Quem foi o primeiro astronauta brasileiro?

Quem foi o primeiro astronauta brasileiro?

Por Wyllian Torres | Editado por Patrícia Gnipper | 26 de Novembro de 2021 às 18h40
Domínio Público

Mais de 560 pessoas já foram para o espaço, ultrapassando a barreira da atmosfera terrestre. Entre elas está um brasileiro, que se tornou astronauta há 15 anos e teve a oportunidade de observar a curvatura da Terra vista da Estação Espacial Internacional (ISS). Mas quem foi o primeiro astronauta brasileiro?

Em 2006, a Missão Centenário, fruto de uma parceria entre a Agência Espacial Brasileira (AEB) e a agência espacial russa (Roscosmos), levou ao espaço Marcos Pontes, atual Ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTI) e, até agora, o único astronauta brasileiro a visitar a ISS. Durante sua estadia, ele realizou alguns experimentos científicos no ambiente de microgravidade, desenvolvidos por instituições brasileiras.

O primeiro astronauta brasileiro

Bem antes de assumir a liderança do MCTI em 2018, Marcos Pontes percorreu uma trajetória profissional que o levaria a se tornar o primeiro brasileiro a sair da Terra. Natural da cidade paulista de Bauru, Pontes possui bacharelado em tecnologia aeronáutica pela Academia da Força Aérea (AFA).

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Marcos Pontes é o 22º Ministro da Ciência, Tecnologia e Inovações e o primeiro astronauta brasileiro (Imagem: Reprodução/EBC)

Além disso, ele é graduado em engenharia aeroespacial pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) de São José dos Campos, em São Paulo, e mestre em engenharia de sistemas pela Naval Postgraduate School, na Califórnia. Em seu tempo como piloto da Força Aérea Brasileira (FAB), Pontes acumulou mais de 2.000 horas de voos realizados em 25 naves diferentes.

Mas, apesar de toda a qualificação técnica e teórica, nenhuma delas conferia a Pontes o título de astronauta — formação esta que ele alcançaria apenas com a NASA.

Marcos Pontes foi treinado pela NASA

Graças ao Acordo Intergovernamental da Estação Espacial Internacional, criado em 1998 para garantir um compromisso entre as 15 nações interessadas em participar da construção do laboratório orbital, o Brasil tinha o direito a candidatar um brasileiro ao programa espacial dos Estados Unidos. Em junho daquele mesmo ano, Pontes foi selecionado pela NASA.

Marcos Pontes ingressou na turma de formação de astronautas da NASA em 1998 (Imagem: Reprodução/Domínio Público)

No entanto, antes de se graduar como um verdadeiro astronauta, ele precisou realizar uma série de treinamentos obrigatórios. Então, em agosto de 1998, Pontes iniciou seu preparatório no Centro Espacial Lyndon B. Johnson, da agência norte-americana.

Ali, ele fez parte de Grupo 17 para treinamento de astronautas da NASA — turma também conhecida como “Os Pinguins”. Em dezembro de 2000, ao fim deste curso preparatório, o brasileiro foi finalmente declarado um astronauta da agência espacial estadunidense, ficando pronto para decolar em direção ao espaço.

O Grupo 17 de astronautas da NASA era formado por 31 candidatos, entre eles o astronauta brasileiro (Imagem: Reprodução/Domínio Público)

Inicialmente, Pontes voaria à ISS em 2001 para participar da construção da estação orbital. O objetivo deste voo seria o de transportar e instalar um módulo de responsabilidade brasileira, chamado Express Pallet. Então, uma série de atrasos por parte do Brasil adiou a missão para 2003.

Próximo à nova data, o Brasil ainda apresentava dificuldades financeiras e técnicas para entregar o módulo que se comprometido a construir — problemas estes que apontavam para um novo adiamento. Inevitavelmente, a missão foi suspensa em partes por conta do trágico acidente envolvendo o ônibus espacial Columbia, em fevereiro de 2003.

Entra em cena a Missão Centenário

O ônibus espacial da NASA era o principal meio de lançar astronautas ao espaço naquela época, mas o acidente de 2003 levou a agência estadunidense a suspender todos os voos programados por tempo indeterminado. Mais uma vez, o Brasil precisaria aguardar por uma nova chance de ultrapassar a atmosfera terrestre.

A partir da esquerda, o astronauta brasileiro Marcos Pontes, seguido pelo astronauta da NASA Jeffrey Williams, e o cosmonauta Pavel Vinogradov (Imagem: Reprodução/Domínio Público)

Então, em outubro de 2005, a AEB e a Roscosmos firmaram um contrato no qual a agência brasileira investiria US$ 10 milhões para voar a bordo da nave russa Soyuz. Assim, surgiu a Missão Centenário, cujo nome é uma referência aos 100 anos do primeiro voo tripulado de uma aeronave — a 14 Bis, cujo voo foi protagonizado pelo também brasileiro Santos Drumont, em outubro de 1906.

Pontes, então, foi preparado na Cidade das Estrelas, nome do centro de treinamento para cosmonautas perto de Moscou. No dia 29 de março de 2006, a tripulação formada por Pontes, Jeffrey Williams (astronauta da NASA) e o cosmonauta Pavel Vinogradov, foi lançada ao espaço a bordo da nave Soyuz TMA-8, a partir do Centro de Lançamentos de Baikonur, no Cazaquistão.

A insígnia da Missão Centenário foi produzida pela parceria entre o MCTI, Secretaria Especial de Comunicação (SECOM) e AEB (Imagem: Domínio Público)

O lançamento foi um sucesso e, pela primeira vez, um brasileiro alcançara a órbita da Terra. Pontes levou consigo cerca de 15 kg de cargas da AEB, as quais incluíam oito experimentos científicos desenvolvidos por universidades e institutos de pesquisa brasileiros, que seriam testados pelo astronauta durante sua estadia na ISS.

Os estudos incluíam desde a germinação de sementes até a avaliação de danos e reparos do DNA — tudo sob as condições de microgravidade da estação. Alguns projetos educacionais conduzidos por Pontes no espaço, como o cultivo de sementes de feijão, foram acompanhados por alunos de escolas de São José dos Campos por meio da internet, ao mesmo tempo em que estes realizavam as mesmas experiências na Terra.

Lançamento da nave Soyuz TMA-8, a partir do Cazaquistão (Imagem: Reprodução/Domínio Público)

Marcos Pontes foi o segundo dos três tripulantes a desembarcar na ISS, representando a nossa nação com a bandeira do Brasil que carregava em mãos — a qual o acompanhou durante toda a missão, até seu retorno à Terra.

De volta à Terra

Ao todo, a Missão Centenário durou pouco mais de 9 dias — em dois deles, Pontes passou a bordo da espaçonave —, período este que proporcionou ao astronauta brasileiro orbitar a Terra 155 vezes. O astronauta brasileiro retornou ao planeta no dia 8 de abril de 2006, a bordo da nave russa Soyuz TMA-7 e acompanhado por dois tripulantes da Expedição 12: o russo Valery Tokarev e o norte-americano William McArthur.

Marcos Pontes pousou no dia 8 de abril de 2006, acompanhado por outros dois tripulantes da Expedição 12 (Imagem: Reprodução/Domínio Público)

Após o pouso no Casaquistão, eles precisaram passar por um período de readaptação à gravidade — afinal, foram quase dez dias com seus corpos submetidos à sensação de ausência de peso. Em seu livro Missão Cumprida (2001), publicado pela editora Chris McHilliard, Pontes relata toda sua experiência como sendo o primeiro e o único astronauta brasileiro — até então.

Quem será o próximo astronauta brasileiro?

Em entrevista ao Canaltech concedida em julho de 2021, o presidente da AEB, Carlos Moura, relatou que o atual orçamento da agência não permitia planejar novas atividades espaciais como a protagonizada por Marcos Pontes. Mas "mesmo não havendo, ainda, uma retomada de atividades tripuladas em nosso programa espacial, tem muita gente motivada com o envolvimento de seres humanos em missões desse tipo", acrescentou.

À esquerda, Marcos Pontes e, à direita, o então administrador da NASA durante assinatura intenção de participação do Brasil no Acordo Artemis, em dezembro de 2020 (Imagem: Reprodução/U.S. Embassy Brasilia/NASA)

Após mais de 15 anos da realização deste feito inédito, Pontes permanece como único astronauta brasileiro da história. Será que vai demorar muito para isso mudar? Espera-se que não — até porque, em junho de 2021, o MCTI assinou a participação do Brasil nos dos Acordos Artemis, um compromisso de colaborar com a NASA no retorno da humanidade à Lua, por meio do Programa Artemis, que prevê a exploração humana de nosso satélite natural de maneira permanente e sustentável.

Fonte: NASA; AEB; Space Facts

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