Por que a Siri ficou pra trás das outras assistentes virtuais?

Por Rafael Rodrigues da Silva | 16 de Junho de 2019 às 09h00
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Desde que a Apple introduziu a Siri nox iPhones em 2011, o uso de assistentes virtuais se tornou uma coisa bastante comum em nossas vidas, e constantemente estamos perguntando para a assistente da Apple, para a Alexa ou para o Google Assistente dicas de novos lugares para almoçar, ou quais foram os resultados do Brasileirão no final de semana. Mas, mesmo tendo sido a primeira assistente virtual, a Siri foi claramente ultrapassada pelas outras, que entendem um maior número de palavras e executam tarefas mais complexas do que ela.

Para entender o motivo disso acontecer, é preciso compreender primeiro o que é uma aplicação de Inteligência Artificial (IA). Quando pensamos em IA, o que costuma vir à mente são aqueles computadores extremamente avançados das histórias de ficção científica, que agem por si só e conseguem conversar como se fossem humanos. De acordo com Joyce Chai, professora de ciências da computação e engenharia da Universidade Michigan State (EUA) esse é o tipo chamado de “IA forte”, que possui sistemas capazes de raciocinar por si só e pode desenvolver atividades da mesma forma que um humano — mas não é esse o tipo de IA usada nas assistentes virtuais.

Entendendo a IA

O que vemos hoje em todos os assistentes, independente da desenvolvedora, é o tipo conhecido como “IA fraca”, que é um algoritmo de computador desenvolvido para responder a comandos específicos e executar certas tarefas, e qualquer coisa que saia do escopo para o qual ele é não é reconhecido pelo sistema. Mesmo as IAs atuais, que utilizam aprendizado de máquina para ampliar sua base de conhecimentos, ainda existem para para executar certas funções e obedecer a certos comandos limitados — ao contrário da IA forte, que teria capacidade de criar uma nova solução para resolver um pedido que não conste em seu banco de dados e aprender sozinha.

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Por isso, quanto maior a quantidade de dados que uma IA tem para analisar, melhor esse programa se tornará, pois conseguirá reconhecer um maior número de comandos para conseguir executar suas tarefas. Por isso, Natalie Schluter, professora associada de TI na Universidade de Copenhague (Dinamarca), alerta que é necessário garantir uma enorme variedade de exemplos de vozes de diversos grupos sociais para se desenvolver um assistente virtual de qualidade. Isso porque cada grupo social tem um modo de falar muito específico por si só, e por isso é necessário que haja essa diversidade para se criar uma assistente que consiga compreender todos os tipos de pessoas. Claro, é possível criar uma assistente que estuda apenas o modo de falar de homens com mais de 50 anos, mas essa assistente hipotética pode acabar não conseguindo reconhecer tão bem os comandos ditos por uma jovem adolescente, pois as sutis diferenças no modo de se expressar, normais e características de cada geração, pode ser o suficiente para fazer com que a IA não consiga reconhecer um comando que, na teoria, foi programada para executar.

Assim, existem diversos motivos pelos quais, no caso de assistentes virtuais, as IAs da Google e da Amazon reconhecem mais comandos de voz e executam mais ações do que a Siri, que foi a pioneira de todas. Mas, no geral, a principal diferença está na própria política de trabalho da Apple.

O modelo Apple

Um dos motivos para a companhia ter “ficado pra trás” no desenvolvimento de sua IA é o fato de a empresa se recusar a fazer gravações da voz dos usuários de seus iPhones e criar um enorme banco de dados para ser estudado por sua IA. Em entrevista recente, Craig Federighi, chefe do setor de desenvolvimento de software da Apple, confirmou que a empresa usava apenas áudios disponibilizados publicamente (como podcasts) para treinar a IA da Siri, e que ainda que isso fornecesse um banco de dados menor e desse mais trabalho do que simplesmente gravar a voz dos usuários do iPhone, a empresa se recusava a fazer isso por respeito à privacidade de seus usuários.

Outro possível motivo seria o fato do próprio processo de trabalho da Apple ser absolutamente secreto. Enquanto engenheiros da Google, da Amazon e de diversas outras companhias do mercado de tecnologia frequentam os mesmos congressos e acabam conversando entre si, trocando experiências que muitas vezes os ajudam a resolver problemas que não conseguiriam sozinhos, toda a equipe de desenvolvimento da Siri trabalha isolada não só dos congressos de tecnologia mas também de outros setores da empresa, comparecendo apenas em eventos organizados pela própria Apple e não conversando sobre seus projetos nem com outros engenheiros da mesma empresa, mas que trabalham em um setor diferente. Essa política de fazer tudo a portas fechadas dificulta que haja vazamentos para a imprensa sobre o que a empresa está trabalhando (não que eles sejam inexistentes, muito pelo contrário), mas também acaba dificultando a solução de problemas que poderiam ser resolvidos mais facilmente ao se compartilhar com um maior número de especialistas da área para tentar uma solução.

Mas a empresa está se esforçando para mudar essa impressão: no ano passado, a Apple contratou John Giannandrea, um renomado cientista da computação da Google que assumiu na Apple o cargo de vice-presidente sênior de aprendizado de máquina e estratégia de IA e, no começo deste ano, contratou Ian Goodfellow, um dos mais renomados pesquisadores de IA da Google, para assumir o cargo de diretor de aprendizado de máquina na empresa.

Essas contratações parecem já ter dado resultados: durante a WWDC nesta semana, a Apple anunciou uma série de atualizações para a Siri que permitirão a desenvolvedores de fora da companhia criar uma maior integração de seus apps com a assistente, além de uma atualização ao sistema de texto para voz, que passa a utilizar uma voz gerada inteiramente por software. Esses tipos de atualizações ao sistema, que começaram a acontecer no ano passado, têm se mostrado benéficas para a IA da Apple, e um estudo sobre assistentes virtuais publicado pela Loup Ventures no fim de 2018 mostrou que a Siri vem rapidamente diminuindo a diferença existente entre ela e as concorrentes.

Mesmo com as melhorias mais recentes, ainda há muito a se fazer para que a Siri se torne a melhor assistente virtual do mercado, mas a Apple parece estar caminhando na direção certa para isso. Segundo Keyvan Mohajer, co-fundador e CEO da SoundHound (uma empresa que também desenvolve o seu próprio assistente virtual para competir com a Siri), a decisão mais acertada da Apple para melhorar a assistente é a de criar uma comunidade de desenvolvedores de fora da Apple para trabalhar com a Siri — algo que começará a acontecer a partir da próxima atualização do iOS. Ele afirma que isso é algo que nenhuma outra empresa conseguiu fazer com sucesso, e se a Apple conseguir acertar onde todas as outras falharam, será o primeiro passo para rapidamente transformar a Siri na melhor assistente virtual do mercado.

Fonte: CNBC

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