Como viver de HQs no Brasil? Artistas falam sobre o cenário nacional

Por Nathan Vieira | 21 de Agosto de 2020 às 20h00
Miika Laaksonen/Unsplash

Em junho, fizemos aqui no Canaltech uma matéria especial sobre o Dia do Cinema Brasileiro, voltada a entender como é a carreira no país. Dessa vez, queremos entender como é ser quadrinista no Brasil, e quais são os principais reconhecimentos e as principais dificuldades dessa profissão. Para isso, conversamos com artistas de diferentes gerações e ramos ligados a essa seara.

Uma coisa que precisamos ter em mente, antes de tudo, é que o cenário brasileiro passou por mudanças ao longo dos anos. Assim como lá fora, na verdade, e como acontece com qualquer assunto da nossa vida. Quem ajuda a compreender melhor essas mudanças é o carioca Gustavo Machado, que atua na área desde 1977, quando começou como integrante da equipe da revista Sítio do Picapau Amarelo. De 1988 a 1997, contratado pela Editora Abril, desenhou vários personagens dos quadrinhos Disney, como Zé Carioca, O Corcunda de Notre Dame, Hércules, Mulan e Tarzan, e de lá pra cá, inevitavelmente o profissional viu muita coisa acontecer.

"Quando comecei profissionalmente em 1977, os quadrinhos eram um produto de massa, geralmente produzido em estúdios em escala industrial. Eu mesmo comecei minha carreira numa grande editora de quadrinhos, a RGE — hoje, Editora Globo. Claro que ainda existe esse modelo de produção e publicação, como os comics da Marvel e DC, os quadrinhos italianos na linha de Tex, os mangás e mesmo no Brasil, a produção da MSP [Mauricio de Souza Produções]. Mas o mercado encolheu drasticamente — leia-se, baixa tiragem das edições", conta o desenhista.

Gustavo Machado já fez vários trabalhos para a Disney (Imagem: Reprodução/YouTube - Viagem ao Fundo do Baú)

Gustavo acrescenta que hoje existe uma profusão de quadrinhos autorais, o que pode ser positivo para os novos quadrinistas, ou mesmo para os veteranos sem contrato com as editoras mainstream mostrarem seus trabalhos. "Infelizmente, o número de leitores também caiu drasticamente e viver de quadrinhos se tornou algo praticamente impossível, pelo menos aqui no país", opina.

Questionado se há algo que sente falta de outras épocas dos quadrinhos, Gustavo responde: "Das revistas de linha. Os velhos gibis de banca, na quantidade e variedade que existia, baratos e acessíveis, assim como as edições mix, com vários autores dividindo as páginas de uma publicação periódica. A famosa Heavy Metal seria um grande exemplo", ao citar a famosa antologia sci-fi europeia.

O impacto da era digital

Uma coisa inegável é que a era digital gerou impacto em várias áreas. Quando se trata de quadrinhos, isso não é diferente. Para Gustavo, essa mudança consistiu na abertura de muitas opções de contatos virtuais e uso de ferramentas digitais, tanto em software quanto hardware. "O quadrinista tem hoje uma pequena editora dentro de casa, podendo criar seus trabalhos, formatar, imprimir e fazer cópias, tudo com alta qualidade. Além disso, existem os periféricos com tecnologia de ponta, como as mesas digitalizadoras. Os jovens artistas mal pegam num papel e lápis, desenhando tudo digitalmente."

Segundo o quadrinista, o mercado impresso é mais desafiador, inclusive na árdua busca pelos leitores, enquanto o mercado digital ainda é inconsistente e volátil. "Não conheço quadrinista algum que viva apenas do seu trabalho veiculado virtualmente. Se o mercado impresso está enxuto ou quase inexistente — refiro-me ao nosso país — o mercado digital também não cria público cativo, pois as novidades do mundo virtual não cessam de surgir."

Enquanto isso, o ilustrador paranaense Gabe Teixeira, que assina trabalhos como A Mujada e Cachorro Brabo, chama atenção para dois aspectos: o primeiro é a internet e as redes sociais, que influenciaram a maneira como consumimos conteúdo. Nesse caso, da divulgação do trabalho, o impacto já pode ser percebido há mais de uma década, e mudou completamente a relação do artista com o público. O outro aspecto é a evolução dos softwares e equipamentos. "Hoje, com os tablets e mesas gráficas o processo de produção vem se tornando cada vez mais rápido e com menos impacto ambiental. Estamos cada vez mais perto de uma experiência digital praticamente idêntica ao processo convencional", aponta.

Ilustração de Gabe Teixeira (Imagem: Reprodução/Instagram)

Para a matogrossense Gabriela Güllich, autora do São Francisco, um livro-reportagem em quadrinhos e fotografia que saiu no Top 20 do Prêmio Grampo 2020 de Grandes HQs, o maior desafio da área no momento é a distribuição. Segundo ela, não há um meio mais desafiador que outro no setor, ambos tem vantagens e desvantagens. "Não posso falar muito pelo digital porque até então minhas publicações foram todas impressas, então, como artista independente, o maior problema é tempo para a logística — além de todo o processo de fazer o livro, preciso embalar, conferir endereços, enviar para apoiadores, lidar com entregas, etc."

Desafios de ser um quadrinista no Brasil

Uma questão que provavelmente muitos dos que trabalham com quadrinhos costumam ouvir com frequência é se é possível viver apenas de HQs no Brasil. Para Gustavo, isso é praticamente impossível aqui no país, e mesmo os muitos autores independentes, que surgem a todo o momento, geralmente precisam se virar com outros trabalhos, ilustrando livros ou trabalhando para o mercado publicitário, por exemplo.

Já na visão do ilustrador paranaense Andre Ducci, responsável pelos projetos Fim do mundo e o Clube do Livro para Leitores Extraordinários, sendo que este último foi indicado no Prêmio Jabuti em 2019, essa possibilidade existe. "Precisa conseguir conquistar o seu público. Eu, por enquanto vivo, das minhas ilustrações, e as HQs acabam sendo projetos esporádicos. Acho que são os desafios de qualquer segmento artístico. Chamar atenção das editoras e do público. No Brasil, temos o adicional de não ser comum consumir cultura de qualquer tipo", opina.

Ilustração de Andre Ducci (Imagem: Reprodução/Instagram)

Gabe expõe que o maior desafio é justamente a valorização. Segundo ele, a questão é que o cliente muitas vezes não entende todo o trabalho por trás de uma ilustração. As horas de estudos, cursos, equipamentos, tudo isso tem custo, assim como em todas as profissões. No entanto, o profissional reconhece que de uns tempos pra cá a situação melhorou: as pessoas estão compreendendo melhor o processo que envolve a criação — e com isso vem o reconhecimento e a valorização.

Gabriela Güllich acrescenta: "As vendas maiores eram feitas por meio de feiras, que foram todas canceladas em decorrência da pandemia. E quando um país enfrenta uma crise como essas, a venda de trabalhos artísticos cai bastante porque as pessoas acabam precisando focar na praticidade e nas contas que precisam serem pagas".

Sobre as principais diferenças entre o mercado brasileiro e o mercado internacional, Gustavo afirma que não houve um investimento das editoras nacionais em atrair novas gerações, para formar leitores. Abriu-se um hiato desde os anos 1990, quando os quadrinhos mais populares, os de super-heróis, estavam em baixa e começaram a perder terreno para outros nichos do entretenimento, como os games e a internet.

Por sua vez, Andre Ducci compartilha da opinião de que, no geral, não há muitas mudanças entre o cenário brasileiro e o internacional. Para ele, os mercados são pequenos e muito concorridos, com as claras exceções, como os EUA, França e Japão.

Diversidade no cenário brasileiro

Se a vida de quadrinista brasileiro já é movida a desafios, quando se faz parte de uma minoria, a situação envolve ainda mais obstáculos. Foi com isso em mente que a jornalista paulistana Gabriela Borges criou a Mina de HQ, uma mídia independente com o objetivo fazer com que cada vez mais pessoas leiam histórias em quadrinhos feitas por artistas mulheres e não binárias. A cada edição, a Mina de HQ convida colaboradoras especiais, que produzem o conteúdo e a arte da capa.

O objetivo da Mina de HQ é trazer diferentes perspectivas para o conteúdo da revista."O mercado de quadrinhos em si é muito dominado por homens que são os grandes editores, que estão por trás dos grandes eventos, e isso reflete na visibilidade dos trabalhos que saem do padrão. Eu dou visibilidade para projetos de mulheres e pessoas não binárias. Também busco dentro desse recorte a diversidade e a pluralidade; ir além desse olhar, buscar outras vozes. Então, também procuro mulheres negras, periféricas, trans, de diferentes regiões do Brasil e do mundo", conta Gabriela Borges.

Entrevista com Powerpaola no formato de quadrinhos, por Gabriela Güllich (Imagem: Reprodução/Mina de HQ)

Para a jornalista, a importância de dar visibilidade às artistas se dá porque, por mais que se esteja caminhando a conquistas, ainda há uma luta muito grande a ser seguida. "Mas também ampliar as possibilidades, pontos de vistas diferentes. São muitas barreiras que a gente vê na sociedade em geral, e que não são diferentes no universo dos quadrinhos. É uma luta para furar as bolhas e criar novos espaços descentralizados desse mercado mainstream. A internet possibilita meios de autopublicação, como financiamentos coletivos, em que as pessoas podem contribuir com o trabalho dessas artistas", afirma a jornalista. E por falar em financiamento coletivo, é possível apoiar a Mina de HQ contribuindo mensalmente. Já a revista impressa se encontra em pré-venda.

Sobre o conservadorismo do público dos quadrinhos, Gabriela Güllich, que é uma das colunistas da Mina de HQ, afirma: "O cenário nacional independente consegue ser um ambiente mais agradável. Já presenciei algumas situações desconfortáveis em eventos e vi muitas colegas serem atacadas pelos seus trabalhos, que, com certeza, se fossem de autoria masculina não teriam sido tão questionados".

Por fim, Gabriela Borges menciona dois importantes eventos voltados à diversidade no universo dos quadrinhos: a Poc Con, uma feira de quadrinhos e artes gráficas protagonizada por artistas LGBTQ+; e a PerifaCon, voltada a artistas negros e periféricos. "A gente tem muito artista produzindo muita coisa legal. A internet possibilitou um alcance grande, abriu muitas portas. Tem uma força grande de gente produzindo no Brasil hoje em dia. Mais canais, mais recortes."

Lá nos EUA, os quadrinhos têm um público muito fiel, e conseguiram alcançar o mainstream, principalmente quando se trata de heróis. Mas como é a situação aqui no Brasil? E mais ainda: como é viver disso no país e quais são os principais desafios dessa profissão?

Gostou dessa matéria?

Inscreva seu email no Canaltech para receber atualizações diárias com as últimas notícias do mundo da tecnologia.