Activision Blizzard é processada por assédio, discriminação e má conduta sexual

Por Felipe Goldenboy | Editado por Bruna Penilhas | 22 de Julho de 2021 às 12h01

A Activision Blizzard, distribuidora de jogos como Call of Duty, Overwatch e World of Warcfraft, foi processada pelo estado da California, nos Estados Unidos, por manter uma cultura de assédio sexual, remuneração desigual e retaliação constantes entre seus trabalhadores. O texto cita até o suicídio de uma funcionária. A empresa nega as acusações.

A ação foi apresentada pelo DFEH (Departamento de Emprego e Habitação Justos da Califórnia, em tradução livre) ao Tribunal Superior de Los Angeles no dia 20 de julho, e tem como base uma investigação em andamento desde 2018. O documento aponta que até os executivos do alto escalão participavam ou estavam cientes dos casos.

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Atenção: o texto a seguir pode conter gatilhos de assédio sexual, racismo, estupro e suicídio.

O processo alega que a Activision Blizzard incentiva a cultura de “frat boy” (menino de fraternidade, em tradução literal). O termo faz referência a grupos de homens jovens e universitários que alugam uma casa juntos, para não precisarem morar dentro do campus e se submeter às regras da universidade.

O texto cita que as funcionárias são submetidas a “cube crawls”, em que os homens bebem grandes quantidades de álcool e, literalmente, rastejam até as mesas das mulheres e fazem “comportamentos inadequados” em relação a elas.

“Funcionários do sexo masculino, com orgulho, chegam no trabalho de ressaca e jogam videogame por longos períodos, enquanto delegam suas responsabilidades às funcionárias do sexo feminino, brincam sobre seus encontros sexuais, falam abertamente sobre corpos femininos e fazem piadas sobre estupro”.

Várias mulheres relataram que a empresa não pagava salários iguais e que promovia homens “com as mesmas experiências ou qualificações, mas que eram amigos dos chefes”. Outro parágrafo conta que “um supervisor homem recém-promovido delegou suas responsabilidades às suas novas subordinadas mulheres para que ele pudesse jogar Call of Duty", enquanto que "outros se recusaram a se comunicar com mulheres, preferindo se dirigir aos colegas homens para obter informações”.

O caso mais grave diz que uma funcionária cometeu suicídio durante uma viagem empresarial com seu supervisor. Segundo a polícia, ele levou pra viagem um plug anal e um lubrificante. A mulher também havia sofrido assédio dos colegas: na última festa da empresa antes da sua morte, ela teve fotos da sua vagina vazadas e distribuídas entre os funcionários homens.

Outro trecho aponta que as funcionárias mães recebiam feedbacks negativos por estarem de licença-maternidade ou saíam para buscar seus filhos:

“Os supervisores ignoraram as restrições médicas dadas às funcionárias e lhes deram avaliações negativas enquanto estavam em licença-maternidade. Outras funcionárias relataram que foram criticadas por saírem para buscar seus filhos na creche, enquanto que seus colegas do sexo masculino jogavam videogame. Funcionárias foram expulsas das salas de amamentação para que outros pudessem usar a sala para reuniões.”

O racismo contra mulheres negras também era recorrente: uma funcionária relatou que demorou dois anos para ser contratada fixa, enquanto que outros homens, que chegaram à empresa depois dela, foram contratados antes. A mesma pessoa também disse que seu chefe “ligava para verificar se ela tinha feito uma pausa ou dado uma caminhada”, mesmo que outros homens jogassem videogame sem quaisquer interrupções.

Outra funcionária negra, que trabalhava no setor de T.I. (tecnologia da informação), disse que, quando pediu uma folga ao seu chefe, foi obrigada a escrever um “resumo de uma página de como ela gastaria aquele tempo livre”. Isso não foi pedido a outros funcionários.

Por fim, o governo alega que a “Activision Blizzard falhou em tomar todas as medidas razoáveis para prevenir discriminação, assédio ou retaliação ilegais”. O processo busca uma liminar que force a empresa a cumprir as leis de proteção de trabalho, além de realizar ajustes salariais e regularizar todos os salários e benefícios não pagos ou atrasados.

O que a Activision Blizzard diz

A empresa respondeu às denúncias através de um comunicado enviado ao The Verge e outros sites internacionais, dizendo que as acusações são “distorcidas” e, em muitos casos, falsas do passado da Blizzard”. O texto diz que eles fizeram “mudanças significativas para direcionar a cultura da empresa e refletir mais diversidade em nossas equipes de liderança”.

“Atualizamos nosso Código de Conduta para enfatizar um foco estrito de não retaliação, ampliamos programas e canais internos para que os funcionários possam relatar violações, incluindo a 'Lista ASK' com uma linha direta e confidencial, e contratamos uma equipe de Relações com Funcionários dedicada a investigar as preocupações dos funcionários [...] Os funcionários também devem passar por treinamento antiassédio regular há muitos anos.”

Eles também se mostraram “enojados” pelo processo citar o suicídio de uma funcionária “cujo falecimento não tem qualquer relação com este caso, e sem qualquer consideração por sua família em luto”.

O comunicado ainda afirma: "Embora consideremos esse comportamento vergonhoso e pouco profissional, infelizmente é um exemplo de como eles se comportaram ao longo da investigação. É esse tipo de comportamento irresponsável de burocratas estaduais inexplicáveis que está expulsando muitos dos melhores negócios do estado da Califórnia”.

Fonte: Bloomberg Law, Kotaku, documento original (em .pdf)

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