Meme do caixão: quem são os dançarinos do funeral que viralizou na internet?

Por Rafael Arbulu | 13 de Abril de 2020 às 12h46
(Imagem: Reprodução/VICE)

Salvo por você estar vivendo sob uma pedra desde o começo de 2020, não há razão que justifique o desconhecimento do "meme do caixão". Resumidamente, quatro homens africanos executam uma coreografia de dança enquanto carregam um caixão, com música alegre de fundo e trazendo ares festivos ao que normalmente entendemos como uma tradição solene.

O meme vem atraindo público justamente por trazer uma capacidade de fazer brincadeiras com situações relativamente perigosas: um vídeo de parkour que deu errado? Um homem inadvertidamente leva uma pancada mais forte “nos países baixos”? Enfia um corte seco em qualquer software de edição de vídeo e “cole” um clipe dos dançarinos fúnebres e pronto, está feita a piada.

(GIF: Reprodução/Tenor)

Evidentemente, esse mesmo meme também vem fazendo algumas pessoas mais tradicionalistas torcerem o nariz — é um enterro, afinal de contas —, já que boa parte dos países tendem a compreender “funeral” como uma ocasião solene e soturna, ou seja, o exato oposto de uma festa com danças animadas.

Mas de onde vem o meme do caixão? Como isso tudo começou? Bom, o Canaltech foi atrás de informações para explicar o fenômeno.

Quem são esses dançarinos?

A primeira coisa a se pensar é quem são e de onde vêm os dançarinos animados dos vídeos? Bom, isso é fácil de responder: eles são pallbearers, um tipo de profissional que não tem uma tradução específica em português, mas é o termo usado em inglês para “carregadores de caixão”. Pense em qualquer enterro que você já tenha comparecido e lembre-se do funcionário do cemitério, responsável por carregar o caixão do velório à sepultura. Sim, eles são exatamente isso.

Mas a diferença não fica só na dança (mais sobre isso a seguir): no Brasil é comum que os carregadores de caixão sejam funcionários do próprio cemitério, mantidos, na maioria dos casos, pela prefeitura municipal. Outros países, no entanto, veem famílias contratarem pessoas para isso. Também é comum ver esses profissionais serem confundidos com “coveiros”, o que é parcialmente verdadeiro: em caso de funcionários públicos, ambas as funções são mescladas, haja vista que o coveiro também cuida da manutenção das lápides, jazigos e sepulturas. Em contratações particulares, porém, as coisas diferem.

No caso dos dançarinos, eles são carregadores privados, contratados pela família do falecido ou falecida. Eles são naturais de Gana, país situado no Golfo da Guiné, África Ocidental. “Liderados” por Benjamin Aidoo, a primeira menção que encontramos sobre ele foi em uma reportagem não muito diferente desta daqui, feita pela BBC internacional em julho de 2007, embora um vídeo feito por um usuário do YouTube — sem o caráter informativo da BBC — tenha ido ao ar em meados de 2015.

Você vai reconhecer os clipes dos memes — todos eles — extraídos do vídeo acima.

Segundo o próprio Benjamin, esse “negócio” começou com um objetivo nobre: aliviar os níveis de desemprego na nação africana. No vídeo acima, o dançarino já contratou mais de 100 pessoas, embora a matéria não deixe claro se foram 100 dançarinos ou outras posições estão contempladas nesse meio.

Uma coisa importante para ressaltarmos: embora o funeral dançante seja mais um negócio do que uma tradição, os enterros ganeses, ao contrário dos nossos, por exemplo, são ocasiões extremamente sociais. Pelo vídeo acima, é possível perceber que a procissão do caixão é acompanhada por centenas, se não milhares, de pessoas. Por aqui, algo assim só ocorre em mortes de celebridades. Nos Estados Unidos, a ocasião tem até um nome: "New Orleans Jazz Funeral", quando a celebração do morto ou morta é feita de forma alegre, com trompetes e outros instrumentos de sopro, embalados em jazz mais dinâmico.

Tá, mas por que um meme?

Como todo meme, é difícil apontar exatamente para quando surgiu o "meme do caixão" e quando ele viralizou. Ao contrário do “Caneta Azul, Azul Caneta”, que teve um momento específico que, por sorte, começou na internet, pela internet, os dançarinos do caixão de Gana constituem um negócio que existe há pelo menos cinco anos. Em outras palavras: o nosso “meme” pode até ser corriqueiro para eles.

O que pode ter marcado como um episódio inicial dos dançarinos atingirem fama na “memesfera” é um vídeo compartilhado no Facebook em 2019, onde um dos coreógrafos erra o passo e deixa o caixão cair. Tal vídeo obteve milhares de reações e compartilhamentos, e se tem algo pelo que o Facebook é conhecido além dos seus problemas com a privacidade dos usuários é a sua capacidade de viralização.

De acordo com o site Know Your Meme, porém, foi apenas em 2020 que esse vídeo foi editado e embalado pela música Astronomia, um sucesso da música eletrônica de 2010 autorada por Tony Igy. Originalmente publicado no TikTok pelo usuário “@lawyer_ggmu”, o vídeo foi marcado em memes do gênero “Fail” e teve mais de 4,5 milhões de visualizações e 474.700 curtidas em apenas um mês.

@lawyer_ggmu

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Dada a recente popularidade do TikTok no Brasil — foi o segundo app mais baixado das lojas online em 2019 —, é possível entender como o meme pegou. E a adição de Astronomia como trilha sonora, bem como a subsequente remixagem feita por Vicetone em 2014, adicionaram mais tempero à brincadeira.

Ok, mas os dançarinos do caixão ainda existem?

O meme, sim, considerando que ele mal começou. Mas memes tendem a ter vida curta: o “Caneta Azul”, por exemplo, raramente encontra menções mais recentes. Não dá para indicar que os carregadores fúnebres terão o mesmo destino, mas também não dá para dizer que não terão — e o histórico cultural da internet é o de um esquecimento rápido, trocado por outro meme mais recente.

Quanto aos dançarinos do caixão em si, nós não encontramos nenhuma referência contemporânea sobre eles: vídeos no YouTube deste ano são apenas versões reeditadas do meme original, com outras músicas ou montagens que o inserem em outros vídeos. E os principais portais de notícia do mundo não possuem qualquer repercussão ou mesmo declarações dos dançarinos em si.

Entretanto, aqui é a internet. E como qualquer meme que envolva pessoas reais, é provável que logo menos tenhamos informações atualizadas sobre eles, se ainda atuam nesse mercado ou como estão indo de vida.

Mas se ainda estiverem no mercado, com certeza seguem no estilo... (GIF: Reprodução/Tenor)

Isso também não é sem precedentes, já que incontáveis memes na rede encontraram repercussões contemporâneas, com algumas pessoas até se aproveitando de seus status como celebridades involuntárias para lançarem seus projetos de conteúdo na internet: Laina Morris, a “namorada superapegada”, virou youtuber e já até abandonou a plataforma para cuidar de problemas relacionados à depressão; e o “bebê vencedor” — que agora é adulto e se chama Sammy Griner — fez uso de sua fama para juntar fundos de financiamento coletivo para pagar pelo transplante de rim de seu pai.

E o que você acha de tudo isso?

Particularmente, é difícil apontar “lado bom, lado ruim” em um meme. A nossa ideia de velório e enterro é uma ocasião mais fúnebre, soturna. É, afinal, a última despedida que oferecemos a um ente querido que está indo embora para não mais voltar. É compreensível que algumas pessoas não gostem da ideia.

Entretanto, um enterro ser encarado como uma ocasião de festa não é algo inédito: de acordo com a antropóloga Kelli Swazey, durante uma palestra que apresentou em um TED Talks, os habitantes da província de Tana Toraja, no sul da Indonésia, economizam ao longo de todo o ano para gastar um dinheiro considerável em uma festa de despedida regada a bebida e banquetes, sendo que, em alguns casos, a figura falecida sequer está em um caixão, mas sentada à mesa, vestida, como se ainda estivesse viva. Mais além, seus corpos — referidos apenas como “aquele que dorme” — são mantidos em quartos especialmente construídos na casa, simbolicamente alimentados, banhados e vestidos, ainda sendo parte da rotina de suas famílias.

Registro de um "enterro" de um ente querido falecido na província de Tana Toraja, Indonésia: os habitantes não "enterram" seus mortos, mas fazem festas com eles sentados à mesa, vestidos e apresentados como se ainda estivessem vivos (Foto: Reprodução/TEDTalks)

Já na Coreia do Sul, a popularidade da cremação de corpos levou familiares a fazerem pedras preciosas e joias de seus entes queridos ao invés de cinzas; já nas Filipinas, algumas pessoas “enterram” falecidos dentro de uma árvore oca ou os colocam sentados, vestidos e com um cigarro na boca, nas varandas à frente da casa.

Diante de tantas tradições incomuns à nossa, não é possível apontar o dedo e dizer que os dançarinos do meme do caixão são uma medida ruim. Não há profanação aos corpos falecidos e as famílias parecem aprovar (lembre-se: os dançarinos são contratados, então os parentes do morto sabem pelo que estão pagando).

O Twitter, pelo menos, parece reagir de forma positiva:

E você, o que pensa disso tudo? Consegue imaginar um parente seu “partindo” desta forma? Conte para nós nos comentários abaixo.

Fonte: BBC News (YouTube); Know Your MemeSuccess Kid (Wikipedia); TED Talk: Death is not the End

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