Coronavírus | Como está o desenvolvimento da vacina contra a COVID-19?

Por Nathan Vieira | 02 de Abril de 2020 às 20h00
Miguel Á. Padriñán/Pixabay

Com a pandemia de Coronavírus (COVID-19) preocupando toda a população mundial, inúmeros cientistas e pesquisadores estão fazendo o possível para encontrar uma vacina, e rápido. Enquanto alguns países ainda estão em fase inicial de testes em animais e planejamentos, alguns já se preparam para fazer testes em seres humanos e até contam com uma previsão de quando haverá a vacina.

Dentre os países mais engajados nesse objetivo, Israel e Estados Unidos atingem estágios mais avançados, mas o ímpeto de deter o SARS-CoV-2 envolve grandes laboratórios no mundo todo.

EUA e Israel avançam

Pesquisadores da University of Pittsburgh School of Medicine (UPSOM), nos EUA, anunciaram o desenvolvimento de um novo e promissor candidato à vacina contra a COVID-19. Em vez de consistir numa agulha, o novo medicamento é administrado através de um adesivo tipo Band-Aid composto por 400 microagulhas minúsculas. Depois que o adesivo é aplicado, as microagulhas, que são feitas inteiramente de carboidratos e proteínas, se dissolvem, sem deixar vestígios.

Os primeiros testes em animais mostraram-se promissores até o momento, mas os testes em humanos ainda estão em fase de planejamento. Os pesquisadores já tinham uma grande vantagem das epidemias passadas. "Tínhamos experiência anterior em SARS-CoV em 2003 e em MERS-CoV em 2014", disse Andrea Gambotto, professora de cirurgia na UPSOM.

A vacina apelidada de "PittCoVacc" (Pittsburgh Coronavirus Vaccine) funciona da mesma maneira básica que uma vacina contra a gripe: injetando fragmentos de proteína viral fabricados em laboratório no corpo para ajudá-lo a criar uma imunidade. Quando testada em ratos, os pesquisadores descobriram que o número de anticorpos capazes de neutralizar o vírus mortal SARS-CoV-2 aumentou duas semanas.

Antes de iniciar testes em humanos, os pesquisadores estão atualmente solicitando a aprovação de medicamentos da Food and Drug Antecipation dos EUA. "Testes em pacientes normalmente requerem pelo menos um ano. Provavelmente mais. Essa situação em particular é diferente de tudo que já vimos, então não sabemos quanto tempo o processo de desenvolvimento clínico levará", explica Louis Falo, professor e presidente de dermatologia na University of Pittsburgh School of Medicine

Escola de Medicina de Pittsburgh testa novo medicamento administrado através de um adesivo (Foto: UPMC/Handou)

Por sua vez, uma equipe de pesquisadores israelenses diz que está a dias de concluir a produção do componente ativo de uma vacina contra o novo coronavírus que pode ser testada em seres humanos a partir de 1º de junho. "Estamos nos estágios finais e, dentro de alguns dias, manteremos as proteínas — o componente ativo da vacina", diz o Dr. Chen Katz, líder do grupo de biotecnologia da MIGAL [Galilee Research Institute], ao jornal The Jerusalem Post.

No final de fevereiro, o MIGAL comprometeu-se a concluir a produção de sua vacina em três semanas e a comercializá-la em 90 dias. Katz afirma que eles estavam um pouco atrasados ​​porque demorou mais do que o esperado para receber a construção genética que eles encomendaram da China devido ao fechamento das vias aéreas e à necessidade de ser redirecionado.

"Nosso conceito básico era desenvolver a tecnologia e não especificamente uma vacina para esse tipo de vírus. A estrutura científica da vacina é baseada em um novo vetor de expressão proteica, que forma uma proteína solúvel quimérica que entrega o antígeno viral nos tecidos da mucosa por endocitose auto-ativada, fazendo com que o corpo forme anticorpos contra o vírus", acrescenta Katz. Em ensaios pré-clínicos, a equipe demonstrou que a vacinação oral induz altos níveis de anticorpos específicos.

Para garantir que eles cheguem perto do prazo estabelecido, a MIGAL está trabalhando simultaneamente com os reguladores relevantes para garantir que o produto seja considerado seguro para testes em humanos. Por se tratar de uma vacina oral, a qualidade desse tipo de vacina deve estar mais próxima das regulamentações alimentares do que das farmacêuticas. O grupo também iniciou testes em ratos para superar os testes anteriores feitos em galinhas.

O mundo todo almeja criar a vacina

No entanto, muitos lugares ao redor do mundo também estão fazendo o possível para vencer essa batalha contra a COVID-19. A agência científica da Austrália anunciou que iniciou testes com furões para produzir uma vacina. Uma declaração divulgada pela Organização de Pesquisa Científica e Industrial da Commonwealth (CSIRO) — a agência científica do país — disse que os cientistas iniciaram o primeiro estágio dos testes de possíveis vacinas.

O comunicado afirma que o CSIRO estabeleceu seu modelo biológico em fevereiro passado, mas que seus pesquisadores estudam o coronavírus desde janeiro. Trevor Drew, que lidera o esforço, disse que o coronavírus pode causar várias doenças, incluindo o resfriado comum, infecções gastrointestinais e doenças como SARS e MERS (síndrome respiratória do Oriente Médio).

Enquanto isso, cientistas da Academia de Ciências Médicas Militares da China, afiliada ao Exército de Libertação do Povo da China, receberam aprovação para iniciar avaliações clínicas em estágio inicial da potencial vacina a partir desta semana.

Além das gigantes Sanofi e Novartis, um rol de fabricantes de medicamentos e pequenas empresas iniciantes avançou com planos de desenvolver vacinas ou tratamentos direcionados à infecção causada pelo novo coronavírus, como BioNTech SE, Dynavax Technologies, CytoDyn.

Mas quando a vacina vem, afinal?

Uma questão que ainda é muito delicada, no entanto, é a data estipulada para a chegada dessa vacina. O presidente dos EUA, Donald Trump, chegou a comentar em uma reunião televisionada na sala do gabinete com executivos do setor farmacêutico que uma vacina poderia estar pronta dentro de três a quatro meses. Na ocasião, o Dr. Anthony Fauci, chefe do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (NIAID), deu um banho de água fria na estimativa de Trump, dizendo que levaria mais um ano a um ano e meio.

Desde então, essa estimativa passou a ser de 12 a 18 meses. Entretanto, especialistas médicos e cientistas com experiência em primeira mão no desenvolvimento de vacinas são céticos. "Tony Fauci está dizendo de um ano a 18 meses. Acho otimista", aponta Peter Hotez, especialista em doenças infecciosas e desenvolvimento de vacinas no Baylor College of Medicine.

Como o número de mortes por coronavírus aumenta cada vez mais, a pressão sobre a comunidade científica para encontrar uma vacina é imensa. O problema é que, segundo especialistas, o cronograma muitas vezes declarado é ambicioso. "Acho que nunca foi feito em escala industrial em 18 meses", disse Amesh Adalja, pesquisador sênior focado em doenças infecciosas emergentes da Johns Hopkins Medicine. "O desenvolvimento da vacina é geralmente medido em anos, não meses".

A Dra. Emily Erbelding, especialista em doenças infecciosas do NIAID —que faz parte do National Institutes of Health — diz que a vacina típica leva entre oito e 10 anos para ser desenvolvida. Ela aponta que o ritmo acelerado envolverá não olhar para todos os dados. "Como estamos em uma corrida aqui para combater esta epidemia e uma vacina é muito importante, as pessoas podem estar dispostas a arriscar-se a entrar rapidamente na fase dois. Portanto, os 18 meses dependeriam da aceleração das coisas", diz a especialista à CNN.

Fonte: Futurism, The Jerusalem Post, CNN, Market Watch, Anadolu Agency

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