Análise | Age of Empires 2: Definitive Edition é o melhor Age já feito

Por Sérgio Oliveira | 22 de Novembro de 2019 às 10h28
Xbox Game Studios

Houve uma época em que os jogos para computador eram dominados por um gênero que nos últimos anos perdeu bastante força, embora ainda tenha representantes de peso. No fim dos anos 1990 e início dos anos 2000, os Real-time strategy (ou RTS, para quem é das antigas) arrebanhavam e amontoavam dezenas de jogadores nas lan houses, em corujões que muitas vezes eram suficientes apenas para uma ou duas partidas, de tão disputadas que eram.

Apesar da grande variedade de títulos do gênero, poucos sobreviveram ao tempo e chamaram tanta atenção quanto Age of Empires, lançado em 1997. Desenvolvido pelo Ensemble Studios e produzido pela Microsoft, o game se destacou por tentar trazer o que havia de melhor em Civilization e Warcraft, além de trazer conteúdo histórico rico e vasto, que muitos julgavam suficientes para fazer qualquer prova de História sobre a Antiguidade. Mesmo com a boa recepção pela crítica, o game só decolou de verdade quando Age of Empires 2: The Age of Kings foi lançado em 1999.

O jogo trouxe uma série de novos recursos e recebeu melhorias significativas em termos de jogabilidade que o tornaram referência e um clássico instantâneo. O tempo passou e a Microsoft continuou trabalhando em Age of Empires 2, lançando e apoiando o lançamento de pacotes de expansões até pouco tempo atrás, além de lançar uma versão remasterizada em alta definição batizada de Age of Empires 2: HD Edition em 2013.

Agora, tal qual fez com Age of Empires e o lançamento de Age of Empires: Definitive Edition, a empresa norte-americana comemora os 20 anos de um dos seus mais importantes jogos com Age of Empires 2: Definitive Edition. Nele, gráficos, interface, trilha sonora, dublagens e inteligência artificial foram todos retrabalhados para conferir um ar mais jovial e desafiador ao game, num esforço claro para modernizar todos os seus aspectos e agradar tanto veteranos quanto novatos.

Visual de encher os olhos

Mesmo já tendo retrabalhado os gráficos de Age of Empires 2 na HD Edition, o Xbox Game Studios apostou mais uma vez no aspecto visual para chamar a atenção dos jogadores. Saem de cena os renders em alta definição e entra um pacote de texturas em 4K. Apesar de muita gente dizer por aí que não há diferença nenhuma entra uma resolução e outra, nesta edição definitiva a diferença é gigantesca e gritante: mapas, unidades, construções e animações foram totalmente refeitos, dando não só mais fluidez à movimentação do jogo, como também trazendo uma satisfação indescritível quando vemos aquele castelo inimigo desmoronando e virando pedacinhos.

O mais legal é que, apesar do nível de detalhes absurdo, o jogador que não tiver uma máquina com especificações suficientes para rodar as texturas em ultrarresolução poderá desativá-las sem maiores problemas. O Xbox Game Studios teve o cuidado de disponibilizar essas texturas numa espécie de DLC, que é baixado quando o usuário ativa a opção de gráficos UHD no menu de configurações, podendo desativá-lo com a mesma facilidade caso perceba comprometimento do desempenho in-game.

Principal chamariz desta edição definitiva de AoE 2 é o aspecto gráfico: mapas, unidades, construções e animações foram todas refeitas em texturas em 4K
Principal chamariz desta edição definitiva de AoE 2 é o aspecto gráfico: mapas, unidades, construções e animações foram todas refeitas em texturas em 4K (Imagem: SergiuHellDragoonHQ)

Para além do visual, também houve um carinho todo especial com o aspecto sonoro de AoE 2: DE. Da dublagem das campanhas em português do Brasil até os efeitos sonoros e trilha sonora, tudo foi retrabalhado de maneira a dar mais profundidade ao campo de batalha e o tom épico que um jogo como este pede. Em alguns casos, inclusive, a dublagem foi adicionada, já que no original não havia qualquer áudio.

Mais quem um rosto bonitinho

Retrabalhar os gráficos e o som é o mínimo em um jogo que se propõe a ser um remaster, mas Age of Empires 2: Definitive Edition vai além e mostra que é muito mais que apenas um rosto bonitinho — algo que Age of Empires: Definitive Edition ficou devendo.

Embora até os menus e a interface também tenham sido recauchutados, o game causa aquela sensação de familiaridade em quem jogou o original ou a HD Edition — mais uma prova do cuidado e carinho dos desenvolvedores, que conseguiram mantê-lo reconhecível, mas com um cheirinho de tinta fresca e ar de atualidade para cativar os novatos. Mas mais que um ajuste estético, essas mudanças também impactam diretamente na jogabilidade.

Quem é velho de guerra perceberá que a interface in-game sofreu algumas alterações. A barra de ferramentas ganhou um tapa e agora está muito mais útil e funcional. Por exemplo: abaixo dos indicadores de recurso há um contador que indica quantos aldeões estão trabalhando na coleta de cada um deles. O botão que mostra os aldeões ociosos também foi reposicionado, agora fazendo parte da barra de ferramentas no canto superior em vez do canto inferior direito, ao lado do mapa.

Barra de ferramentas de Age of Empires 2: Definitive Edition agora está muito mais útil e informativa, reunindo número de aldeões coletando cada tipo de recurso, aldeões ociosos e fila de produção das construções
Barra de ferramentas de Age of Empires 2: Definitive Edition agora está muito mais útil e informativa, reunindo número de aldeões coletando cada tipo de recurso, aldeões ociosos e fila de produção das construções (Captura de tela: Sergio Oliveira)

Outra adição muito bem-vinda foi a indicação das filas de produção logo abaixo da barra de ferramentas. Graças a elas, o jogador não precisa mais ficar clicando nas construções para ver o que cada uma está produzindo, bastando acompanhar o seguimento disso ali no canto superior esquerdo. Outro "poupa-clique" foi a adição de "barras de saúde" dos recursos, que aparecem sempre que o jogador passa o mouse sobre eles e indica o quanto de comida, pedra, ouro ou pontos de vida restam ali.

Mas o que mais me chamou a atenção foi o novo padrão de atalhos Definitive, que troca o esquema clássico de hotkeys por um sistema em grade. Explico melhor: antes, cada ação, unidade e construção tinha um esquema específico de atalhos. Por exemplo: para construir uma casa, precisávamos selecionar o aldeão, apertar "1" e depois "C" no teclado. No novo padrão, todas as ações possíveis para qualquer unidade do jogo são mapeadas para a parte superior esquerda do teclado, logo para construir uma casa basta selecionar o aldeão e pressionar "Q" e depois "Q" novamente, já que essa ação está na primeira posição da primeira fileira na interface do jogo.

A nível de jogabilidade, Age of Empires 2: Definitive Edition também promoveu algumas mudanças que afetam positivamente não só o micro e macrogerenciamento, mas também a cadência das partidas.

Nesse sentido, chama a atenção algo que pode parecer bobo, mas que nas idades mais avançadas faz uma diferença absurda: agora as fazendas podem ser reconstruídas sozinhas, enquanto houver estoque suficiente de madeira, sem a necessidade de o usuário ficar empilhando essa ação na fila de tarefas do moinho. Em vez disso, é só clicar no botão de replantio automático e ir sossegado para a guerra, sem medo de retornar à cidade e encontrar aldeões à toa e fazendas áridas e improdutivas.

Adição do botão de replantio automático foi uma das inúmeras adições de Age of Empires 2: Definitive Edition que impactam positivamente na jogabilidade
Adição do botão de replantio automático foi uma das inúmeras adições de Age of Empires 2: Definitive Edition que impactam positivamente na jogabilidade (Captura de tela: Sergio Oliveira)

A exploração do mapa também foi beneficiada diretamente pela possibilidade de estabelecer múltiplos pontos de deslocamento de uma só vez. Segurando a tecla Shift, o jogador agora pode definir múltiplos pontos para uma determinada unidade, ou tropa, percorrer sequencialmente, eliminando a trabalheira que dava acompanhar esse deslocamento, estabelecer um novo ponto de deslocamento e gerenciar os recursos na cidade. No começo de qualquer campanha, isso é uma mão na roda e permite abrir o mapa muito mais rapidamente na mesma medida em que focamos na rápida coleta e acúmulo de recursos.

Fora isso, também merece destaque a fila de produção mista nas construções. Antes restrita apenas ou à produção de unidades ou ao desenvolvimento de tecnologias, esses locais agora são mais dinâmicos e permitem que o jogador misture as duas coisas, sem restrições.

Essas e muitas outras mudanças a nível de interface e jogabilidade tornam AoE 2: DE um jogo muito mais amigável, fluido e próximo de títulos RTS da atualidade, como Tropico 6, Total War e Company of Heroes.

Maior e mais desafiador

Para quem é fã de RTS, é difícil não ser fisgado por todas as mudanças que a edição definitiva de Age of Empires 2 entrega. Mesmo assim, há quem fique cético em relação a isso e preocupado com o conteúdo. Afinal de contas, além do tapa nos gráficos, na interface e nas mecânicas, como está o conteúdo deste jogo?

Muito bem. Age of Empires 2: Definitive Edition traz todas as campanhas e civilizações lançadas no original e suas expansões, além de adicionar a nova campanha The Last Khans, com três missões inéditas muito desafiadoras, e quatro novas civilizações: Búlgaros, Lituanos, Tártaros e Cumanos. Juntando tudo isso, dá 21 civilizações e mais de 200 horas de campanha single player, suficiente para entreter qualquer pessoas por semanas, talvez meses a fio.

O fim das campanhas não significa o fim desta versão de AoE 2, muito pelo contrário. O título tem um novo modo chamado Arte da Guerra, que desafia os jogadores a cumprirem tarefas específicas em um determinado tempo e servindo como uma espécie de treinamento para nos tornarmos mais eficientes e produtivos. Além disso, também há as partidas padrão, sejam elas contra a inteligência artificial ou multiplayer online, nos já conhecidos modos Mapa Aleatório, Partida Mortal, Regicídio, Rei da Colina etc, ou no novíssimo Guerra Imperial, que prioriza as batalhas ao colocar os jogadores no mapa já com recursos e algumas construções e unidades prontas. No caso do multiplayer, a Microsoft optou por abolir os servidores P2P de outrora e centralizar tudo em datacenters próprios, nos moldes que estamos acostumados em partidas multijogador pela Xbox Live. Com isso, a ideia da empresa foi conferir mais estabilidade mesmo em partidas entre jogadores geograficamente muito distantes — o que nos nossos testes se provou eficiente.

Aproveitando que falamos de inteligência artificial, a Microsoft parece ter ouvido as críticas sobre Age of Empires: Definitive Edition e dedicou mais esforços para essa questão em Age of Empires 2: Definitive Edition. Veja bem: estamos falando de um jogo lançado originalmente 20 anos atrás; nessas duas décadas, muita coisa mudou e a programação de inteligências artificiais evoluiu bastante. Como a proposta desta edição definitiva é ir além de uma simples nova roupagem e mais que apenas um rosto bonitinho, então também faz sentido ajustar o cérebro da coisa para ela não parecer débil e datada.

E foi justamente isso o que foi feito. A inteligência artificial do jogo também foi retrabalhada, de maneira a dar mais naturalidade às relações aliadas e mais desafio com os inimigos. Agora, por exemplo, é possível pedir para a IA aliada focar em certos aspectos do jogo, ou priorizar ataques a determinadas unidades inimigas, de maneira a complementar o perfil de gameplay de cada jogador.

Os inimigos, por sua vez, estão mais inteligentes e aparentam aprender com o estilo de jogo de cada um. Em muitas partidas, eles surpreendem com ataques pequenos e rápidos, numa espécie de blitzkrieg para deixar o jogador desnorteado e escasso de recursos. Caso perceba que esses ataques são eficazes, a IA continuará investindo neles, ou vai elaborar outras táticas para contornar suas defesas.

Em uma das partidas, grande parte da minha civilização foi dizimada e, no desespero, me aproveitei da vegetação para construir muros, torres e castelos gastando a menor quantidade possível de recursos. A princípio, essa tática funcionou e deu conta das duas próximas ondas de ataque. Aparentemente sem novas ameaças, me concentrei em colocar a cidade de volta em pé, preparar meu exército e coletar recursos: foi aí que veio a surpresa. A IA usou aldeões para fazer caminho por uma parte da vegetação e transpor minhas muralhas, invadindo a cidade e aniquilando tudo e todos. Astuciosa, cirúrgica e facínora.

Nem tudo que reluz é ouro

Apesar de todos os ajustes feitos em Age of Empires 2: Definitive Edition, algumas coisinhas passaram despercebidas pelo Xbox Games Studio. A IA, por exemplo, apesar de estar muito mais sagaz e desafiadora que nas duas versões anteriores, ainda não entende muito bem de diplomacia. Um exemplo claro disso acontece quando o jogador tenta estabelecer rotas comerciais com os aliados: apesar dos esforços, você verá carroças ou embarcações suas solitárias nessa atividade.

Um problema recorrente nos dois primeiros Age of Empires, o deslocamento de grandes tropas segue dando dores de cabeça, sobretudo em momentos decisivos. Não raramente você verá algumas unidades presas na vegetação e em passagens estreitas, ou até mesmo andando em círculos na tentativa de descobrir qual caminho é mais vantajoso para seguir adiante.

Durante nosso período de testes também percebemos alguns problemas de desempenho, mesmo rodando AoE 2: DE em uma máquina com especificações bem acima das recomendadas pela Microsoft: Nvidia GeForce RTX 2070 Super, Intel Core i7-9700K, 32 GB de memória RAM DDR4 3000 MHz e armazenamento em SSD. Sobretudo durante grandes conflitos, com cerca de 100 unidades militares batalhando umas com as outras, houve uma sensível queda na taxa de quadros por segundo, chegando à casa dos 20 FPS, quando em momentos de calmaria essa taxa era de, em média, 60 FPS.

Age of Empires 2: Definitive Edition — Requisitos mínimos
Placa de vídeo Nvidia GeForce GT 420, AMD Radeon HD 6850 ou I ntel HD Graphics 3000 com 2 GB de VRAM ou mais
Processador Intel Core 2 Duo ou AMD Athlon 64x2 5600+
Memória 4 GB de RAM
Sistema operacional Windows 10
DirectX Versão 11
Armazenamento 30 GB disponíveis
Age of Empires 2: Definitive Edition — Requisitos recomendados
Placa de vídeo Nvidia GTX 650, AMD HD 5850 ou melhor
Processador Intel Core i5 de 2,4 GHz ou superior ou equivalente da AMD
Memória 8 GB de RAM
Sistema operacional Windows 10
DirectX Versão 11
Armazenamento 30 GB disponíveis

Embora sejam problemas pequenos e que certamente serão corrigidos em patches futuros — afinal de contas a própria Microsoft já afirmou que continuará trabalhando para aprimorar e polir o jogo, portanto novidades nesse sentido devem surgir em breve —, é o tipo de ressalva que serve de alerta para os fãs que estão de olho no jogo nestas primeiras semanas pós-lançamento e de repente não têm uma máquina superpotente. Nesse caso, desabilitar o pacote de texturas em ultrarresolução e diminuir alguns ajustes de qualidade no menu de configurações deve resolver ou pelo menos amenizar tais problemas.

Age of Empires 2: Definitive Edition vai muito além de apenas uma nova roupagem: é praticamente um remake do original, com mais conteúdo e preço camarada
Age of Empires 2: Definitive Edition vai muito além de apenas uma nova roupagem: é praticamente um remake do original, com mais conteúdo e preço camarada (Captura de tela: Sergio Oliveira)

Vale a pena?

Age of Empires 2: Definitive Edition não só é a edição definitiva do jogo lançado em 1999, reunindo todos os conteúdos que saíram de lá para cá e conteúdo inédito, como também é o melhor Age of Empires que já vimos. Gráficos muito mais bonitos, trilha sonora e dublagem refeitas, jogabilidade alinhada com os padrões atuais, inteligência artificial melhorada... Dá para ver o trabalhado e esforço das desenvolvedoras Forgotten Empires, Tantalus Media e Wicked Witch Software em todos os lugares.

Melhor que isso é perceber que o cerne de Age II está intacto. Enquanto entrete, o jogo continua instruindo mais do que muita aula de história da escola e exige do jogador raciocínio lógico e estratégia como poucos da atualidade conseguem fazer. Em resumo: Age of Empires 2: Definitive Edition é obrigatório tanto para quem é fã de longa data quanto para quem sempre quis jogá-lo, mas esbarrava nas barreiras das mecânicas e dos gráficos.

E caso você ainda esteja em dúvida se vale a pena ou não, eis uma excelente notícia: Age of Empires 2: Definitive Edition está incluso no catálogo do Xbox Game Pass para PC. Em outras palavras, quem já é assinante do serviço pode baixá-lo sem custo adicional; quem ainda não é, pode aproveitar o preço promocional de míseros R$ 1,00 mensal (isso mesmo, um real) que a Microsoft está oferecendo a novos assinantes. Outra alternativa é optar por pagar o preço cheio do game, que está saindo por R$ 37 tanto na Microsoft Store quanto na Steam.

De um jeito ou de outro, o jogo está uma pechincha, afinal de contas são no mínimo 200 horas de conteúdo single player e mais infinitas horas de conteúdo e confrontos históricos em partidas contra a inteligência ou contra outros jogadores no multiplayer online.

Age of Empires 2: Definitive Edition está disponível apenas para PC. No Canaltech, o jogo foi analisado com cópia gentilmente cedida pela Microsoft.

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