Como funcionam os laboratórios de biossegurança?

Por Fidel Forato | 21 de Maio de 2020 às 16h57

Assuntos como ciência, inovação e saúde têm dominado grande parte das "rodas" de conversas em 2020, e já é possível arriscar que o novo coronavírus (SARS-CoV-2) será um dos termos mais usados para se referir a este estranho ano. Afinal, a COVID-19 já contaminou mais de 4,8 milhões de pessoas em todo o mundo, somente entre os meses de janeiro e maio, segundo dados da Universidade Johns Hopkins.

Mesmo com tanta gente falando da pandemia e sobre remédios e vacinas, poucas pessoas se perguntam sobre os locais onde essas drogas são desenvolvidas. Pesquisadores especializados investigam esse vírus e outros patógenos, bem como as doenças que eles causam — como SARS, MERS, gripe suína, ebola — nos chamados laboratórios de biossegurança.

Laboratórios que estudam patógenos pouco conhecidos têm diferentes níveis de segurança para evitar contaminações (Foto: reprodução/ Meatable)

Para se trabalhar de forma rápida e confiável, esses laboratórios especiais desenvolvem métodos inovadores para diagnóstico de uma nova doença, busca por terapias e produção de vacinas, sempre com segurança redobrada e muito criteriosa. De acordo com o nível de biossegurança (BSL) apresentado pelo patógeno, os laboratórios recebem uma classificação específica. As mesmas instalações são usadas em investigações de ataques bioterroristas.

Nível de biossegurança

O nível de segurança designado para investigação de determinado agente infeccioso varia muito de acordo com o seu nível de letalidade. Por exemplo, os níveis mais baixos demandam, apenas, lavagem regular das mãos e equipamento de proteção mínimo, como máscaras e luvas descartáveis. Em paralelo, níveis mais altos exigem instalações específicas — às vezes, até uma localização mais isolada — e vigilância rigorosa.

Segundo o CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças) dos Estados Unidos, "avaliações de risco de biossegurança específicas, do local e da atividade, devem ser realizadas para determinar se precauções adicionais de biossegurança são garantidas, com base nas necessidades da situação, como elevados volumes de testes ou probabilidade de gerar gotículas e aerossóis infecciosos".

Nesse sentido, o nível de biossegurança 3 (BSL-3) é usado para trabalhos de pesquisa e diagnóstico de micróbios (vírus e bactérias) que podem ser transmitidos pelo ar ou causar doenças graves em humanos. É nesse nível que se concentram os coronavírus, como o SARS-CoV, o MERS-CoV e o novo SARS-CoV-2.

Por exemplo, um laboratório que investigue medicamentos para o controle do novo coronavírus deve possuir, inclusive, uma área específica para que o pesquisador possa colocar seus equipamentos de proteção e os retirar. Além disso, é fundamental que possua um sistema de circulação de ar apropriado, sem contar as medidas de segurança extra na entrada desses ambientes, como portas de fechamento automáticas.

"Esta orientação destina-se apenas aos laboratórios que executam procedimentos com concentração de vírus, como testes de vigilância de águas residuais/esgoto, não a laboratórios de saúde pública ou de diagnóstico clínico que lidam com amostras clínicas da COVID-19", esclarece o CDC.

Já o nível 4 (BSL-4) é o mais alto existente em precauções de segurança. Por isso, é apropriado para a pesquisa de agentes que podem ser facilmente transmitidos pelo ar e que são muitas vezes fatais para humanos. Neste nível, estão o vírus da ebola, da febre hemorrágica de Marburg ou ainda da febre de Lassa.

Por conta das rigorosas medidas de segurança, existem cerca de 50 laboratórios de nível 4 em todo o mundo, sendo dois deles localizados na China, como o Instituto de Virologia de Wuhan, administrado pela Academia Chinesa de Ciências. No entanto, a maior parte se concentra nos Estados Unidos (cerca de 12 laboratórios), seguidos pelo Reino Unido (com quase 10 registrados) e pela Alemanha (com quatro).

Segurança máxima

Os laboratórios da BSL-4 são quase como um mundo à parte dos problemas da Terra. Isso porque são unidades herméticas e independentes, com fontes de ar, energia e água autônomas. Além disso, são especialmente protegidas contra falhas técnicas e, de preferência, distantes de locais de fácil acesso.

Esses sistemas de segurança multinível são importantes para se evitar que, em hipótese alguma, patógenos contaminem o meio ambiente. Para evitar eventuais falhas, a pressão do ar no laboratório é negativa e o ar (que entra e sai) é filtrado para garantir que os resíduos sejam completamente inativados — ou seja, que volte a ser puro. Até mesmo as superfícies dessas instalações devem oferecer resistência contra ácidos, alcaloides e solventes, além de desinfetantes.

Agora, para trabalhar nesses espaços, pesquisadores devem usar roupas de proteção infláveis de corpo inteiro, com seu próprio suprimento de ar. Para proteger as mãos, dois a três pares de luvas devem ser usados sobrepostos, com o par externo firmemente preso aos punhos do traje. Essa vestimenta completa pode pesar cerca de 10 quilos.

Em laboratórios com elevados níveis de biossegurança, pesquisadores podem ficar no máximo três horas (Foto: Reprodução/Governo de São Paulo)

No manuseio, as amostras contaminadas de sangue, tecido ou muco são processadas em bancadas de segurança, que são gabinetes com uma janela hermética toda feita de vidro, parecida com um aquário. Assim, os técnicos de laboratório devem colocar as mãos nas luvas fixas do "aquário" para alcançar as substâncias. Já ao final da sessão de trabalho, os materiais utilizados são trancados a chave, como em um cofre.

Este é um gabinete de biossegurança Classe III (Imagem: Divulgação/Bio-Equip)

Todos os objetos utilizados também devem ser descontaminados num sistema de limpeza de autoclave, com altas temperatura e pressão. Dessa forma, os resíduos são "inativados", isto é, o vírus ou agente infeccioso que podem estar contidos em sua superfície são exterminados.

Antes de sair do laboratório, os funcionários devem se lavar, ainda em seus trajes de proteção, com ácido peracético altamente diluído ou com agentes antimicrobianos — tudo isso para se desinfetar. Somente depois, eles tiram essa roupa e, então, podem tomar banho.

Por conta de todo o estresse físico e psicológico envolvido, o tempo de trabalho diário para cada cientista é de cerca de três horas. Tudo isso para se buscar a próxima vacina contra a última doença incurável a afetar a humanidade.

Fonte: CDC, Bio-Equip e ClimaTempo

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