Que iniciativas espaciais estão sendo desenvolvidas na América Latina?

Que iniciativas espaciais estão sendo desenvolvidas na América Latina?

Por Danielle Cassita | Editado por Douglas Ciriaco | 03 de Maio de 2021 às 19h20
MCTIC

Com as missões que chegaram a Marte recentemente, as tripulações que alternam regularmente a estadia a bordo da Estação Espacial Internacional (ISS), ou atual e ambicioso programa espacial da China, pode parecer que as empreitadas espaciais se restringem somente aos países desenvolvidos. Contudo, dizer isso seria injusto com os países da América Latina, que também vêm investindo em iniciativas relacionadas ao espaço.

Os benefícios da exploração espacial vêm atraindo países de diversos perfis econômicos, mesmo aqueles que têm recursos mais escassos. Consideremos a Nicarágua, um país duramente atingido pela pobreza e conflitos: em fevereiro, o congresso do país aprovou uma lei para criar uma agência espacial por lá. Já a Costa Rica fez o mesmo em 18 de fevereiro — que, por coincidência, foi o mesmo dia em que o rover Perseverance, da NASA, pousou em Marte.

Apesar de essas tecnologias serem promissoras, é comum que as iniciativas relacionadas ao espaço envolvam críticas, principalmente quando o país enfrenta problemas em solo: “a verdade é que o tipo de desconfiança relacionada ao anúncio do programa espacial da Nicarágua é similar àquela que surge quando qualquer país africano anuncia um programa espacial", explica Temidayo Oniosun, diretor da empresa Space in Africa. "As pessoas sempre questionam por que faz sentido, especialmente porque esses países estão enfrentando problemas socioeconômicos graves", diz.

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Exibição do satélite Pegaso, do Equador (Imagem: Domínio público)

Segundo Oniosun, é preciso considerar que grande parte destes países têm interesse nas tecnologias espaciais para enfrentar os desafios de seu próprio desenvolvimento: "alguns querem satélites de comunicação porque eles proporcionam um excelente retorno de investimento, e ajudam a diminuir os desafios de desigualdade digital", explica — tanto que é por isso que dificilmente vemos as nações emergentes investindo em explorações espaciais para a Lua, Marte, entre outros destinos.

Por isso, o crescimento da indústria comercial espacial e as possibilidades de acesso à internet por meio das megaconstelações de satélite seria uma opção interessante para estes países, que pode ajudá-los a superar a lacuna na cobertura de conexão, além de proporcionar também monitoramento ao cultivo de plantações, gerenciamento de desastres naturais e acompanhamento do clima.

O Equador já lançou o satélite Pegaso em 2013 em parceria com a China, mas a espaçonave foi danificada após cerca de um mês de operações. Já a Guatemala, que pode seguir por um caminho parecido com o da Costa Rica, lançou seu satélite Quetzal-1 no ano passado, em parceria com o Japão.

E o Brasil?

Quando o assunto são lançamentos espaciais no Brasil, o Centro Espacial de Alcântara (CEA), no Maranhão, costuma atrair os holofotes — e não é sem motivos: apesar de não comportar lançamentos para explorar outros mundos, a base foi construída em uma localização extremamente privilegiada. As instalações ficam em uma região a 2º18’ ao sul da Linha do Equador, o que permite até 30% de economia de combustível dos veículos. Além disso, o CEA tem também as vantagens de ficar em um local de baixo tráfego aéreo e com boas condições meteorológicas.

A base de Alcântara (Imagem: Reprodução/Agência Espacial Brasileira)

Considerado a “janela brasileira para o espaço”, o CEA pode fornecer suporte logístico, lançamento e rastreio de objetos espaciais. Contudo, o local tem limitações que foram mostradas recentemente: como a base não tem uma plataforma com dimensões e estrutura que sejam adequadas para comportar veículos de lançamento de grande porte, o satélite Amazonia-1 (o primeiro que foi totalmente projetado, testado e operado no Brasil) precisou ser lançado na Índia, e não em solo brasileiro.

Ainda assim, os benefícios proporcionados pela base de Alcântara atraíram o interesse de empresas estrangeiras, o que permitiu o firmamento de acordos com quatro delas: na semana passada, as empresas Hyperion, Orion AST e Virgin Orbit, dos Estados Unidos, além da canadense C6 Launch, foram as primeiras empresas privadas a fechar parcerias para usar o CEA. Agora, as quatro escolhidas avançam para negociações de contratos para que, futuramente, possam lançar veículos orbitais e suborbitais na base do Maranhão.

Carlos Moura, presidente da Agência Espacial Brasileira, comentou que o CEA poderá comportar tanto veículos de lançamentos únicos quanto propostas de empresas que queiram realizar lançamentos contínuos. Entretanto, inicialmente as atividades por lá serão focadas em lançamentos de nanossatélites: "a miniaturização de satélites, a incorporação de soluções inovadoras, ampliação de serviços e presença cada vez mais marcante da iniciativa privada, fazem o newspace se avizinhar como a nova fronteira da exploração do espaço", comentou o tenente-brigadeiro Baptista Junior, comandante da Aeronáutica.

Fonte: Phys.org, AEB

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