Última mensagem do Opportunity: "Minha bateria está fraca e está escurecendo"

Por Patrícia Gnipper | 14 de Fevereiro de 2019 às 16h26
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Com o fim da missão do Opportunity em Marte, ficam sentimentos mistos de gratidão e admiração (pelo fato de o rover ter durado 15 anos, quando foi projetado para funcionar por apenas 90 dias), com tristeza e frustração. É que talvez o robô exploratório continuasse "vivo" se não tivesse sido seriamente afetado por uma intensa tempestade de poeira que cobriu o Planeta Vermelho em junho do ano passado e, em sua última mensagem para a NASA, o Opportunity basicamente disse: "Minha bateria está fraca e está escurecendo".

Ainda assim, a equipe da missão não desistiu de reviver o rover, tentando tudo a seu alcance para descobrir (e reverter) o que estava de fato impedindo o robô de se comunicar conosco. Foram 8 meses de tentativas incansáveis e mais de mil comandos de recuperação enviados, até que a última gota de esperança se foi e, então, a agência espacial não viu mais possibilidade alguma de retomar contato com o Opportunity, que explorou Marte nos últimos 15 anos, decretando o fim oficial de sua missão na última quarta-feira (13).

No dia 10 de junho de 2018, a tempestade de poeira impediu a chegada dos raios solares à superfície do planeta, o que fez com que as baterias solares do rover não fossem mais alimentadas. Ele continuou operando usando a reserva energética em modo de economia de energia, mas a tempestade demorou demais para se dissipar, fazendo com que os dias se parecessem com as noites. E, naquele dia, o Opportunity registrou uma imagem que acabou se tornando sua última:

A visão do Opportunity em meio à tempestade de poeira, fazendo com que o dia ficasse completamente escuro (Foto: NASA)

"Esta foi a última imagem que tiramos. Aqui vemos uma quantidade incrivelmente pequena de luz solar — 0,002% da luz normal. Se você estivesse lá, seria como no fim do crepúsculo. Seu olho humano ainda seria capaz de distinguir algumas características, mas estaria tudo muito escuro", explicou Bill Nelson, chefe da equipe de engenheiros da missão do Opportunity.

Na foto, a estática branca em meio ao fundo preto é apenas o ruído causado pelo fato de a câmera estar operando no modo escuro (como uma foto de seu smartphone quando tirada em ambientes quase sem luz). Já a faixa preta na parte de baixo da imagem são dados inacessíveis, que não conseguiram chegar à Terra após a transmissão. Se naquele momento a tempestade não existisse, essa foto mostraria um vale de Marte chamado Perseverance Valley (ou "Vale da Perseverança"), que se tornou o local de descanso final do Opportunity.

Em 15 anos, o Opportunity andou por mais de 45 quilômetros e tirou mais de 20 mil fotos de Marte, e uma das favoritas de Nelson é esta abaixo que mostra a sombra do rover, sozinho em meio a um belo cenário marciano:

(Foto: NASA)

Sua "morte" traz uma sensação de pesar quase como se o Opportunity fosse uma pessoa de verdade, mas ainda que ele tenha sido um ícone na ciência da exploração planetária, nos ensinando muito sobre nosso vizinho espacial, "qualquer perda que sentimos agora deve ser temperada com o conhecimento de que o legado do Opportunity continua — tanto na superfície de Marte com o Curiosity e a InSight, quando nas salas do JPL, onde o próximo rover Mars 2020 está tomando forma", nas palavras de Thomas Zurbuchen, diretor da missão.

Grandes feitos do Opportunity

Desembarcando em Marte em 24 de janeiro de 2004, o Opportunity era um irmão gêmeo do Spirit, rover que pousou por lá apenas 20 dias antes e percorreu 8 km até que parou de funcionar em 2011. Seguindo então em "carreira solo", o Opportunity não somente fotografou paisagens marcianas, como também limpou com um pincel dezenas de regiões para uma inspeção meticulosa por meio de espectrômetros e análises microscópicas.

Em seu local de pouso, descobriu a existência de hematita, mineral que se forma na água e, graças ao Opportunity, descobrimos indícios de que na Cratera Endeavour um dia água líquida agiu de maneira semelhante à água potável de alguma lagoa na Terra. E esse era justamente um dos objetivos da missão: buscar evidências históricas do clima marciano e comprovar que, um dia, Marte já abrigou água líquida assim como temos na Terra.

"Quando você combina as descobertas do Opportunity com as do Spirit, elas nos mostram que o antigo Marte era um lugar muito diferente de hoje, que é um mundo frio, seco e desolado. Mas se você olhar para seu passado, encontrará evidências convincentes para a existência de água líquida na superfície", explicou Steve Squyres, da universidade Cornell.

(Imagem: NASA)

O Opportunity foi o primeiro rover a identificar e caracterizar rochas sedimentares em um planeta diferente da Terra, e trabalhou em Marte mais do que qualquer outro robô até então, sendo o atual detentor deste recorde. O Curiosity está em Marte desde 2012, vale lembrar, e a sonda InSight pousou por lá apenas no ano passado.

O rover também se revelou um exímio documentarista, registrando imagens que nos proporcionaram a sensação de estarmos vendo Marte com a escala humana, o que não é possível de se fazer com sondas orbitais que também fotografam o planeta (só que do alto). Juntos, Opportunity e Spirit enviaram mais de 342 mil imagens brutas, que foram processadas e divulgadas ao mundo ao longo de suas missões. Foram produzidas 31 imagens panorâmicas em cores, dando-nos visões de 360 graus da paisagem marciana.

Também graças à longevidade do Opportunity, os especialistas da NASA conseguiram aprender muito sobre como explorar outro planeta à distância usando um jipe do tipo, já que o Opportunity precisou superar uma série de desafios e imprevistos ao longo desses 15 anos. Alguns exemplos: uma de suas rodas dianteiras às vezes ficava desregulada, com os engenheiros precisando fazer manobras emergenciais para que ele não caísse; o terreno traiçoeiro exigiu a criação de novas estratégias para que o rover não ficasse preso ou escorregasse; e em 2007 o rover enfrentou sua primeira grande tempestade de poeira, que também impediu a captação de luz solar, ainda que esta tenha se dissipado em tempo para que o robô segurasse a onda.

E com o sucesso do programa Mars Exploration Rovers, a NASA ganhou muito mais expertise para construir novos robôs. No ano que vem, a agência enviará o rover Mars 2020 para continuar o legado da dupla Opportunity e Spirit, sendo que este novo rover vem sendo aprimorado com os aprendizados obtidos nas missões anteriores, e contará com inteligência artificial para ser capaz de tomar algumas decisões sozinho, continuando sua exploração sem depender exclusivamente dos comandos enviados daqui da Terra.

E, como uma homenagem ao finado Opportunity, a NASA colocou no ar uma página em que os especialistas da missão compartilham suas histórias e momentos preferidos da história do rover, mostrando as fotos de cada momento e suas explicações científicas, também dizendo por que tais histórias são as preferidas de cada um.

Fonte: NASA (1) e (2), Mashable, ABC7Chicago

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