Executivo da Apple afirma que companhia não quer transformar privacidade em luxo

Por Rafael Rodrigues da Silva | 28 de Maio de 2019 às 09h53
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No início de maio, Sundar Pichai, CEO da Google, publicou um artigo de opinião no jornal The New York Times defendendo que a privacidade não deveria ser transformada em um artigo de luxo para que apenas pessoas que têm dinheiro para pagar por produtos e serviços mais caros tenham acesso — uma bela de uma indireta para a Apple, que desde o ano passado tem investido bastante na ideia de privacidade para vender os seus produtos e que recentemente começou uma nova campanha de marketing sobre como o iPhone de US$ 999 possuía ferramentas que melhoravam a privacidade de navegação do usuário.

Mas quem parece não ter gostado muito das acusações de a empresa estar transformando a privacidade em artigo de luxo foi Craig Federighi, chefe de software da Apple. Em uma entrevista ao jornal The Independent, Federighi se defendeu da acusação de que Cupertino estava transformando a privacidade em “artigo de luxo”, afirmando que eles querem vender seus produtos não apenas para aqueles que possuem muito dinheiro, mas para o maior número de pessoas possível. Ele defende que os aparelhos da companhia não são “artigos de luxo” e que a diferença no preço de seus aparelhos é devido ao modelo de negócios.

Isso porque a Google escolhe oferecer serviços gratuitos a seus usuários, mas para manter esses negócios ela precisa coletar informações sobre esses usuários, que serão oferecidas a anunciantes para que eles comprem espaço de propaganda nos programas da empresa. Enquanto isso, os produtos da Apple são mais caros, mas isso acontece porque ela os vende no preço que precisam ter e não depende da venda de anúncios para cobrir os seus gastos — e, por isso, não tem interesse em coletar as informações de uso dos aparelhos.

Craig Federighi, chefe do departamento de software da Apple (Imagem: Dieter Bohn/The Verge)

Durante a entrevista, Federighi também falou sobre dois pontos em que a Apple sempre é criticada: o fato de ela manter um servidor do iCloud na China (cujos dados poderiam ser acessados pelo governo do país a qualquer momento) e o fato de ela não coletar tantas informações sobre seus usuários ter deixado ela para trás em termos de desenvolvimento de tecnologias de Inteligência Artificial (IA) — explicando que essas críticas são feitas por aqueles que não sabem exatamente como a empresa funciona.

Sobre o caso do servidor da China, Federighi explica que não há nenhum problema em manter um banco de dados no país se uma empresa utilizar as mesmas técnicas de compressão de arquivos da Apple. Ele revela que como a Apple já coleta poucos dados de seus usuários, e esses dados ainda passam por diversas encriptações e processos de compressão, o que fica armazenado nos bancos de dados é uma informação praticamente inútil para o governo chinês, pois não revela nada que possa ser de interesse a ele ou que possa ser usado para identificar usuários específicos.

Já a ideia de que é preciso coletar muitos dados de seus usuários para construir ferramentas em IA, o executivo considera como uma enorme falácia, e que é possível sim desenvolver esses sistemas sem a necessidade de ficar coletando dados alheios. Por exemplo, ele cita fazer a compra de um catálogo de fotos públicas em serviços equivalentes ao Shutterstock para a criação de bibliotecas que serão usadas para treinar IAs de reconhecimento facial, ou ainda a utilização de arquivos de áudio públicos, como podcasts, para treinar IAs de reconhecimento vocal sem a necessidade de gravar as ligações dos usuários.

Federighi ainda revela que é gratificante ver tantas companhias discutindo sobre a privacidade dos dados de seus usuários, mas que realmente modificar as práticas predatórias de coleta de dados usadas hoje na indústria demandará mais do que alguns releases para a imprensa e discursos em conferências.

Recentemente a Google tem se mostrado cada vez mais preocupada com a privacidade dos dados de seus usuários — muito por conta dos diversos escândalos envolvendo o Facebook, que fizeram os usuários se interessarem mais por esse assunto — e apenas no mês de maio a empresa atualizou a política de privacidade dos dispositivos Nest para que os usuários pudessem compreender melhor o que a companhia fazia com os dados coletados, limitou o monitoramento da navegação para fins de anúncios no Chromes e introduziu um “modo anônimo” para um número maior de apps. Já a Apple continua usando a privacidade dos dados como um argumento de venda para seus smartphones, e deverá falar ainda mais sobre isso no lançamento do iPhone 11 este ano.

Fonte: The Independent

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