Executivos da Activision Blizzard comentam processo de assédio sexual em e-mails

Executivos da Activision Blizzard comentam processo de assédio sexual em e-mails

Por Felipe Goldenboy | Editado por Bruna Penilhas | 23 de Julho de 2021 às 18h54
Divulgação/Activision Blizzard

Nesta semana, a Activision Blizzard, distribuidora de jogos como Call of Duty, Overwatch e World of Warcfraft, foi processada pelo estado da Califórnia, nos Estados Unidos, por assédio, discriminação e má conduta sexual. Agora, surgiram mais informações sobre o caso: executivos do alto escalão comentaram as acusações em e-mails internos, e relatos apontam que cultura tóxica acontece há anos.

Segundo o jornalista da Bloomberg Jason Schreier, duas lideranças da empresa mandaram dois e-mails diferentes para as equipes — um foi enviado por J. Allen Brack, presidente da Blizzard; o outro, por Frances Townsend, vice-presidente executiva para assuntos corporativos da Activision Blizzard.

No primeiro e-mail, Brack disse que “o comportamento detalhado pelas alegações é completamente inaceitável”, e que ele e os líderes da empresa se encontrariam com colaboradores “para responder perguntas e discutir como podemos seguir adiante”.

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“Eu sinto raiva, tristeza e um misto de outras emoções, mas eu também me sinto grato por trabalhar ao lado de líderes e milhares de funcionários que se juntam a mim em seu compromisso em melhorar sempre”.

J. Allen Brack, presidente da Blizzard (Foto: Divulgação/Activision Blizzard)

Após o envio do e-mail, funcionários da Blizzard resgataram, internamente, um vídeo da BlizzCon 2010 em que Brack e outros desenvolvedores (todos homens) riem de uma mulher pedindo para que as personagens femininas de World of Warcraft fossem menos sexualizadas. Ou seja, a cultura de “frat boy” (garoto de fraternidade, em tradução literal) da empresa é ainda mais antiga e problemática. O termo se refere a homens jovens universitários que alugam uma casa para não se submeter às regras do campus.

"Eu amo que vocês têm várias personagens femininas fortes. Porém, eu estava pensando se poderíamos ter personagens que não parecessem que saíram de um catálogo da Victoria’s Secret", questiona a mulher no vídeo. Parte da plateia começa a aplaudir, mas rapidamente uma vaia toma conta do espaço.

"O que você quer dizer? De qual catálogo você gostaria que elas saíssem?", responde o então o designer líder de sistema, Greg Street. A mulher começa a rir desconfortavelmente.

"Você poderia ver a Sylvanas se parecendo de outra forma?", pergunta Alex Afrasiabi, então designer líder de mundos. Algumas vozes da plateia respondem que não. "Nós entendemos você, e queremos variar nossas personagens femininas. Então, sim, vamos escolher outros catálogos."

Assista ao vídeo (em inglês, a partir de 4:23):

Já Townsend, que entrou na Activision em março deste ano, mandou um e-mail bem diferente, o que deixou alguns funcionários da Blizzard “furiosos”, segundo a Bloomberg. Ela escreveu que o processo “apresentou uma imagem distorcida e falsa de nossa empresa, incluindo histórias factualmente incorretas, antigas e fora de contexto — algumas de mais de uma década atrás”.

“Não podemos permitir que ações escandalosas de terceiros e um processo judicial verdadeiramente sem mérito e irresponsável prejudiquem nossa cultura de respeito e oportunidades iguais para todos os funcionários.”

Vale lembrar que, antes de trabalhar na Activision, Frances atuou consultora do Departamento de Segurança Nacional no segundo mandato de George W. Bush, ex-presidente dos Estados Unidos, para coordenar a campanha da “guerra ao terror”. Ela era abertamente a favor de “técnicas aprimoradas de interrogatório”.

Frances Townsend, vice-presidente executiva para assuntos corporativos da Activision (Foto: Divulgação/Activision Blizzard)

Activision pressionou a Blizzard por dinheiro

Nesta sexta-feira (23), Jason Schreier também publicou uma reportagem com detalhes sobre a tensão nos bastidores da Activision Blizzard.

O texto conta que a Activision passou os últimos anos pressionando a Blizzard por mudanças no processo de desenvolvimento de jogos — e não na cultura tóxica. Essa coação resultou em cortes de gastos e foco em apenas grandes projetos.

Schreier cita o fechamento do escritório da Blizzard na França. A empresa divulgou uma carta interna contando o porquê de ter que demitir todos os funcionários, e citou alguns motivos que mostram os próximos passos da Activision Blizzard na totalidade:

  • O quadro de desenvolvedores de games da Blizzard era muito menor que o da Ubisoft ou da Take-Two, por exemplo;
  • Em 2019, apenas 40% dos lucros da Blizzard vinham de microtransações, sendo que a média da indústria era de 78%;
  • Também em 2019, somente 12% dos lucros da empresa vieram de jogos mobile, enquanto outras empresas tinham mais da metade dos seus lucros com celular.

Funcionários da Blizzard também sentiram que a lógica de “fazer grandes jogos para fazer dinheiro” estava mudando para “se preocupar com dinheiro o tempo todo”. Isso ficava claro quando, por exemplo, os almoços pagos pela empresa acabaram, ou quando pessoas da área de finanças participavam de reuniões não relacionadas a dinheiro.

A Activision também não estava satisfeita com a gestão de Mike Morhaime, o cofundador e ex-CEO da Blizzard. O cancelamento do jogo online Titan foi o estopim para que a Activision exercesse mais controle: em 2018, quando Morhaime saiu, o seu sucessor J. Allen Brack foi nomeado presidente em vez de CEO — segundo o jornalista, “um reflexo do poder e autonomia reduzidos da Blizzard”. Agora, Bobby Kotick, chefe da Activision, é o único CEO da Activision Blizzard.

Fonte: Bloomberg, Jason Schreier (Twitter)

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