Afinal, por que as crianças têm melhor proteção contra COVID do que os adultos?

Afinal, por que as crianças têm melhor proteção contra COVID do que os adultos?

Por Fidel Forato | Editado por Luciana Zaramela | 02 de Setembro de 2021 às 16h20
Panxunbin/Envato Elements

Desde o início da pandemia da COVID-19, crianças e adolescentes foram os menos afetados pelas complicações causadas pelo coronavírus SARS-CoV-2. Agora, os Estados Unidos enfrentam um aumento de casos pediátricos, mas os números não são tão altos quanto os registrados no pico da pandemia por adultos. Para explicar isso, é preciso entender que os menores de 18 anos têm um sistema imunológico que age de maneira diferenciada.

O sistema imunológico "radical" é a chave para proteger as crianças do coronavírus e, normalmente, impede que a COVID-19 avance para um caso grave. Isso porque as suas defesas, presentes nas mucosas das vias respiratórias, são mais ativas da que a dos adultos. Dessa forma, as proteções são ativadas em uma velocidade muito mais rápida para agentes infecciosos desconhecidos. Ao menos é o que sugere um novo estudo do Instituto de Saúde de Berlim (BiH), publicado na revista científica Nature.

Crianças têm mais defesas nas mucosas das vias respiratórias do que adultos (Imagem: Reprodução/Seventyfourimages/Envato Elements)

Para especialistas que não participaram do estudo, como Peter Palese, do Hospital Mount Sinai, as crianças, geralmente, se saem melhores do que os adultos em eventos pandêmicos. De acordo com Palese, essas defesas, provavelmente, foram observadas com a Gripe Espanhola, em 1918.

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Estudo sobre as defesas das crianças contra a COVID

No estudo alemão, os pesquisadores examinaram as diferenças nos tipos de células das membranas mucosas de crianças, adolescentes, adultos e idosos. Além de terem mais células imunológicas nessa região, as crianças também produzem interferons tipo I — proteínas do sistema imune que induzem tanto a célula infectada quanto as células próximas a produzirem outras proteínas que impedem a replicação viral — mais rapidamente. Em tese, essa combinação impediria a desregulação do sistema, o que é comum em casos graves da COVID-19.

“A defesa contra os vírus funciona em dois níveis [nas crianças]. Primeiro, você obtém a resposta antiviral dentro das células por meio de receptores que, por exemplo, induzem a produção de interferon”, comenta Irina Lehmann, da BiH, para a Scientific American. “O segundo nível [são] as células imunológicas no tecido, como células assassinas ativadas [Natural Killer - NK] e neutrófilos [tipo de leucócitos]”, complementa a pesquisadora. 

Crianças têm o sistema imune mais preparado para lidar com novos invasores (Imagem: Reprodução/Prostock-studio/Envato Elements)

De acordo com o estudo, esses dois níveis de controle viral estão em alerta máximo em crianças. Para chegar a essa conclusão, foram analisadas quase 270 mil amostras de swabs retiradas da mucosa nasal de pessoas com idades entre quatro semanas até 77 anos. Cerca de metade deles estava infectada com o SARS-CoV-2.

Além disso, as amostras coletadas demonstraram que as crianças produzem maiores quantidades de receptores imunológicos. Estes pode reconhecer um agente infeccioso e desencadeiam uma resposta imunológica contra o invasor. 

Por que o sistema imunológico adulto não é tão eficaz?

Segundo os resultados do estudo, o sistema imunológico das crianças pode combater os vírus de forma eficaz quando os encontra pela primeira vez. Por outro lado, os adultos têm uma desvantagem significativa em casos de pandemia. Isso porque eles precisam contar com a resposta imune adaptativa, ou seja, uma proteção mais específica, que é fornecida por anticorpos e células T para patógenos individuais. Além disso, ela só se desenvolve algum tempo após o contato com o agente infeccioso. 

Agora, é natural se perguntar porque esse mecanismo de defesa das crianças é desativado em adultos. De acordo com o pesquisador Marco Binder, do Centro de Pesquisa do Câncer da Alemanha, isso acontece porque o corpo não pode suportar esse sistema em longo prazo. “De todos os sistemas de sinalização [contra invasores], a resposta do interferon causa a maior mudança na atividade genética da célula”, explica Binder. 

Caso esse mecanismo fosse mantido permanentemente, ele teria efeitos diretos na atividade celular e no organismo. Por exemplo, "é conhecido que pessoas com hiperativação congênita desse sistema de interferon, geralmente, sofrem de doenças inflamatórias muito graves”, completa. Então, essa é, infelizmente, uma vantagem natural das crianças. 

Para acessar o estudo completo sobre o sistema imunológico das crianças e a sua atuação contra a COVID-19, clique aqui

Fonte: Scientific American  

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