo modelos cardíacos também podem ser aproveitados em exercícios práticos de treinamento na formação de novos cirurgiões, na própria faculdade.

Aparatos tecnológicos

O marca-passo é um famoso aparato tecnológico utilizado pela cardiologia para um cuidado prático dos pacientes com problemas cardíacos (Imagem: Ulrike Leone/Pixabay)

Claro que não poderiam ficar de fora os "velhos conhecidos" tecnológicos quando se trata dos cuidados com a saúde do coração. É o caso de um grande aliado dos especialsitas da área, por exemplo: o marca-passo. É um aparelho colocado no coração de pessoas que apresentam problemas em manter o ritmo cardíaco normal. Assim, ele também é utilizado para portadores de bradicardia, ou seja, pessoas que apresentam o ritmo cardíaco baixo (normalmente abaixo de 40 bpm).

O aparelho possui, basicamente, três componentes: gerador de pulso (onde se encontram os circuitos eletrônicos e também a bateria), o programador (usado pelo cardiologista para realizar todas as configurações necessárias) e os eletrodos (fios que conectam o gerador de pulso ao coração. É pelos eletrodos que os pulsos elétricos são levados até o músculo cardíaco).

A cardiologia também conta com o ultrassom com doppler, que é realizado através de um aparelho capaz de emitir ondas sonoras, que atingem o tecido e retornam como um eco, que é convertido em imagens. O doppler é o adicional capaz de identificar e visualizar o fluxo de sangue no local. Menção honrosa também para o stent, que é um pequeno e expansível tubo tipo “malha”, feito de metal como aço inoxidável ou liga de cobalto. Ele costuma ser utilizado para restaurar o fluxo sanguíneo na artéria coronária e trazer um ritmo quase normal.

Não podemos nos esquecer também do coração artificial, um dispositivo implantável que substitui as duas câmaras inferiores do coração, chamadas de ventrículos. O aparelho, inclusive, pode contar com ajuda da impressão 3D em alguns de seus componentes. O paciente pode se beneficiar do coração artificial se ambos ventrículos não funcionam em decorrência de insuficiência cardíaca.

O vídeo abaixo, da DW Brasil, resume bem como é o funcionamento dessa verdadeira máquina:

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