Homem-Aranha vs Predador: saiba por que esse crossover será divisor de águas
Por Claudio Yuge | •

Teve uma época que as palavras “retcon” e “reboot” exalavam um odor muito forte e desagradável. Pois bem, as coisas mudaram. E o que isso tem a ver com o Homem-Aranha encontrando o Predador? Bem, tudo, como vou te explicar daquele jeitinho sem enrolação, esperto e limpinho de baits de sempre.
Ok, vamos só revisar: no nosso caso, reboot é a reinicialização de alguma propriedade intelectual, normalmente com uma atualização para servir aos padrões de exigência do público-alvo vigente; e retcon, ou continuidade retroativa, é a inclusão de algum novo elemento narrativo em uma história já contada, como se existisse na versão original.
E por que essas palavras fediam tanto? Bem, as editoras, com medo de perder os leitores veteranos, não realizavam um retcon de verdade, pois tudo voltava a ser mais ou menos o que era, sem consequências na trajetória do universo de personagens. E isso ficou repetitivo a ponto de gerar a Fadiga dos Super-Heróis nos quadrinhos dos anos 1990.
Já o reboot vinha todo torto, sem realmente compreender a nova geração de leitores. Exemplo disso são os Novos 52, em que o Superman rejuvenesceu e virou um alienígena babacão e nervosinho.
Ok, agora sim, vamos falar sobre duas franquias que mostraram um bom caminho para os reboots e retcons nos quadrinhos, a partir de um movimento que a Marvel Comics começou e, posteriormente, difundiu em seu Universo Cinematográfico (o MCU, na sigla em inglês).
Marvel aprendeu a fazer reboot e retcon
A Marvel precisou falir e vender os direitos de seus principais personagens no final dos anos 1990 até aprender a fazer algo que os leitores voltassem a se importar — lembre-se que na virada dos anos 2000 os quadrinhos passaram a disputar a grana dos consumidores com muito mais serviços e produtos voltados para o entretenimento infantojuvenil.
Expliquei melhor em outra matéria, e, resumidamente, trata-se de manter as linhas de narrativa, os personagens e seus núcleos, sempre em movimento. Cada evento precisa ter uma consequência que leve ao próximo passo de amadurecimento, não somente cronológico como também comportamental.
Para realizar isso sem deixar décadas de continuidade perdidas na cronologia, a Marvel passou a realizar “soft reboots” em linhas específicas, de maneira mais discreta e gradual. Como exemplo, antes de reformular os Vingadores no começo de 2000, a editora tirou de cenário o Capitão América e o Thor, para revisar suas trajetórias e atualizá-los, mostrando com suas ausências a real importância de suas existências.
E onde entra o retcon nessa história? Bem, ao invés de usar os grandes eventos como “reboot” e depois enfiar um monte de morte para depois reviver todo mundo e tudo voltar ao que era, a Marvel começou a conectar anos de continuidade com as mudanças realizadas em cada linha a partir de uma premissa que pudesse explicar tudo isso.
Um exemplo é a saga Pecado Original, que, entre outras coisas, explicou a substituição de Nick Fury pelo seu filho Nick Fury Jr., que é muito mais parecido com a versão de Samuel L. Jackson do MCU. Todas as maiores sagas têm servido de referência para conectar as atualizações e também para marcar uma progressão natural de maturidade dos personagens.
Com a entrada do MCU, a Marvel passou também a trazer para os quadrinhos muitos elementos que funcionaram nas telonas e nas séries. E isso entra no mesmo processo de reboot e retcon atualmente, de maneira que os fãs possam consumir uma franquia no cinema, na TV, nos games, no streaming e em qualquer outra mídia sabendo que o personagem está sincronizado em todas as plataformas.
Isso tem ajudado a manter os fãs fieis conectados e também tem sido uma maneira amigável de receber a nova geração. Dois exemplos são os quadrinhos de Star Wars e Tartarugas Ninja. O retcon bem feito em reboots de tramas clássicas vem introduzindo diversos personagens, elementos, cenários e eventos que trazem frescor e servem de gancho para os próximos capítulos.
Agora sim, Homem-Aranha e Predador
A essa altura você já deve estar ciente que a Disney adquiriu a Fox em 2019, certo? Pois bem, embora continuem sendo duas empresas diferentes, a Casa do Mickey agora pode explorar propriedades intelectuais como Alien e Predador da maneira como vem fazendo com Star Wars.
A Disney tem revisado o cânone de cada franquia para introduzir mais possibilidades de narrativa que possam gerar derivados e ampliar o alcance das histórias. Os quadrinhos e livros têm sido a principal fonte de inspiração para os projetos transmídia, e a Marvel Comics tem um universo prontinho para abrigar qualquer personagem, com direito a muitos outros astros para contracenar.
Então, tanto Alien quanto Predador, que possuem continuidades confusas e universos mal-resolvidos, vêm sendo revisados separadamente, e, ao mesmo tempo, também vêm penetrando o Multiverso Marvel.
E o encontro entre Predador e Homem-Aranha concretiza um fato importante. Os Yautja já vinham flertando com a continuidade principal do Universo Marvel em especiais com Wolverine e Pantera Negra. E, com o crossover diante do Escalador de Paredes, a Casa das Ideias e a 21th Century Fox estão declarando oficialmente a presença dos caçadores alienígenas supremos na Terra-616.
Calma, o Predador continua tendo seu cantinho próprio, em uma outra Terra do Multiverso Marvel, talvez. E vale destacar que esse não será o primeiro encontro entre ambos. Só que, a partir do dia 23 de abril de 2025, os Yautja estarão oficialmente incorporados à continuidade recorrente, na mesma galáxia de Thanos, Galactus, Kree, Skrulls e... os super-heróis de nosso planeta.
Quem sabe um Predador apareça em uma equipe da Casa das Ideias, não?
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