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Água tratada com flúor faz bem ou mal para a saúde?

Por| Editado por Luciana Zaramela | 04 de Novembro de 2023 às 17h00

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Durante o processo de tratamento da água, é comum adicionar flúor na maioria das países, já que a água fluoretada faz bem para a saúde bucal e ajuda a prevenir cáries. No entanto, como diz um ditado bastante popular, a diferença entre o medicamento e o veneno está na dose. Isso porque, quando o nível de fluoreto é alto demais, inúmeros problemas são relatados, inclusive o comprometimento cognitivo em crianças.

Nesse contexto, é possível afirmar que água tratada com flúor em concentrações bem determinadas faz bem para a saúde bucal, mas, em excesso, pode fazer mal ao organismo. Por isso, a vigilância é tão importante na hora do tratamento da água potável, ou seja, aquela que pode ser usada para o consumo humano e sai da torneira de parcela significativa de lares brasileiros.

O que é flúor?

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Antes de entender melhor as evidências científicas, é importante explicar que o flúor é mineral que está presente na água, no ar e no solo. Inclusive, pesquisas espaciais já o identificaram em outras galáxias. Normalmente, ele não é encontrado sozinho (puro) na Terra, mas, sim, em compostos conhecidos como fluoretos — como o fluoreto de sódio (NaF), o fluoreto de cálcio (CaF2) e o ácido fluorsilícico (H2SiF6).

Dependendo do meio em que está, o flúor é observado em diferentes concentrações. Na água do mar, a concentração média varia entre 0,8 e 1,4 partes por milhão (ppm). Na água tratada, a legislação brasileira estabelece que o limite máximo é de 1,5 ppm. Em produtos odontológicos, como enxaguantes, as concentrações podem variar bastante, mas sempre seguem padrão de segurança pré-estabelecido pelas entidades reguladoras.

O uso do flúor na água faz bem?

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No Brasil, o consenso científico é de que o uso do flúor na água é uma medida segura para promover a saúde pública. Tanto é que, desde 1974, a fluoretação das águas nas estações de tratamento se tornou obrigatória no país. Esta medida foi estabelecida pela lei federal nº 6.050, de 24 de maio de 1974.

O embasamento para a legislação veio de experimentos, inicialmente, feitos nos Estados Unidos e, em seguida, confirmados no Brasil. Entre uma das análises sobre o impacto positivo do flúor após a implementação do programa no país, está um estudo publicado na Revista Pan-Amazônica de Saúde, liderado por pesquisadores da Universidade Federal do Pará (UFPA).

“A iniciativa de fluoretar as águas de abastecimento é uma medida promotora de saúde bucal, principalmente no Brasil que possui uma intensa desigualdade social”, afirmam os autores, após analisarem os dados de Belém, a capital do Pará.

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Como o fluor impede o desenvolvimento da cárie

O flúor na água de beber, quando respeitada a concentração indicada pelas autoridades de saúde, ajuda a prevenir a doença cárie, provocada pelas bactérias Streptococcus mutans e Lactobacillus sp (além delas, fungos como Actinomyces sp também estão associados à cárie). Tais bactérias eliminam um ácido que desgasta o esmalte dentário e inicia o processo de cavitação, ou seja, desmineraliza a estrutura e forma os conhecidos pontos brancos e pretos, além de cavidades que podem evoluir para problemas bucais ainda maiores, resultando em doenças da polpa dentária, onde estão localizados vasos sanguíneos e nervos.

O flúor é um agente capaz de intervir nesse processo de cavitação, remineralizando a estrutura e evitando a progressão da doença. Além disso, é um importante aliado na prevenção da sensibilidade dental, já que o composto consegue selar pequenos canais (canalículos dentinários) expostos após o desgaste do esmalte do dente, evitando que o paciente sinta dor quando em contato com açúcar ou alimentos gelados na região exposta.

Cabe ainda dizer que, segundo os pesquisadores da UFPA, “essa estratégia [de fluoretação da água potável] constitui, muitas vezes, o principal mecanismo de se obter flúor por grande parte da população que não tem acesso a outros meios preventivos”. No oposto, quando esse procedimento não é feito de forma adequada, os casos de cáries tendem a crescer significativamente, como já foi observado na própria região analisada.

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Excesso de flúor faz mal

Agora, se a água apresenta níveis excessivamente altos de flúor, há risco de problemas, o que inclui saúde bucal e sistêmica. É o caso da fluorose dentária, caracterizada por alterações no esmalte dentário — este tende a ficar mais poroso e se desgasta mais facilmente. Em casos mais graves, a pessoa pode desenvolver a fluorose esquelética, quando o excesso de flúor se torna tóxico para os ossos.

Em paralelo, a ingestão excessiva de flúor já foi associada a tendência de coeficientes de inteligência (QIs) mais baixos em comunidades rurais na China e na Índia. Mais recentemente, pesquisadores da Universidade Tulane, nos EUA, mediram o impacto do excesso desse mineral na capacidade cognitiva de crianças na Etiópia.

Impacto do flúor na capacidade intelectual

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Publicado na revista Neurotoxicology and Teratology, o estudo norte-americano investigou o impacto do consumo de água com excesso de flúor em crianças que vivem em zonas rurais da Etiópia, onde as comunidades costumam beber o líquido armazenado em poços, sendo que estes contêm níveis de fluoreto que variam de 0,4 a 15,5 ppm — em alguns casos, o nível de flúor é 10 vezes maior que o recomendado no Brasil.

Neste cenário, os cientistas recrutaram 74 crianças em idade escolar e realizaram alguns testes para medir a capacidade cognitiva. Entre eles, estavam jogos de memória, além de atividades em que os pequenos precisavam desenhar objetos solicitados. Segundo os autores, a maior exposição ao flúor na água potável estava associada a mais erros nos testes de desenho e de memória.

Apesar da descoberta da relação, a associação causal ainda não está demonstrada. “Embora sejam necessários mais estudos epidemiológicos para validar as descobertas, estes resultados aumentam a preocupação sobre os potenciais efeitos neurotóxicos do flúor, especialmente durante o desenvolvimento inicial do cérebro e na infância”, afirma Tewodros Godebo, professor da universidade e um dos autores do estudo, em nota.

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Fonte: Neurotoxicology and Teratology, Universidade Tulane e Revista Pan-Amazônica de Saúde