Dia do Cinema Brasileiro | Como é fazer filmes no Brasil?

Por Nathan Vieira | 19 de Junho de 2020 às 12h00
Divulgação

Se você também é um fã assíduo da sétima arte, sobretudo quando se trata da produção nacional, provavelmente vai ficar muito feliz em saber que nesta sexta-feira, 19 de junho, comemora-se o Dia do Cinema Brasileiro. A data é uma homenagem ao dia em que o ítalo-brasileiro Afonso Segreto – o primeiro cinegrafista e diretor do país – registrou as primeiras imagens em movimento no território brasileiro, em 1898. Basicamente, Afonso Segreto fez imagens da entrada da baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, a bordo do navio francês Brésil - a primeira filmagem em território nacional. 

Tendo em mente esse dia especial, o Canaltech conversou com profissionais do ramo para entender como é a área aqui no Brasil, os desafios por trás das produções nacionais e como a situação da pandemia impactou o andamento do cinema no país.

Os desafios do cinema nacional

De acordo com Sihan Felix, professor pós-graduado em cinema e atuante como crítico desde 2008 (inclusive, é ele quem faz as críticas de cinema aqui do Canaltech), membro da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ) e cofundador e atual presidente da Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Norte (ACCiRN), o maior desafio de se produzir um filme no Brasil é podar a criatividade em detrimento do investimento possível.

"Particularmente, muitos de nós estamos condicionados a escrever e a criar pensando no que será possível conseguir fazer com o dinheiro que temos ou que podemos conseguir. A criatividade vira uma refém constante. Claro que isso acontece em outros países também, até mesmo nos EUA. O problema é que, por aqui, percebo que acontece até mesmo com as nossas maiores produções", aponta Sihan.

Já para Paulo Roberto Ferreira Camargo, Doutor em Comunicação e Linguagens com ênfase em Cinema e Audiovisual e professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), o cinema é uma expressão artística e cultural que é produzida industrialmente, então mesmo quando o filme é de baixo orçamento, acaba sendo caro. "Então, a principal dificuldade para a produção de um filme é ter recursos. Por isso, temos dispositivos como as Leis de Incentivo, leis federais, estaduais, municipais, Lei do Audiovisual, mas não creio que sejam suficientes. Em quase todos os países onde há uma indústria cinematográfica forte, há apoio governamental".

Paulo explica que, no Brasil, o que existe fundamentalmente são filmes independentes, que dependem de recursos que geralmente vêm de leis de incentivo. Além deles, apenas uma pequena parcela é de produções que são feitas com o apoio da Globo Filmes e que são filmes mais comerciais, que entram em cartaz em grandes redes cinematográficas, como Cinemark, UCI, entre outros, e esses filmes encontram distribuição de empresas fortes.

"Dentro do Brasil o cenário muda de um estado para o outro por causa da diferença gritante nos valores dos editais, mas acho que o principal desafio, num contexto de realizadora potiguar, é o pouco investimento financeiro somado à concentração dele em uma única região do país. Também acredito que esse seja um problema para muitos fora do eixo Rio-São Paulo", opina a continuísta e produtora Vivian Moura, que já estudou som direto, audiodescrição para cinema, produção executiva e atualmente estuda direção de arte.

Ela acrescenta, ainda, que há desafios que percorrem outras fases da feitura de um filme, além da produção, como a exibição: "Em 2018 a participação de público dos filmes brasileiros nas salas comerciais de cinema foi menos de 15%. Isso se deve a uma série de fatores, a discussão é bem ampla, mas sem dúvida é uma dificuldade para nós".

Cinema brasileiro na pandemia

Com a COVID-19 assolando a população mundial, praticamente todos os setores da economia foram afetados de alguma maneira, e a sétima arte não saiu ilesa. Produções paralisadas no país inteiro, relatórios de finalização precisando ser adiados, pagamentos sendo cancelados ou adiados e festivais impossibilitados de serem realizados (o que afeta principalmente os produtores de curtas-metragens) são alguns dos aspectos apontados pelos especialistas.

"Todas as áreas dentro do cinema foram afetadas. Tem sido um período que estamos precisando buscar força entre nós mesmos, outras saídas, produções para internet e sem equipe. De maneira otimista, penso que podemos sair disso com muita força. É impossível não ver com pessimismo frente a tudo que tem acontecido", opina Sihan.

Vivian destaca, principalmente, o impacto financeiro. A continuísta observa que o cinema existe baseado na aglomeração, e que é um trabalho realizado literalmente em equipe, tanto para se produzir quanto para exibir. Com a pandemia, praticamente todas as exibições e estréias foram suspensas também, exceto pelas que estão estreando em streaming, tanto nas plataformas convencionais como em alguns festivais que se adaptaram para o atual momento do mundo e fizeram suas edições completamente online. "Então, sem poder trabalhar, o impacto está sendo principalmente financeiro. Mas esse setor é formado por pessoas e muita gente infelizmente está sofrendo um impacto pessoal inestimável neste momento que vai muito além de dinheiro", argumenta. 

Desvalorização?

Quando falamos da valorização do cinema, podemos observar duas frentes: o modo como os próprios brasileiros lidam com as produções locais e a visibilidade que o cinema brasileiro tem para os outros países. Mas vamos por partes e primeiro falar sobre o modo como a própria população brasileira encara suas produções.

Para Paulo Roberto, o cinema brasileiro não está desvalorizado. Ele reitera que nós temos uma vasta tradição cinematográfica e importantes diretores desde a época do Cinema Mudo, atravessando diversos movimentos, como o Cinema Novo, por exemplo - que surgiu na final da década de 1950 e é reconhecido internacionalmente. Atualmente, temos diretores importantes como Walter Salles (Central do Brasil) e Kleber Mendonça Filho (Bacurau).

"Existe esse mito de que o cinema brasileiro não é tão bem feito, que existem problemas de som, o que considero uma bobagem que já foi superada há muito tempo. O cinema brasileiro já teve excelentes alcances de bilheteria", aponta o professor universitário. Ele menciona Dona Flor e Seus Dois Maridos, que por muito tempo foi a maior bilheteria brasileira, com 11 milhões de espectadores, e os filmes dos anos 1970 e 1980, que também alcançaram excelente público. "A partir da retomada, temos grandes sucessos de bilheteria como Carandiru, Cidade de Deus e as comédias. Um exemplo é a franquia Minha Mãe é Uma Peça, que já teve três episódios e cada um deles rende mais do que o filme anterior", acrescenta o especialista.

Cidade de Deus, filme de 2002 (Imagem: Reprodução)

Já para Vivian, trata-se de um assunto complexo, porque a palavra “valor” pode seguir por vários rumos (valor histórico, valor social, valor econômico…), ainda mais se tratando de cinema. "E Brasil também é outro tema muito complexo, para mim é como se existissem vários 'Brasis' dentro do Brasil, isso por vários motivos, mas principalmente por uma desigualdade social absurda. Sem dúvida isso se reflete no acesso da população à cultura, ao cinema", opina. A continuísta ainda acrescenta que se dissesse que o Brasil desvaloriza o cinema, estaria sendo "rasa e injusta com muita gente" que faz acontecer mesmo com todas as adversidades justamente por acreditar genuinamente no gigante valor e potencialidade do cinema.

"Mas se a questão for o investimento do atual governo na área, a resposta é não, o Brasil não valoriza o cinema. Nesse momento, por exemplo, a cinemateca brasileira, instituição responsável pela preservação da produção audiovisual brasileira, está sendo deteriorada. Técnicos sendo demitidos, equipamentos subutilizados, contas de luz atrasadas. Os filmes que são feitos com materiais inflamáveis podem entrar em autocombustão se o acervo ficar sem refrigeração, e assim gerar um incêndio, o que já aconteceu em 2016", reitera.

Já quando se fala da visão do mundo em relação ao cinema brasileiro, os especialistas da área apontam que não é raro uma produção do nosso país ganhar proporções lá fora. "Nosso cinema é riquíssimo, nossos artistas são criativos e talentosos e, acima de tudo, arte também é política. Nossa arte, nosso cinema, tem uma força política enorme e isso é mais do que reconhecido lá fora. Temos qualidade para ganhar o mundo e isso tem sido provado nos últimos anos mesmo com muito batendo contra", opina Sihan.

Filme Bacurau, de 2019 (Imagem: reprodução)

Alguns filmes brasileiros alcançam grande visibilidade internacional e são premiados. O exemplo mais recente disso é Bacurau, que alcançou distribuição em inúmeros países e foi premiado no Festival de Cannes. Outro filme que foi premiado na mostra Um Certo Olhar, do Festival de Cannes de 2019, foi A Vida Invisível. 

Apesar disso, parece que ainda há mais pessoas interessadas em filmes internacionais, o que, para Paulo Roberto, está muito relacionado ao condicionamento feito pela indústria. O especialista diz que o cinema internacional tem muitos recursos financeiros e uma verba de divulgação muito grande, afinal, são produções muito caras e que precisam render.

"É importante lembrarmos que quando falamos de cinema internacional, fundamentalmente, se fala do cinema norte-americano, falado em inglês. Esse ano vimos um caso bastante importante para a história cinematográfica, que foi o sucesso mundial do filme Parasita. Foi a primeira vez que um filme falado em língua estrangeira venceu o Oscar de Melhor Filme. Infelizmente, ainda são exceções", conclui.

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