Coalizão COVID-19 Brasil conclui estudo com hidroxicloroquina em casos moderados

Por Fidel Forato | 23 de Julho de 2020 às 17h40
Pixabay

Na busca por tratamentos para o novo coronavírus (SARS-CoV-2), a Coalizão COVID-19 Brasil, que conta com a participação de inúmeras instituições médicas brasileiras e conduz nove estudos sobre terapias para o uso de pacientes da COVID-19, anuncia os seus primeiros resultados. Na etapa concluída do estudo, foi apontado que o uso de hidroxicloroquina "não promoveu melhoria na evolução clínica dos pacientes" com quadros leves ou moderados, quando hospitalizados.

A iniciativa brasileira é formada por uma rede de hospitais e clínicas que testaram esse ou outros potenciais tratamentos, em estudos clínicos, para pacientes da COVID-10. Entre as instituições envolvidas estão: Hospital Israelita Albert Einstein; HCor; Hospital Sírio-Libanês; Hospital Moinhos de Vento; Hospital Alemão Oswaldo Cruz; BP - A Beneficência Portuguesa de São Paulo; Brazilian Clinical Research Institute (BCRI); Rede Brasileira de Pesquisa em Terapia Intensiva (BRICNet).

Coalizão COVID-19 Brasil não encontra benefícios do uso de hidroxicloroquina para casos leves e moderados do coronavírus (Imagem: Christina Victoria/Unsplash)

Hidroxicloroquina e azitromicina

Das nove, a primeira pesquisa chama de Coalizão I avaliou se a hidroxicloroquina - associada ou não ao antibiótico azitromicina - poderia trazer benefícios a pacientes adultos hospitalizados com formas leves a moderadas de COVID-19. Desde o dia 29 de março até 2 de junho, 667 pacientes foram incluídos na pesquisa com quadros leves ou moderados em 55 hospitais brasileiros.

Quanto a situação dos pacientes, eles não precisavam de oxigênio ou precisavam de, no máximo, 4 litros por minuto de oxigênio suplementar para auxiliar no tratamento da infecção. Através da randomização (ou seja, de forma aleatória), os pacientes selecionados receberam um dos três seguintes tratamentos:

  • 217 pacientes foram tratados com combinação de hidroxicloroquina, azitromicina e suporte clínico padrão;
  • 221 pacientes foram tratados com hidroxicloroquina e suporte clínico padrão;
  • 227 pacientes, considerados do grupo de controle, foram tratados apenas suporte clínico padrão.

No estudo nacional, a hidroxicloroquina foi usada durante 7 dias na dose de 400 mg a cada 12 horas e a azitromicina 500mg a cada 24h por 7 dias. Sobre o suporte clínico padrão, os medicamentos poderiam variar conforme o quadro dos pacientes se alteravam, no entanto, não foram prescritos hidroxicloroquina ou azitromicina.

Na Coalizão I, os pacientes incluídos no estudo tinham idade em torno de 50 anos e pouco mais da metade deles era do sexo masculino. Entre eles, 40% dos pacientes eram hipertensos, 21% eram diabéticos e 17% eram obesos (quadros que configuram também grupos de risco para o novo coronavírus).

Além disso, só puderam participar pacientes recém-admitidos ao hospital, ou seja, que começaram o tratamento em até 48h após a internação. Outro fator determinante para a pesquisa era que tivessem sintomas iniciados em, no máximo, sete dias antes

Quais foram os resultados?

Após a análise, a situação clínica aos 15 dias de tratamento foi similar nos grupos tratados com hidroxicloroquina e azitromicina, hidroxicloroquina isolada ou no grupo controle. Isso significa que, por exemplo, após 15 dias, caso o quadro do paciente não tivesse evoluído, todos estavam em casa, sem limitações respiratórias. Confira o estado clínico detalhado dos pacientes que se recuperaram nesse intervalo de tempo:

  • 69% dos pacientes do grupo que recebeu a hidroxicloroquina, a azitromicina e o suporte clínico padrão;
  • 64% dos pacientes do grupo que recebeu a hidroxicloroquina e o suporte clínico padrão;
  • 68% dos pacientes do grupo que recebeu o suporte clínico padrão.

Segundo a interpretação divulgada pelos autores do estudo, "a utilização de HCQ ou Azitromicina não promoveu melhoria na evolução clínica dos pacientes". Por outro lado, a pesquisa encontrou dois efeitos adversos importantes. Primeiro, foram observadas alterações em exames de eletrocardiograma nos grupos que utilizaram hidroxicloroquina, com ou sem azitromicina, comparada ao grupo que recebeu apenas suporte padrão.

Pesquisa brasileira investigou tratamento de casos leves da COVID-19 em pacientes hospitalizados com hidroxicloroquina (Imagem: Tumisu/Pixabay )

Em segundo lugar, as equipes identificaram alteração de exames que podem representar lesão hepática e essa mudança também foi mais frequente nos grupos que utilizaram hidroxicloroquina, com ou sem azitromicina, comparada ao outro grupo. Entretanto, não houve diferenças para outros eventos adversos, como arritmias, problemas hepáticos graves ou outros. Além disso, o número de óbitos, em 15 dias, foi semelhante entre todos os grupos, em torno de 3%.

É importante destacar que as conclusões obtidas só valem para os casos examinados, ou seja, pacientes ambulatoriais com formas mais leves e iniciais de COVID-19 ainda precisam ser estudados, conforme a Coalização está fazendo.

Em breve, os resultados do estudo serão publicados no periódico científico New England Journal of Medicine. Essa pesquisa também contou com apoio da farmacêutica EMS, que forneceu os medicamentos, e foi aprovado pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) e Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Mais pesquisas

Além dessa pesquisa, outros seis estudos clínicos para o tratamento de pacientes diagnosticados com o novo coronavírus estão sendo desenvolvidos pela Coalização COVID-19 Brasil. A seguir, confira sobre quais terapias mais análises devem ser publicadas em breve:

  • Coalizão III: avalia a efetividade do anti-inflamatório dexametasona para casos da COVID-19 com síndrome respiratória aguda grave;
  • Coalizão IV: investiga se a anticoagulação plena com rivaroxabana traz benefícios para pacientes com COVID-19 e com risco aumentado para eventos tromboembólicos;
  • Coalizão V: estuda se a hidroxicloroquina previne o agravamento da COVID-19 em pacientes que não precisam de internação hospitalar;
  • Coalizão VII: busca entender o impacto a longo prazo, após alta hospitalar, incluindo qualidade de vida, de pacientes que tiveram a COVID-19 e foram participantes dos demais estudos da Coalizão;
  • Coalizão VIII: deve avaliar se anticoagulação com rivaroxabana previne agravamento da doença com necessidade de hospitalização em pacientes não-hospitalizados com formas leves da COVID-19;
  • Coalizão IX: irá investigar se drogas antivirais isoladas e/ou em combinação entre si são efetivas para tratar casos da COVID-19 hospitalizados com doença moderada. Os antivirais a serem testados são atazanavir, daclatasvir e daclatasvir associados a sofosbuvir.

O grupo também conclui outros dois estudos, o Coalizão II e VI, mas que ainda não tiveram seus resultados divulgados. O II avaliou casos graves da COVID-19 a partir de testes com o uso de hidroxicloroquina e azitromicina. Já o Coalizão VI investigou se o tocilizumab, um inibidor da interleucina 6, pode melhorar a evolução clínica de pacientes hospitalizados com COVID-19.

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