Próxima pandemia? Varíola dos macacos não é a nova covid, dizem especialistas

Próxima pandemia? Varíola dos macacos não é a nova covid, dizem especialistas

Por Fidel Forato | Editado por Luciana Zaramela | 25 de Maio de 2022 às 10h22
Pressmaster/Envato Elements

Passado o momento mais grave da pandemia da covid-19, muitos cientistas e milhares de pessoas se perguntam se outro vírus poderia representar um risco tão grande para a humanidade. Afinal, o coronavírus SARS-CoV-2 foi responsável por mais de 6,2 milhões de mortes oficiais. No entanto, este não parece ser o caso da varíola dos macacos (monkeypox), segundo especialistas.

Independente de não ser um desafio tão grande quanto a covid-19, é inegável que a varíola pode representar um risco e, no momento, a plataforma Global.health contabiliza pouco mais de 200 quadros oficiais da infecção, espalhados pelo mundo. No passado, a GAVI Alliance chegou a incluir este vírus entre os 10 com maior potencial para se tornarem uma pandemia. Só que existem diferenças significativas entre os dois agentes infecciosos.

Varíola dos macacos não deve se tornar a próxima pandemia e nem deve substituir a covid-19 (Imagem: Brian W.J. Mahy/CDC)

"O principal risco para as pessoas hoje em dia, com relação aos vírus, continua sendo a covid”, afirma Angela Rasmussen, virologista e professora da Universidade de Saskatchewan, no Canadá, para o jornal The New York Times. “A boa notícia é que muitas das mesmas medidas que reduzirão o risco da covid — como distanciamento social, uso de máscaras em espaços públicos, boa higiene das mãos e desinfecção de superfícies — também reduzirão o risco de contrair a varíola”, explica.

O conhecimento difere as duas doenças

“Depois de mais de dois anos vivendo uma pandemia, é compreensível que a notícia de um novo vírus se espalhando pelo mundo possa causar alarme, mas especialistas em saúde dizem que é improvável que a varíola crie um cenário semelhante ao do coronavírus, mesmo se mais casos forem encontrados", afirma Maria Van Kerkhove, diretora técnica da Organização Mundial da Saúde para a covid-19.

“À medida que a vigilância se expande, esperamos que mais casos sejam vistos. Mas precisamos colocar isso em contexto, porque não é a [nova] covid”, acrescenta. Para justificar o argumento existem diferentes pontos, mas o foco está no conhecimento sobre o agente infeccioso.

A principal diferença entre a covid-19 e a varíola dos macacos é que o primeiro foi um completo desconhecido. Em outras palavras, no começo da pandemia, ninguém sabia como ele era transmitido, não se entendia como a infecção evoluía no organismo, não existiam vacinas e, hoje, ainda busca se compreender as sequelas da infecção. Agora, a "nova" ameça já é conhecida pela ciência desde 1970 e já existem imunizantes para combatê-la.

Se os casos continuarem a subir, uma hipotética questão seria a necessidade de produzir as vacinas contra a varíola — sim, porque o mesmo imunizante da doença humana protege contra a varíola dos macacos — em larga escala e distribuir as doses entre os países. Desde a erradicação da varíola humana, as pessoas não são mais imunizadas contra a doença e, por isso, ela pode ser bastante transmissível.

Mutações genéticas no vírus da varíola dos macacos?

Outro ponto necessário é entender o que levou a este surto de casos da varíola dos macacos. Nesse sentido, pesquisadores ainda analisam o genoma do vírus da varíola dos macacos encontrados nos pacientes. É necessário entender se existem mutações de risco, como aquelas que favorecem a sua transmissão.

Cientistas acreditam que o vírus da varíola dos macacos não sofreu mutações significativas (Imagem: Mstandret/Envato Elements)

No momento, não há nenhuma evidência indicando que o vírus da varíola dos macacos tenha evoluído ou se tornado mais infeccioso, explica Luis Sigal, da Universidade Thomas Jefferson, nos Estados Unidos. O cientista também comenta que vírus de DNA, como a varíola, são mais estáveis ​​e evoluem de forma extremamente lenta em comparação com os vírus de RNA, como o coronavírus.

Inclusive, Sigal espera que as amostras genômicas mostrem que o vírus da varíola dos macacos do atual surto seja igual ao agente infeccioso já conhecido anteriormente. Caso o palpite se confirme, o vírus não mutou em questões que envolvem a sua infecciosidade ou a gravidade da infecção para o hospedeiro.

Muito provavelmente, a explicação para a nova onda de casos está relacionado com o aumento da urbanização e do desmatamento, o que coloca os seres humanos em maior contato com animais selvagens e os seus vírus. Hoje, “há mais oportunidades para patógenos relativamente raros entrarem em novas comunidades, encontrarem novos hospedeiros e viajarem para novos lugares”, lembra a especialista Rasmussen.

Vale lembrar que a varíola dos macacos já foi encontrada não só em primatas, mas também em roedores. Por exemplo, em 2003, um surto foi causado nos EUA, após a importação de animais selvagens da África para serem criados como animais domésticos.

Também não é o novo HIV

Pesquisadores também sugerem que a onda de surtos da varíola dos macacos não represente o novo HIV, o vírus causador da Aids. É verdade que, no momento, a maioria dos casos ocorreu em homens jovens e que estes se identificam como homens que fazem sexo com homens, mas não foi o único perfil infectado, segundo a OMS.

No momento, os especialistas ainda são cautelosos em sugerir que a transmissão da varíola dos macacos pode ocorrer através do sêmen, durante o sexo. É mais provável que a infecção ocorra, a partir do contato com as lesões da pele — o principal marcador da doença.

“Esta não é uma doença gay, como algumas pessoas nas mídias sociais tentaram rotulá-la”, pontua Andy Seale, consultor do Programa de HIV, Hepatite e DSTs da OMS. “Qualquer um pode contrair varíola dos macacos através de contato próximo”, completa.

Fonte: NYT  

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