15 anos do Orkut, a rede social que ensinou a uma geração o que é a internet

15 anos do Orkut, a rede social que ensinou a uma geração o que é a internet

Por Rafael Rodrigues da Silva | 24 de Janeiro de 2019 às 22h00

Há exatamente 15 anos, em 24 de janeiro de 2004, era lançado o Orkut, a primeira rede social que mostrou que brasileiros são muito bons em subverter os objetivos de redes sociais.

Criada dentro da Google para ser uma rede corporativa e competir com o LinkedIn, o Orkut não era exatamente um projeto bancado pela gigante da internet, mas sim um projeto paralelo feito dentro da empresa pelo engenheiro turco Orkut Büyükkökten. Mas, ainda que o objetivo inicial tenha sido a criação de uma rede social profissional e corporativa para ajudar as pessoas a achar empregos e aumentar o networking, desde o início os usuários já se sentiam muito mais dispostos a conversar sobre assuntos pessoais do que apenas criar conexões profissionais.

Comunidade "Anão vestido de palhaço mata 8" foi umas das pioneiras do humor nonsense na internet (Captura: Surrealista)

Desde o início até o seu fim, o Orkut sempre foi uma rede social meio diferente. Ao contrário de todas as existentes hoje, no Orkut nunca existiu o conceito de “linha do tempo”, aquele lugar em que você pode ficar navegando infinitamente para saber sobre as novidades de todos os seus amigos. Aqui, a coisa funcionava mais parecida com fóruns como 4Chan ou Reddit: as pessoas participavam de comunidades (algo parecido com os subreddits ou com grupos do Facebook) de diversos assuntos, desde coisas simples como “Eu gosto de morango” até comunidade mais específicas, como “Amigos da Rafaela do 2º ano B”. As comunidades serviam para reunir diversas pessoas com gostos em comum, e enquanto algumas eram grandes salas de chat, ideais para conhecer gente, outras eram usadas como repositórios de download, onde era possível achar links para traduções de jogos, versões crackeadas de softwares, ROMs raras e discografias completas em MP3, ajudando a popularizar o uso do Pirate Bay e de arquivos torrents no país.

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Mas além de um lugar onde era possível conhecer novas pessoas, ter uma conta no Orkut também foi, durante muito tempo, questão de status: durante anos, a plataforma só aceitava novos usuários caso eles fossem convidados por alguém que já fazia parte do Orkut, o que tornava ele uma espécie de “clube privativo” que concedia um certo status e diferenciava seu usuário daqueles que não tinham uma conta na rede social.

E, como se tornou uma questão de status, o Orkut fez muito sucesso aqui no Brasil, mas muito mesmo. Nenhuma outra rede social teve tantos usuários brasileiros cadastrados, e em 2008 50% de todos os usuários cadastrados na rede eram brasileiros. Isso fez com que, a partir de 7 de agosto do mesmo ano, a Google anunciasse que a Google Brasil ficaria responsável por gerenciar toda a rede, e era a filial daqui que teria a palavra final em qualquer mudança ou melhoria na rede social.

Por vezes, as comunidades eram usadas apenas como formas de mostrar para o mundo as coisas que você gosta ou odeia, sem criar discussões e polêmicas sobre o tema (Captura: Veja)

Por aqui, o Orkut atingiu um sucesso que nenhuma outra rede — nem Facebook, nem Twitter, nem Snapchat — conseguiu atingir. As pessoas faziam de tudo por lá: combinavam saídas, acertavam trabalhos, jogavam, paqueravam...no Brasil, o Orkut funcionava como uma mistura do Tinder, Facebook e WhatsApp anos antes de a maioria desses apps sequer existir, e foi principalmente o sucesso entre os usuários que fez com que o Facebook copiasse várias ideias do Orkut, como os jogos embutidos na plataforma para desafiar seus amigos, a criação de grupos com temas diversos e a ideia de que outras pessoas podem deixar mensagens na sua linha do tempo pessoal.

O sucesso por aqui foi tanto que, em 5 de abril de 2005 — ou seja, pouco mais de um ano depois de seu lançamento — o Orkut já ganhava uma versão em português, sendo a primeira língua para qual a plataforma foi traduzida, e apenas meses depois que a rede social também ganhou versões em francês, italiano, alemão, castelhano, japonês, russo e chinês.

Mas o sucesso começou a decair quando, em 2009, a Google Brasil anunciou um “relançamento” da plataforma: chamado de Novo Orkut, a ideia era trazer para a rede social elementos que faziam sucesso no Facebook, como o feed de notícias. E, ainda que mantivesse um número grande de usuários, a plataforma não sustentaria mais o mesmo crescimento de outros anos.

As comunidades também tratavam dos grandes dilemas da vida moderna, como abrir o pote de sorvete no freezer e descobrir que estava cheio de feijão (Captura: Metrópoles)

Com o auge nos anos em que o acesso à internet banda larga se popularizava no Brasil, o Orkut foi a primeira experiência de muitos sobre como as redes sociais podiam mudar a dinâmica de relacionamentos. Muito namoros começaram através de grupos da plataforma; pessoas descobriam que era possível usar a rede social para encontrar não apenas aquele crush que você viu uma vez no ponto de ônibus, mas também amigos e parentes distantes que se afastaram por conta da vida. Foi no Orkut que os primeiros memes foram criados, e antes da popularização da Carreta Furacão as imagens dos dançarinos de trenzinho já faziam sucesso em comunidades como “Anão Vestido de Palhaço Mata 8”. As pessoas estavam descobrindo o poder da internet, e o Orkut era uma espécie de “amostra de testes” de todos os modos como a rede poderia facilitar as comunicações e mudar a vida de todos.

Mas, em 30 de setembro de 2014, a experiência do Orkut chegou ao fim. E, pouco mais de dez anos depois de criada, a rede social que, seis anos atrás, parecia ter um grande futuro pela frente, já havia caído no ostracismo e deixada de lado por seus usuários, que migraram para outras redes como Twitter, o Facebook e o Instagram. Mas, para todos aqueles que são velhos o suficiente para terem usado o Orkut, a rede é sempre lembrada com uma nostalgia boa, de um tempo mais simples em uma internet que “era tudo mato”. E, olhando para trás, é possível ver que o Orkut foi a “bicicleta de rodinhas” que nos preparou para um mundo onde ficamos 24h conectados e estamos ligados a tudo e a todos.

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