Austrália é o 1º país a exigir que Google e Facebook paguem por notícias

Por Rui Maciel | 31 de Julho de 2020 às 20h15
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A Austrália será o primeiro país a exigir que Facebook e Google paguem pelo conteúdo de notícias produzidos pelas empresas de mídia. Para isso, a remuneração será feita a partir de um sistema de royalties que se tornará lei ainda este ano. O objetivo, segundo o governo local, é proteger o Jornalismo independente praticado mundo afora.

“Trata-se de uma oportunidade justa para as empresas de mídia australiana. Trata-se de garantir que aumentemos a concorrência, a proteção ao consumidor e um cenário de mídia sustentável”, disse Josh Frydenberg, tesoureiro do governo australiano. "Nada menos do que o futuro do cenário da mídia australiana está em jogo. Para cada US$ 100 gasto em publicidade online na Austrália, excluindo os classificados, quase um terço vai para o Google e o Facebook", completa.

Após uma investigação sobre o estado do mercado de mídia e o poder das plataformas dos EUA, o governo australiano, no final do ano passado, disse ao Facebook e ao Google para negociar um acordo voluntário com as empresas de mídia para usar seu conteúdo. Essas negociações não chegaram a lugar algum e as autoridades locais agora dizem que, se um acordo não puder ser alcançado através de arbitragem dentro de 45 dias, a Autoridade Australiana de Comunicações e Mídia estabeleceria termos juridicamente vinculativos em nome do governo.

Josh Frydenberg: governo australiano aperta o cerco sobre as Big Techs

A medida ocorre quando os gigantes da Tecnologia vêm rejeitando pedidos em todo o mundo por uma maior regulamentação. E ela acontece um dia depois de Google e Facebook (além de Apple e Amazon) serem atacados por congressistas dos EUA, por suposto abuso de poder de mercado, durante audiência no Congresso na última quarta-feira (29).

Pressão das empresas de mídia

As empresas de mídia, incluindo a News Corp Austrália, uma unidade da News Corp, fizeram pressão junto ao governo local para forçar as big techs a sentar para negociar, principalmente quando os veículos vêm enfrentando um longo declínio nas receitas de publicidade. "Enquanto outros países estão falando sobre o comportamento injusto e prejudicial dos gigantes da tecnologia, o governo australiano está tomando uma ação inédita no mundo", disse o presidente executivo da News Corp Austrália, Michael Miller, em comunicado, a respeito da ação tomada pelas autoridades públicas daquele país.

Uma pesquisa feita em 2019 na Austrália estimou que cerca de 3.000 empregos na área de Jornalismo foram perdidos no país nos últimos 10 anos. Uma das causas é que as empresas de mídia tradicional perderam boa parte de suas receitas de publicidade para o Google e o Facebook, que não pagaram nada pelo conteúdo de notícias.

Jornais australianos: mídia do país pressiona governo por melhor remuneração por parte das Big Techs

Ainda assim, a briga com as Big Techs promete ser inglória. Outros países tentaram e falharam na tentativa de fazê-las abrir o bolso. Setores de mídia na Alemanha, França e Espanha pressionaram a aprovação de leis nacionais de direitos autorais que obrigam o Google a pagar taxas de licenciamento quando publica trechos de seus artigos de notícias. No entanto, em 2019, a gigante de buscas parou de mostrar trechos de notícias de editores europeus nos resultados de pesquisa para seus usuários franceses. Já o maior editor de notícias da Alemanha, Axel Springer, permitiu que o mecanismo de busca executasse trechos de seus artigos após queda de tráfego nos sites.

Big Techs se defendem

Questionado sobre a medida do governo australiano, o Google afirmou que o Código não leva em conta o valor significativo que a empresa oferece aos veículos jornalísticos de maneira geral - incluindo o envio de bilhões de cliques aos sites de notícias australianos gratuitamente todos os anos, o que se converteu receitas de US$ 218 milhões.

A companhia afirma que o documento envia uma mensagem preocupante às empresas e investidores de que o governo australiano irá intervir em vez de deixar o mercado funcionar, e debilita a ambição da Austrália de se tornar uma liderança em economia digital até 2030. Segundo a gigante de buscas, Isso cria um desincentivo perverso à inovação no setor de mídia e não faz nada para resolver os desafios fundamentais de se criar um modelo de negócios adequado à era digital.

“Nossa esperança era que o Código fosse avançado e que, assim, o processo criasse incentivos para publishers e plataformas digitais negociarem e inovarem para um futuro melhor", afirmou Mel Silva, diretora-executiva do Google Austrália. "Por isso, estamos profundamente decepcionados e preocupados com o fato de que a presente versão do Código não alcançou isso. Pelo contrário, a intervenção pesada do governo ameaça impedir a economia digital da Austrália e afeta os serviços que podemos oferecer aos australianos".

A executiva continua: "Pedimos aos legisladores que garantam que o Código final seja fundamentado na realidade comercial para que funcione de acordo com os interesses dos consumidores australianos, preservando os benefícios compartilhados criados pela web e não favorecendo os interesses de grandes veículos à custa dos pequenos.”

William Easton, do Facebook: rede social está estudando a nova lei australiana


Já o Facebook foi mais econômico nas palavras. Segundo William Easton, vice-presidente do Facebook na Austrália e Nova Zelândia, "a empresa está analisando a proposta do governo australiano para entender o impacto que ela terá no setor, em nossos serviços e em nosso investimento no ecossistema de notícias da Austrália".

E no Brasil?

A discussão sobre o impacto de Google e Facebook nas empresas jornalísticas ainda engatinha no Brasil. Mas, de olho no movimento desencadeado na Austrália, o Canaltech entrou em contato com as duas empresas para saber quais as ações e/programas vem sendo adotados para apoiar o setor.

Enquanto o Facebook não se manifestou até o fechamento dessa notícia (atualizaremos tão logo a empresa se pronuncie), o Google respondeu ao nosso questionamento listando uma série de ações que a companhia vem tomando junto ao setor. Confira alguns deles:

Divisão de receita gerada por mídia programática com editores de notícias

O Google afirmou que em 2019, os publishers que utilizaram o Ad Manager ficaram com mais de 69% da quantia total paga pelos anunciantes. Como o Google Ads não cobra os anunciantes pela maior parte das impressões, a plataforma não tem uma taxa fixa por impressão. Em vez disso, a divisão de receita com o Google varia ao longo do tempo, de acordo com vários fatores, como os objetivos do anunciante, os formatos de anúncio que ele escolhe rodar e como os usuários respondem a eles. Além disso, durante a pandemia, há ainda a isenção de pagamento ao Ad Manager.

Como o Google afirma dividir a receita com os publishers (Imagem: Google)

O Google afirma ainda que, ao analisar as informações dos cem maiores editores de notícias do mundo que usam o Ad Manager, concluiu eles ficam com, em média, 95% da receita de publicidade digital gerada quando utilizam a plataforma para exibir propaganda em seus sites. Esse resultado reflete as taxas médias retidas pelo Google – e não inclui taxas que possam ser pagas a outras plataformas e serviços.”

Apoio financeiro aos pequenos e médios veículos durante a pandemia

O Google afirmou ainda ter criado um Fundo de Auxílio Emergencial ao Jornalismo Local. Ele foi lançado para ajudar pequenas e médias publicações e sites de notícia em todo mundo a enfrentarem a crise econômica e a redução de gastos com publicidade resultantes da pandemia de COVID-19. A iniciativa apoia mais de 3.600 pequenas e médias organizações de notícias que produzem conteúdo original para comunidades locais no mundo -- no Brasil, foram 382 empresas jornalísticas distribuídas nas cinco regiões do país. No mundo, o investimento chegou a US$ 39 milhões, sendo US$ 10 milhões voltados exclusivamente para América Latina.

Direcionamento para os sites de notícias

O Google afirma que manda usuários para sites de notícias 24 bilhões de vezes por mês. Com isso, veículos e editoras aumentam seu público e mostram anúncios e ofertas de assinatura a todas essas pessoas. Segundo cálculos feitos pela consultoria Deloitte, cada clique tem valor equivalente a entre 4 e 7 centavos de dólar para os veículos.

Controle dos veículos

O Google afirmou ainda que as editoras de notícias têm diferentes maneiras de ampliar o público que consome seu conteúdo, e o mecanismo de busca é apenas uma delas. Segundo a empresa, os veículos sempre puderam controlar se e como desejam aparecer no Google. Para isso, a companhia diz que oferece configurações detalhadas, que permitem aproveitar ao máximo o valor obtido por meio da Busca e atingir objetivos de negócios.

O Google afirma que os publishers ficam com 95% da receita gerada pelo Ad Manager (Imagem: Google)

Programas de apoio

Pagamento a veículos jornalístico por conteúdos selecionados e com acesso aberto ao leitor e usuário no Google Notícias
Recentemente a empresa anunciou um novo programa de licenciamento, criado para ajudar ainda mais as editoras, que vai pagar pelo conteúdo de um produto de notícias a ser lançado até o final deste ano. Esse projeto inclui pagar aos veículos para que o público tenha acesso a conteúdo protegido por paywall. Já foram assinadas parcerias com veículos da Alemanha, da Austrália e do Brasil – e há conversas com outras publicações para ampliar essa rede nas próximas semanas e meses.


Google News Initiative
A Google News Initiative (GNI), focada no Jornalismo digital, vem apoiando diversas redações no Brasil, pequenas, médias ou grandes. Com esse foco, a empresa afirma que foram treinados mais de 18 mil jornalistas brasileiros desde 2017, além de investimentos de mais de R$ 46 milhões em programas, parcerias e produtos no Brasil desde 2018. Dentro do GNI há projetos como o:

GNI Startup Lab
Em abril 2020, lançamos o Google News Initiative Startup Lab, um projeto pioneiro no Brasil e no Google para apoiar startups de notícias em seus estágios iniciais de desenvolvimento. Essa iniciativa oferece um programa de imersão de 13 semanas no Google for Startups Campus, em São Paulo. O objetivo do GNI Startup Lab é contribuir para a aceleração do ecossistema de notícias no ambiente digital, especialmente em mercados emergentes. Durante o programa, as startups selecionadas receberão até US$ 20.000 (valor bruto) em financiamento e receberão mentoria, treinamento e workshops sobre tópicos como estratégia, produto, modelo de negócios, vendas e marketing, construção de comunidade e captação de recursos. No final do programa, cada startup terá a oportunidade de se apresentar em um Demo Day para potenciais investidores.


GNI 1:1 programs e Labs
Além dessas iniciativas e programas mencionados, através do GNI nós lançamos mais de 15 programas no Brasil ao longo dos úlitmos 18 meses, com objetivo de dar apoio aos publishers nas mais diversas frentes. São projetos 1:1 ou "labs" com grupos de 6 a 10 empresas que promovem imersões e apoio consultivo em temas como Assinaturas, Publicidade, Membership, Dados, Vídeos e aperfeiçoamento de produtos para distribuição de conteúdo.


Desafios da Inovação do GNI
O Desafio de Inovação Google News Initiative (GNI) chegou no Brasil em junho de 2019 e recebeu mais de 300 inscrições, incluindo jornais centenários e nativos digitais recém-criados. Nele, há chamadas abertas para projetos em desenvolvimento por veículos de comunicação de toda a região, que tratem de temas específicos. Dos 30 vencedores de 2019, foi destinado um valor total de R$ 16,5 milhões de reais para o financeiro dos projetos, o Brasil foi o país com maior número de organizações contempladas, com 12.

Apoio a projetos inovadores de organizações jornalísticas e de verificação de fatos
Após a pandemia, o Google afirma ter ampliado o apoio a organizações de checagem de fatos e entidades sem fins lucrativos que buscam assegurar a qualidade das informações sobre COVID-19. Segundo a companhia, esse suporte inclui mais de US$ 6,5 milhões em recursos para essas organizações. No Brasil, o apoio foi oferecido ao Comprova, um grupo colaborativo de verificação de conteúdo enganoso que reúne 24 veículos de comunicação. Além dele, há apoio direto a projetos de agências de checagem como a Aos Fatos e Lupa. Exemplos:

Fonte:  Com informações da Reuters  

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