De salvador do Xbox One ao Game Pass: o legado de Phil Spencer após 12 anos
Por Gabriel Cavalheiro • Editado por Jones Oliveira |

Phil Spencer não é mais o chefe do Xbox. O executivo se tornou a cara da marca na última década e, apesar das falhas recentes, sempre foi visto com bons olhos pela comunidade.
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Spencer foi responsável, entre inúmeros feitos, por resgatar a marca do lançamento desastroso do Xbox One e pela criação do Xbox Game Pass, serviço que garantiu acessibilidade aos jogos por um preço razoável (pelo menos antes do último aumento) e forçou as concorrentes a adotarem serviços parecidos.
Ao todo, o executivo ocupou um cargo de liderança no Xbox por 12 anos. Spencer fez carreira na Microsoft ao ingressar na companhia como estagiário há 38 anos e marcou para sempre a indústria dos videogames. Mas, afinal, qual o legado que o ex-chefão do Xbox deixou com sua saída no 25º aniversário da marca?
A redenção de Xbox One
Todos se recordam da desastrosa apresentação do Xbox One em 2013, liderada por ninguém menos que o ex-presidente da divisão Interactive Entertainment Business da Microsoft, Don Mattrick. Os jogadores saíram da cerimônia sem entender se o console de oitava geração da Microsoft era um videogame ou um aparelho de TV.
Na época, Phil Spencer atuava como líder dos estúdios de jogos da Microsoft e recebeu diversos comentários negativos de funcionários do Xbox, que se sentiram traídos por Mattrick ao apresentar o Xbox One como algo que ele não era (pelo visto, ele não aprendeu nada com o 3DO duas décadas antes).
Além da apresentação que quase custou a vida da marca, outras medidas, como 'Always online', limitação de mídia física usada e o bundle do Xbox One com Kinect 2.0, que deixava o hardware ainda mais caro, completaram a receita do bolo amargo da Microsoft para jogos.
Em 2014, Phil Spencer assumiu a divisão Xbox e, logo de início, começou a trabalhar no famoso programa de retrocompatibilidade, que é um dos pilares dos consoles Xbox até hoje.
Outra medida importante de Phil Spencer foi desvincular a obrigatoriedade do Kinect 2.0 no Xbox One, o que permitiu uma redução de US$ 100, tornando o console mais competitivo contra o PlayStation 4. O executivo ainda tomou várias outras decisões, como o lançamento dos consoles mid-gen Xbox One X e S, o que revitalizou a geração da Microsoft e promoveu mudanças que melhoraram, e muito, a imagem da marca.
Spencer revelou mais tarde que os problemas do Xbox One aconteceram em uma geração que a Microsoft não poderia perder. Muitos reflexos do fracasso retumbante do hardware são sentidos até hoje.
O serviço que mudou a forma como consumimos jogos
Ainda durante a era do Xbox One, Phil Spencer coordenou a criação e o lançamento do serviço que mudaria para sempre a forma como os jogadores consomem videogames: o Xbox Game Pass, um plano de assinatura que oferece um catálogo com centenas de jogos.
Essa verdadeira "Netflix dos Games" foi lançada em 2017 e representou uma quebra de paradigma gigantesca na indústria. O público passou a ter ao seu dispor uma variedade de títulos em gênero, tamanho e escopo capaz de suprir as demandas de grande parte dos jogadores.
Um dos maiores diferenciais do Xbox Game Pass até hoje é o lançamento de jogos first-party day-one. Todo jogo produzido por um estúdio da Microsoft chega no lançamento ao serviço, fidelizando ainda mais fãs de longa data. Toda essa inovação forçou as concorrentes, como a PlayStation, a adotarem um sistema parecido.
Durante esse período, outros recursos, como o Xbox Play Anywhere, foram introduzidos. A funcionalidade permite comprar um jogo no Xbox e jogá-lo em qualquer outro aparelho do ecossistema da Microsoft. A mudança aconteceu no mesmo momento em que Spencer derrubou os muros da exclusividade e iniciou o lançamento de jogos first-party para o PC.
Contudo, o Xbox One sofria de um problema que inevitavelmente acabou afetando o Xbox Game Pass por um tempo: a quantidade de exclusivos, algo que, mais tarde, Spencer e sua equipe resolveriam.
Expansão do Xbox Game Studios
O ex-chefe da divisão de games da Microsoft liderou uma verdadeira marcha de aquisições com foco em expandir o catálogo de jogos exclusivos e first-party do Xbox.
Na E3 de 2018, Phil Spencer subiu ao palco e anunciou a aquisição de quatro estúdios: Compulsion Games (We Happy Few, South of Midnight), Undead Labs (State of Decay), Ninja Theory (Hellblade) e nada menos que a Playground Games (Forza Horizon). Na ocasião, também foi formada a The Initiative, estúdio extinto no ano passado junto com o reboot de Perfect Dark. Ainda em 2018, foram incorporadas ao Xbox Game Studios as produtoras de RPG inXile Entertainment e Obsidian Entertainment.
Um ano mais tarde, a Microsoft anunciava a aquisição da Double Fine Productions, aumentando o número de estúdios sob o seu comando. Não podemos olhar para essas aquisições como meras compras aleatórias. Apesar de ainda não ser claro o papel da Undead Labs e da The Initiative no ecossistema do Xbox, as outras desenvolvedoras desempenham funções importantes no plano de Phil Spencer.
A Playground Games é vista como a Insomniac ou a Naughty Dog do Xbox, entregando um pedigree monstruoso e dominando a geração Xbox Series com Forza Horizon 5. O estúdio promete entregar ainda mais com Forza Horizon 6 e o reboot de Fable, este último, que impressionou muitos jogadores quando deu as caras no Xbox Developer Direct.
Lembra que um dos pilares do Xbox Game Pass era a diversidade de jogos e gêneros? Bem, a Compulsion Games e a Double Fine, assim como outros estúdios, desempenham um papel fundamental para enriquecer o serviço com experiências diferenciadas.
A criadora de Hellblade, a Ninja Theory, provou ser um verdadeiro centro de Pesquisa & Desenvolvimento do Xbox com Hellblade II e promete ser uma carta na manga da empresa em relação à integração de IA nos jogos. Claro que IA e jogos têm sido muito debatidos entre jogadores e desenvolvedores, mostrando uma tonelada de malefícios ante pouquíssimos benefícios para consumidores e trabalhadores. Contudo, não podemos descartar o reconhecimento e o tato tecnológico do estúdio sediado no Reino Unido.
Já a inXile Entertainment e a Obsidian Entertainment vieram para somar no quesito RPG. Ambas as desenvolvedoras já eram muito bem conhecidas na indústria por seus projetos anteriores e agregam muito valor e diversidade ao Xbox Game Pass.
Em 2021, a Microsoft adquiriu a ZeniMax Media em um negócio de US$ 7,5 bilhões. Com isso, o Xbox levou no pacote a Bethesda, id Software e Arkane, além de IPs como DOOM, Fallout e The Elder Scrolls. Poucos dias após a compra, a empresa começou a integrar alguns dos jogos da Bethesda ao Xbox Game Pass, subindo, e muito, o valor agregado do serviço, além de elevar a Microsoft a outro patamar em questão de poderio de estúdios e publicação de jogos.
Dois anos mais tarde, a companhia fechava o maior acordo do setor de entretenimento de todos os tempos até o momento ao adquirir a Activision Blizzard King pela bagatela de US$ 68,7 bilhões, trazendo Call of Duty, Diablo, World of Warcraft e inúmeras outras franquias para o lado verde da força.
Muitos culpam essa aquisição como o principal ponto de ruptura para a queda do Xbox, apesar da receita geral da divisão de games crescer graças à fusão.
Erros de Phil Spencer
Como nem tudo são flores, não podemos esquecer que Phil Spencer cometeu muitos erros durante sua gestão do Xbox, em especial nos últimos anos. A aquisição da Activision Blizzard se mostrou rapidamente uma maldição para a marca, em especial por chamar a atenção da alta cúpula da Microsoft para o negócio de jogos (afinal, estamos falando de US$ 70 bilhões).
Os grandes lançamentos como Hi-Fi RUSH e Starfield em 2023, não foram o suficiente para evitar que a gestão de Phil Spencer fechasse quatro estúdios no ano seguinte, entre eles a Tango Gameworks. As demissões não pararam por aí. A divisão foi vítima de cortes massivos de funcionários subsequentes, o que levou a inúmeros cancelamentos de jogos e à perda cada vez maior da confiança dos jogadores e desenvolvedores.
Foi nesse mesmo ano que Spencer, Sarah Bond e Matt Booty se uniram no Xbox Podcast para revelar a nova estratégia multiplataforma da marca. O novo modelo de negócios levou jogos first-party, até então exclusivos de Xbox e PC, para plataformas rivais, como PlayStation e Nintendo Switch. O golpe foi sentido principalmente no hardware. A linha Xbox Series vem sofrendo quedas trimestrais em receita há três anos fiscais e o cenário não deve mudar tão cedo.
O foco em serviços e nuvem também não ajudou em nada na venda de consoles, com a divisão abandonando a estratégia tradicional do mercado para alcançar usuários em todo tipo de dispositivo. A campanha "Isso é um Xbox" foi vista com maus olhos pelos jogadores e pela mídia, tornando-se um dos piores legados para a imagem pública do Xbox.
Por fim, Spencer também estava no comando quando a companhia extrapolou no aumento de preços de seus serviços. O Xbox Game Pass, por exemplo, passou por dois reajustes desde a compra da Activision Blizzard, com o último elevando o preço do plano Ultimate para R$ 120/mês.
Além disso, os consoles da marca também sofreram encarecimentos expressivos no Brasil e no mundo. Achar um Xbox Series X é uma tarefa difícil; achá-lo barato é simplesmente impossível. Tudo isso foi acompanhado pelo fim das mídias físicas e pela dificuldade do Xbox em emplacar um system seller de peso após Forza Horizon 5.
O executivo se envolveu em várias polêmicas nos últimos anos, principalmente ao fazer afirmações — como na ocasião do Xbox multiplataforma — e logo depois voltar atrás, fruto do caos interno da Microsoft e da dificuldade em alinhar os planos com o marketing.
Phil Spencer marca o fim de uma era
Apesar de seus últimos momentos no Xbox ficarem marcados por uma percepção negativa da marca, o que o anúncio de sua aposentadoria amarga, Phil Spencer sempre pareceu ser realmente apaixonado por jogos e pelos negócios da indústria. O executivo liderou diversos feitos, tornando-se um dos maiores agentes de mudança do mercado na última década.
Do Xbox One ao Xbox Game Pass, podemos afirmar que Spencer evitou que a marca caísse num abismo e fosse descontinuada pela Microsoft. Dado o histórico da Big Tech com seus produtos voltados para o consumidor, cogitar essa possibilidade não era nenhuma louca descabida.
Não à toa, a saída de Phil Spencer da liderança do Xbox ficou marcada por vários elogios à sua gestão e por agradecimentos de jogadores, desenvolvedores e parceiros. Agora, basta saber se a nova CEO da divisão de games da Microsoft, Asha Sharma, conseguirá carregar o legado deixado por Spencer.
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