O que levar em consideração na hora de montar um PC?

Por Pedro Cipoli

Montar um novo PC envolve mais variáveis do que parece. Ainda que muitos vejam a tarefa como algo simples, já que "basta encaixar os componentes nos seus devidos lugares", a forma como ele é montado influencia bastante tanto na sua durabilidade quanto performance final. Mais do que isso, é necessário projetar corretamente a configuração, o que envolve muita pequisa de preço e necessidade de escolher componentes de forma que um não interfira no funcionamento do outro, checando níveis de performance e compatibilidade entre eles.

Enquanto algumas projeções mostram que "o mercado de PCs está morto", isso não é totalmente verdade. Ele pode até não fazer mais tanto sentido no segmento de entrada, em especial pela baixa de preços de notebooks e tablets nos últimos anos, mas dificilmente entrará em declínio tão cedo no segmento de alto desempenho. Aqui incluímos tanto gamers hardcore quanto usuários profissionais, que precisam de cada GHz e GB que a máquina tenha a oferecer.

Vamos dar algumas dicas para quem está pensando em montar a sua própria máquina, geralmente sabendo para que ela servirá depois de pronta. Nosso foco aqui é o dimensionamento da configuração, mais do que propriamente uma configuração em si, evitando possíveis gargalos e problemas futuros.

Dirigindo o PC

Um bom referencial na hora de dimensionar uma configuração é pensar no PC como um carro: um carro popular possui sua estrutura, freios e aerodinâmica projetados para um motor de um carro popular. Os benefícios de colocar um motor de um carro bem mais avançado são praticamente nulos (aliás, no caso de um carro, até perigoso), já que todo o resto não será capaz de lidar bem com mais potência. Carros possuem variações fixas dentro de um modelo (como o Ford Focus que testamos aqui há algum tempo), e são limitados a elas.

Transferindo essa ideia para um PC, não adianta priorizar somente um componente em detrimento de outros. Colocar um super processador com 2 GB de memória RAM, uma placa de vídeo top de linha com uma CPU de entrada e assim por diante. A regra aqui é equilíbrio, e escolher componentes é uma arte de eliminar gargalos. Dependendo do uso, vale mais um Core i5 com SSD do que um Core i7 com disco rígido, um processador intermediário com uma GPU intermediária do que uma combinação básico/avançada entre eles.

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Focar demais em apenas um componente e esquecer do restante pode prejudicar o conjunto, já que todos os componentes são utilizados em praticamente qualquer tarefa, em maior ou menor escala.

A grande vantagem dos PCs é a sua modularidade, e deve-se tirar proveito dela o máximo quanto possível. Ao contrário da maioria dos notebooks, por exemplo, é possível colocar vários discos funcionando ao mesmo tempo, o que elimina a necessidade de comprar SSDs muito grandes para armazenar os dados pessoais e de sistema. Um SSD menor com um disco rígido para dados permite que o usuário tenha velocidade para abrir aplicativos sem deixar de lado a capacidade de armazenar dados, já que discos de 500 GB ou 1 TB são relativamente baratos atualmente.

Outro ponto é por onde começar. A placa-mãe geralmente é um excelente ponto de partida: escolhe-se a plataforma (AMD ou Intel), soquete (e, consequentemente, a uma lista de CPUs compatíveis) e em seguida o chipset. A escolha do chipset é essencial, pois diz quantos pentes de memória a placa-mãe suporta (chegando a 8 em alguns modelos da Intel), com quantos canais e velocidade máxima de operação, quantidade de portas SATA, slots PCI e todas as variáveis de compatibilidade e performance do PC atual, além de possíveis upgrades.

Para que o PC será utilizado?

Antes de começar a sair por aí escolhendo componentes, é essencial ter em mente qual será a utilidade da configuração. Mais do que isso, qual o nível de performance esperado da máquina e, acreditem, muitos usuários "superdimensionam" as suas necessidades de desempenho. Games talvez seja um dos poucos casos em que qualquer processamento extra seja sempre bem vindo, mas, para a maioria das outras situações, mesmo edição de vídeos e programas CAD, não é necessário comprar o que há de mais rápido por aí.

Claro que comprar uma CPU/GPU mais avançada é sempre bom, mas vale mais comprar uma memória RAM mais rápida e com mais canais de memória, um SSD mais avançado e escolher uma placa-mãe mais avançada do que investir em um processador 20% mais rápido, com ganhos de velocidade bem mais visíveis. Se sobrou dinheiro, vale considerar mais armazenamento ou um sistema de refrigeração melhor, pontos que podem oferecer mais benefícios para o usuário em longo prazo.

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Computadores profissionais contam com sistemas de refrigeração mais sofisticados, já que os componentes geram bastante calor. O mesmo acontece com PCs gamer.

Em dois casos possíveis, vamos pensar em um PC voltado para aplicações profissionais e outro "padrão", voltado para tarefas do dia a dia. No primeiro caso, um processador que tenha no mínimo 4 núcleos é essencial, assim como uma GPU capaz de lidar tranquilamente com edições complexas, tanto agora quanto em um futuro próximo. Filmes em 4K estão se tornando cada vez mais comuns, então investir um pouco mais agora em uma configuração que seja capaz de editar em 4K pode significar uma boa economia em médio prazo.

Fora a configuração, é importante ter um gabinete bem refrigerado para não ter risco de danificar os componentes. Se isso já é algo que deve ser levado em consideração até mesmo em configurações mais básicas, ganha uma importância muito maior nesse caso. Desempenho gera calor, e calor deve sair do gabinete com uma combinação correta de fans. A placa de vídeo deve ser melhor refrigerada também. Um chip em especial (R9 290X, por exemplo) possui implementações de diferentes fabricantes (ASUS, MSI, Gigabyte) com sistemas de refrigeração diferentes, e vale a pena investir um pouco mais em uma implementação melhor.

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Além de silenciosos, PCs com refrigeração passiva juntam menos poeira, exigindo menos manutenção conforme o tempo passa, Além disso, não há o risco de travar o cooler.

No caso do PC para o dia a dia, geralmente são configurações tudo-em-um, capazes tanto de rodar alguns jogos casuais como rodar vídeos em alta definição. O ideal aqui é projetar uma configuração que continue rápida depois de alguns anos, de preferência com SSDs e pelo menos com 8 GB de memória RAM. Como ele será montado, é possível incluir alguns extras bacanas, como um sistema de refrigeração passivo, por exemplo. Algumas GPUs intermediárias são fanless, assim como há coolers de alguns fabricantes que não possuem fans. Isso não só evita o ruído como também diminui os pontos de falha com o tempo, já que não há fan para travar, o que é possível pelo fato do PC não contar com tanto poder de fogo assim.

E a fonte?

Fabricantes costumam colocar informações de consumo de energia de forma bem acessível, permitindo que o usuário saiba a potência da fonte de alimentação que deve usar, e há alguns pontos a se considerar para fazer essa escolha ser melhor ainda. A primeira dica é a já batida afirmação de que fontes que anunciam uma potência real menor do que a total não prestam. Simples assim: não prestam. Algumas são até bizarras, como "450 watts, 220 watts reais", e devem ser evitadas. Aliás, vale a pena anotar o nome do fabricante que vende essas fontes e não comprar nenhum modelo oferecido por ele, nem com potências maiores.

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Fontes modulares trazem duas vantagens: deixam o gabinete mais organizado, com menos cabos soltos, e permitem um fluxo melhor de ar, pois não ficam no caminho.

A segunda é comprar uma fonte que tenha potência suficiente para atender a upgrades futuros, e não somente para lidar com a configuração atual. Se a sua configuração puxa tipicamente 300, 350 watts já com a placa de vídeo, uma fonte de 600 watts garante que praticamente qualquer upgrade não exigirá troca de fonte. Não precisa ir muito longe também. Comprar uma de 1000 watts é desperdiçar dinheiro, ainda que tecnicamente não faça mal para a máquina.

Vale a pena procurar selos de eficiência (80 PLUS Bronze, Silver, Gold e Platinum, TUV, BSMI) e proteções de circuito (SCP, OPP, OVP, OCP, UVP), garantindo não só um melhor aproveitamento de energia, como também que a sua configuração não vai "fritar" com variações na rede elétrica. Entre uma pouco mais potente sem essas características e uma que não tenha tanta potência, mas venha com um selo 80 PLUS com proteções de circuito, vale a pena escolher o segundo caso.

Dicas para economizar

Montar uma configuração é uma corrida espacial: por R$ 50 a mais temos tal recurso, por R$ 100 temos o dobro de núcleo... e, quando vemos, já estamos gastando 2 ou 3 vezes mais. A dica aqui é simples: o custo-benefício aumenta bastante ao sair do básico para o intermediário, mas muito pouco ao sair do intermediário e ir para o segmento de alto desempenho, isso tanto da Intel quanto da AMD. O ganho de desempenho começa a diminuir bastante com o aumento de preços.

Basta ver a variação de preços conforme os processadores avançam. No caso da Intel, sair do Celeron para o Pentium é um pulo, e por algumas dezenas de reais chega-se ao Core i3. Do Core i3 para o Core i5 o preço sobre bastante, mas ainda compensa, agora sair do Core i5 para o Core i7 é dolorido. Os processadores da AMD possuem uma variação semelhante, mas em menor grau, assim como boa parte dos componentes dentro do PC, chegando em um ponto em que dobrar o investimento aumenta muito pouco a performance.

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Outro ponto é deixar margem para um upgrade no futuro. Por exemplo, se a placa de vídeo que você quer comprar não cabe no orçamento, comprar uma mais básica é desperdiçar dinheiro. Intel e AMD (especialmente a AMD com suas APUs) possuem processadores com excelente gráficos integrados, capazes até de rodar alguns games mais avançados nos modelos mais avançados. Vale a pena comprar um e só adquirir a placa de vídeo quando sobrar dinheiro, pois, caso compre um modelo mais básico, ele ficará encostado após o upgrade.

Armazenamento é outra coisa que pode ser deixada para o futuro, já que basta inserir discos novos para aumentar o espaço disponível. Por exemplo, se você tem R$ 500 para gastar com armazenamento, vale a pena comprar um SSD para instalar o sistema e depois ir adicionando discos conforme a demanda. Há SSDs de excelente qualidade nessa faixa de preços com capacidades de 240, 250 ou 256 GB, o suficiente para uma boa quantidade de arquivos e com velocidades bem superiores às de um HD convencional.

Onde NÃO economizar

Começando pela placa-mãe, há alguns lugares em que realmente não vale a pena economizar. Dependendo do chipset, e da geração que você vai comprar, a placa-mãe pode não ter recursos como USB 3.0 ou SATA III, o que pode até não ser tão grave hoje, mas que vai incomodar em um futuro próximo. Além disso, alguns modelos não têm qualidade suficiente para aguentar grandes cargas de trabalho. Se o seu foco é vídeo ou games, o ideal é que ela tenha, pelo menos, capacitores sólidos e dissipadores de qualidade em áreas críticas.

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Temos também o gabinete. A função dele não é somente abrigar os componentes, protegendo-o de impactos externos, mas também oferecer suporte para um bom sistema de resfriamento e eletricamente isolado. Alguns modelos não fornecem nem isso, e outros contam com uma qualidade tão baixa que até rebarbas perigosas possuem. Fuja desses modelos e, de preferência, veja fotos do interior deles, checando a qualidade da construção e o suporte aos componentes que irá utilizar.

Sendo um pouco mais chique, alguns possuem uns extras úteis, como redes que evitam que poeira entre na parte interna. Se puder investir um pouco mais para ter esse extra, vale a pena, diminuindo a necessidade de manutenção em médio prazo. Para finalizar, temos a memória RAM. Dificilmente uma configuração atual não conta com pelo menos o padrão DDR3, e no ano que vem veremos modelos DDR4 chegando ao mercado. As frequências variam bastante, indo de 1066 MHz até mais de 3000 MHz, mas os modelos de qualidade contam com um ponto em especial: o dissipador.

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Ele garante não só que as memórias funcionem com uma temperatura menor, como também as protege fisicamente de pancadas. Mais do que isso, diminui a influência do calor gerado pelos outros componentes (em especial a CPU, geralmente ao lado), garantindo uma via útil muito maior, em especial para configurações mais avançadas. Marcas de qualidade raramente vendem suas memórias sem dissipador, sendo um bom sinal de confiabilidade na hora de comprá-las.