Internet Explorer 25 anos: um clássico que gostaríamos de esquecer

Por Douglas Ciriaco | 16 de Agosto de 2020 às 12h00
Christiaan Colen/VisualHunt

Pense no mundo há 25 anos: a internet dava os seus primeiros passos, o Brasil acabava de ser tetracampeão mundial de futebol e ainda estava enlutado pela trágica morte de Ayrton Senna; aos domingos, quem dominava programação televisiva e fazia o país dar risada era o fenômeno Mamonas Assassinas.

Enquanto tudo isso ocorria, em 16 de agosto daquele ano, a Microsoft lançou um dos seus mais icônicos programas de todos os tempos: o Internet Explorer. Chamado na época de Microsoft Internet Explorer, o IE 1 chegou ao Windows 95 junto do pacote Microsoft Plus! e logo depois passou a ser distribuído como o navegador padrão de toda e qualquer cópia do Windows.

Era a aposta da empresa de Bill Gates para enfrentar o Netscape Navigator, navegador lançado no fim de 1994 com recursos inovadores como suporte a recursos gráficos e que rapidamente dominou mais de 90% do mercado, tornando-se o padrão para quem desenvolvia para web naquele período

Não levou muito tempo, porém, para a estratégia de mercado da Microsoft surtir efeito: incluir o Internet Explorer como o programa padrão para se navegar na internet no Windows levou o programa ao topo do mercado apenas três anos depois de seu lançamento. No final de 2003, quando tinha somente oito anos de vida, o IE já era usado por nada menos do que 94% das pessoas conectadas à internet.

É difícil encontrar até mesmo uma captura de tela decente do IE 1 (Imagem: Reprodução/Wikipédia)

Mosaic, malandragem e monopólio

Em 1995, assim como outras companhias da época, a Microsoft licenciou o uso do popular navegador Mosaic, da Spyglass, para criar o seu programa de navegação na internet. A Spyglass era o braço comercial da Universidade de Illinois em Urbana e Champaign, dos Estados Unidos, responsável por comercializar softwares criados dentro da instituição, e inicialmente não cobrou nada para oferecer seu código à MS.

As duas companhias chegariam a um acordo para que a Spyglass ficasse com uma fatia das vendas do Internet Explorer, mas com a chegada do IE 3, em agosto de 1996, a Microsoft passou a incluir o navegador gratuitamente no pacote do Windows 95. Isso permitiu a ela parar de pagar royalties à dona do código-fonte usado como base no navegador.

Tal movimento gerou uma disputa judicial que terminaria no ano seguinte, em um acordo no qual a Microsoft se comprometeu a pagar US$ 8 milhões de dólares à época para a Spyglass. Com isso, a gigante de Redmond poderia também continuar usando a tecnologia do Mosaic sem pagar mais nada. A MS abandonaria a tecnologia da Spyglass em 1997, adotando o motor próprio chamado Trident, que permaneceu no IE até a sua última versão, em 2013.

Houve um tempo em que até navegadores eram distribuídos em CDs! (Imagem: Jagelado/Visual Hunt)

Dali em diante, porém, a Microsoft não pouparia esforços para empurrar o IE goela abaixo de quase todo mundo, mesmo que para isso abusasse de sua posição privilegiada no mercado. Apesar de tais práticas não passarem incólumes pelas autoridades, o que levou a empresa a ser condenada por práticas anticompetitivas nos Estados Unidos e na Europa, o Internet Explorer começou o século 21 reinando soberano mesmo na alvorada da Era Pontocom. O grande vencedor da Primeira Guerra dos Navegadores levaria ainda mais de uma década para ser destronado.

Estagnação e queda

O sucesso estrondoso do Internet Explorer parece ter acomodado a Microsoft, que “sentou sobre a glória” e contribuiu para uma estagnação tremenda dos padrões da internet. Como era amplamente mais popular do que alternativas muito mais qualificadas como Mozilla Firefox, Netscape ou Opera, muitas vezes não fazia sentido para desenvolvedores gastarem recursos na implementação de novas tecnologias suportadas por esses programas e ainda não seguidas como padrão pela MS.

A maior prova de como a Microsoft simplesmente ignorava a internet e estava quase nada comprometida com a evolução da web foi o Internet Explorer 6. Lançado em 2001 (fechando uma média de quase uma grande atualização por ano desde 95), ele chegou com um visual renovado e muitos recursos a mais que o antecessor, causando um impacto positivo especialmente para quem já havia migrado para o Windows XP.

Foi com o IE 6 que a Microsoft viu seu domínio no mercado de navegadores consagrar e ele permaneceu sem um sucessor até 2006, quando a MS lançou o IE 7, primeiro programa da empresa a adotar a navegação em abas popularizada pelo Firefox desde 2004, mas que já existia no navegador da Mozilla desde a sua primeiríssima versão, de 2002, quando ele ainda se chamava Phoenix.

IE 6, a mais odiosa e duradoura versão do navegador da Microsoft (Imagem: Reprodução/Wikipédia)

Em 2009, o Firefox dominava mais de 30% do mercado, pouco mais da metade dos 58% abocanhado pelo Internet Explorer, e a ultrapassagem parecia apenas questão de tempo. Um ano antes disso, porém, um gigante entrou na parada: o Google lançou o Chrome e investiu pesado em recursos e publicidade para tornar o navegador um concorrente de peso para todos os demais.

Se competir contra uma organização sem fins lucrativos (caso da Mozilla) já parecia impossível para a Microsoft, a coisa ficou ainda pior quando uma das companhias mais lucrativa do planeta trouxe as suas armas para a disputa. No terceiro trimestre de 2013, o Chrome passava o Internet Explorer e a lista de navegadores mais usados tinha um novo líder depois de 15 anos de domínio ininterrupto do IE.

Legado zero, nenhuma saudade

Ao longo de sua história, o IE refletiu práticas pouco amistosas com o mercado realizada pela Microsoft em outras frentes. O navegador implementou uma série de recursos proprietários sobre alguns padrões da web, o que tornou a internet mais "fechada" e dava mais trabalho a desenvolvedores que quisessem tornar suas páginas funcionais também para outros navegadores.

A última grande atualização do Internet Explorer ocorreu há sete anos, em 2013, quando o IE 11 chegou ao Windows 8.1. Com melhorias no processamento de imagem e suporte inédito na franquia para WebGL, ele continuou não sendo páreo para o Chrome e foi definitivamente abandonado em 2015, quando o Microsoft Edge foi apresentado como seu substituto.

Atualmente, a Microsoft ainda mantém o navegador no Windows sob a justificativa de oferecer suporte para páginas da web com tecnologia antiga e, se você usa o sistema das janelas, pode abri-lo agora mesmo se assim desejar.

De modo geral, porém, todas as iniciativas da Microsoft pós-IE 6 pareceram apenas a tentativa desesperada de parecer jovem por um tiozão que nunca foi descolado de fato. A adoção tardia de recursos básicos para um mundo cada vez mais dentro da web, como navegação em abas e suporte a extensões, além da adoção de padrões mais modernos da rede, nunca foi o suficiente para tirar o atraso.

Ao longo dos anos, o IE foi alvo de inúmeras falhas de segurança que o tornaram um verdadeiro problema até mesmo para quem não o utiliza. Até a própria Microsoft já fez piada de seu navegador e chegou ao cúmulo de apelar para que as pessoas deixassem de usar o Internet Explorer por questão de segurança.

Olhando para trás, é até difícil entender como tanta gente conseguiu aturar o Internet Explorer por tanto é tempo. Fica evidente que ele nunca foi sequer tão bom quanto qualquer uma de suas alternativas, desde o Netscape, passando por Opera e Firefox, depois Chrome e Vivaldi, para citar apenas alguns nomes. Em nenhum momento ao longo dos seus 25 anos, qualquer versão do IE foi melhor (em recurso, desempenho ou ambos) que os seus principais concorrentes.

Claro que a justificativa para isso é a praticidade: ele já estava ali, pronto para uso no Windows, então muita gente sequer cogitava ou sabia da possibilidade de baixar um outro programa para realizar as mesmas tarefas de forma mais aprimorada e de quebra ter acesso a um novo universo de recursos. Precisou do peso de um Google para que quase todo mundo compreendesse como o Internet Explorer sempre foi terrível.

Microsoft Edge: agora vai?

Mesmo o sucessor do IE, o Microsoft Edge, demorou a ser bem visto pela comunidade. Lançado em 2015, ele sempre foi visto com desconfiança até que a empresa resolveu fazer o óbvio e dotá-lo da mesma tecnologia do Chrome. O novo Edge é tão bom que nem parece ser um navegador da Microsoft. Tantas mudanças e a tentativa de se afastar cada vez mais do passado mostra que o legado do Internet Explorer é completamente nulo para a web, mas especialmente para a própria Microsoft (talvez sirva de exemplo apenas daquilo que não deveria se repetir).

Apesar da decisão acertada, a movimentação da Microsoft chega com uma década e meia quase de atraso. Ainda é cedo para dizer que o Edge conseguirá apagar a impressão terrível deixada pelo Internet Explorer, mas é um alento ver que uma empresa do tamanho e do poderio da MS finalmente se dignou a criar um navegador excelente para os seus adeptos.

Agora nos resta ver até onde essa história pode ir.

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