Por que perder o posto de 2ª maior para a Xiaomi não preocupa (muito) a Apple

Por Rui Maciel | 21 de Julho de 2021 às 08h45
Captura da imagem: Rui Maciel

E lá vamos nós de novo...na última sexta-feira (16), a consultoria de mercado Canalys anunciou que a Xiaomi ultrapassou a Apple no cenário global, tornando-se a segunda maior fabricante de smartphones do mundo. Em outubro do ano passado, a empresa chinesa já havia tirado a Maçã da terceira colocação, quando a Huawei ainda estava na vice-liderança.

Agora, com a Huawei fora do pódio — muito por causa das restrições dos EUA — a Xiaomi se consolida como a segunda maior globalmente, atrás apenas da Samsung. Vale lembrar que os números apresentados pela Canalys são referentes ao segundo trimestre deste ano e as posições podem mudar nos próximos meses.

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De qualquer forma, os dados da consultoria indicam que a Xiaomi cresceu consideravelmente nos últimos três meses, mais precisamente 83%, contra apenas 1% da Apple. Com isso, a participação de mercado da fabricante chinesa saltou para 17%, contra 14% da rival ocidental. A Samsung continua na liderança com 19%, enquanto OPPO e Vivo, ambas com 10%, completam o Top 5.

Xiaomi é a segunda maior fabricante de smartphones do mundo, ultrapassando a Apple  (Imagem: Canalys)

De acordo com Ben Stanton, gerente de pesquisa da Canalys, as remessas de smartphones da Xiaomi aumentaram mais de 300% na América Latina, 150% na África e 50% na Europa Ocidental. Além disso, os modelos da marca ainda estão bastante voltados para o mercado de massa. Em comparação com a Samsung e a Apple, seu preço médio de venda é cerca de 40% e 75% mais barato, respectivamente.

Tal notícia fez com que os fanáticos fãs da Xiaomi ganhassem o dia. Afinal, junto com a Samsung, os "Xiaominions" fomentam uma rivalidade pesada contra a Apple e seus — igualmente fervorosos — "fanboys". No entanto, tirando esse "Fla x Flu" bizarro entre os usuários das marcas, é importante olhar os números de forma mais fria. E nesse quesito, que é o que realmente importa para executivos e acionistas, a Apple não tem muito com o que se preocupar em relação ao crescimento da Xiaomi. Pelo menos por enquanto.

E nas próximas linhas nós explicamos o porquê.

Domínio absoluto na margem de lucro

Ainda que o crescimento de apenas 1% da Apple no último trimestre indique estagnação, a empresa continua nadando de braçada quando falamos em um dos dados mais importantes em um balanço financeiro: a margem de lucro. E nesse quesito, a dona do iPhone lidera o mercado de smartphones há muitos anos.

Para você ter uma ideia do domínio da empresa, uma pesquisa da consultoria Strategy Analytics, divulgada em novembro do ano passado, apontou que a Apple ficou com mais de 60,5% da margem de lucro gerada pelos smartphones em todo mundo. Sim, é isso mesmo: a linha de celulares da companhia abocanha mais metade de todo o lucro do setor. E a coisa já foi pior: em 2018, ela abocanhou 77,9% dos lucros mundiais e 75% em 2019. A Samsung vem em um distante segundo lugar, com 32,6% dos lucros — ainda que ela tenha registrado o maior crescimento nesse quesito em seis anos.

Os iPhones garantem a Apple mais da metade dos lucros do mercado de smartphones no mundo (Imagem: Counterpoint Research)


Resumindo: Apple e Samsung têm 93,1% do lucro mundial do dinheiro gerado pelo mercado de smartphones. As demais fabricantes precisam brigar para dividir os 6,9% restantes.

Estratégia simples e eficiente — e um desafio para a Xiaomi

O domínio da Apple nesse setor vem de uma receita muito simples: ela aplica uma estratégia de produtos premium para todos os seus iPhones, com poucos modelos lançados por ano e todos custando mais que os seus rivais por nicho, mesmo aparelhos lançados dois, três anos atrás.

Mesmo o iPhone mais básico, por exemplo, custa muito mais do que um celular da categoria intermediário premium de outras marcas — e isso inclui até mesmo iPhones de anos anteriores. Com isso, a empresa garante uma margem de lucro generosa por unidade vendida. Sem contar que ela conta com mercados bastante fieis na América do Norte (EUA e Canadá), Europa, Japão e até uma parte da China. Ou seja, seus usuários dificilmente migram para o Android e não hesitam em comprar os modelos mais recentes.

E ao olhar o gráfico abaixo dá para entender melhor o cenário. O levantamento feito pela Counterpoint Research mostra que os iPhones dominaram a lista de modelos mais vendidos no primeiro trimestre de 2021, tanto em volume, quanto em valor — no período, as receitas ultrapassaram a marca de US$ 100 bilhões. Com isso, a Apple deve continuar dominando a margem de lucro mundial do setor, mesmo com o crescimento acelerado da Xiaomi no segundo tri deste ano.

Os iPhones continuaram a dominar as vendas no começo do ano (Gráfico: Counterpoint Research)


Por isso, mesmo com o crescimento acelerado em 2021, a Xiaomi tem um desafio dos mais urgentes: ela precisa aumentar as vendas de seus dispositivos topo de linha, como o Mi 11 Ultra. Isso porque é nessa categoria que residem as maiores margens de lucro para as fabricantes, enquanto modelos intermediários e de entrada têm uma margem bastante apertada tanto para quem produz, quanto para quem revende (no caso, as varejistas). Menos mal é que, no primeiro trimestre deste ano, a fabricante anunciou que comercializou quatro milhões de dispositivos considerados premium mundo afora.

Mas, de qualquer forma, vale a máxima: não adianta vender milhões de smartphones 3B (Bons, Bonitos e Baratos), se eles pouco impactam aquela coluna da planilha que mostra quanto dinheiro entrou, de fato, no caixa da empresa - e que resulta em dividendos para os seus acionistas.

Apps e serviços online são a nova fonte de lucro da — já hiperlucrativa — Apple

Por fim, além da margem de lucro obscena com os seus smartphones, a Apple vem conseguindo cumprir com sucesso uma missão espinhosa: diminuir a sua dependência de um único produto, no caso, o iPhone, que já chegou a ser responsável por 62% das receitas da empresa.

Para isso, a empresa vem apostando forte na sua chamada área de serviços — o ecossistema que engloba o iCloud (armazenamento na nuvem), Apple TV+ (filmes e séries), Apple Music (músicas), Apple Arcade (games), além da venda de apps e softwares dentro da Apple. E a estratégia vem dando certo, já que o setor vem apresentando números cada vez melhores.

No último trimestre deste ano, a Maçã reportou que o segmento de serviços teve receita de US$ 16,9 bilhões, mais de US$ 1 bilhão acima do previsto pelo mercado — que esperava US$ 15,65 bilhões. Esse valor equivale a 18,8% do faturamento total da companhia no período.

Para completar, a categoria vem crescendo gradualmente e de forma sólida. No terceiro trimestre de 2020, a receita da área de serviços foi de US$ 14,5 bilhões; já no quarto trimestre o faturamento aumentou 8,27%, pulando para US$ 15,7 bilhões. E nos primeiros três meses deste ano, o crescimento foi de 7,64%. Ou seja, entre as Big Techs, a Apple, aos poucos, vem conseguindo diversificar as suas receitas, até esperando uma diminuição nas vendas de iPhones nos próximos anos. A empresa ainda não conseguiu atingir um equilíbrio, como a Microsoft, mas também não está mais como o Google, que é excessivamente dependente do setor de publicidade online.

Mas a Xiaomi também tem seus caminhos

A Xiaomi, por sua vez, não pode contar tanto com o setor de serviços, que é de domínio do Google e sua Play Store. Mas a empresa consegue ser mais diversificada em outras linhas de produtos. Ela é, por exemplo, a marca de smart TVs mais vendida na China por nove trimestres seguidos, além de ser a quinta maior vendedora do mundo.

A fabricante tem também uma forte linha de dispositivos inteligentes, com mais de 350 milhões itens do gênero comercializados e conectados a sua plataforma de AIoT. Isso sem contar outros produtos como bicicletas elétricas, notebooks, purificadores de ar, Mi Box, scooters elétricas e outros itens que tem sua popularidade em território chinês e outras partes do mundo.

Loja da Xiaomi em São Paulo: vasta linha de produtos (Imagem: divulgação)

Em resumo, a Xiaomi tem pela frente o mesmo desafio que muitas startups, fintechs e empresas de varejo, que apostaram no crescimento acelerado, estão enfrentando: elas já garantiam uma base maciça de usuários. Agora é descobrir como lucrar em cima desses consumidores conquistados e continuar crescendo em um mercado cada vez mais disputado.

A Apple já aprendeu como se faz. A Xiaomi conseguirá?

Fontes: Canalys, Counterpoint Researcch (1), (2), Pulse, Xiaomi

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